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Estamos a aprender mais sobre as compulsões que alimentam os hábitos autodestrutivos e sobre a maneira como a ciência pode ajudar a combatê-las.

Texto Fran Smith   Fotografia Max Aguilera-Hellweg

A dependência apropria-se das vias neuronais do cérebro. Os cientistas continuama investigar tratamentos que possam oferecer uma saída do ciclo de desejo, compulsão e abstinência que prende dezenas de milhões de pessoas. Janna Raine tornou-se dependente de heroína há duas décadas, depois de tomar analgésicos prescritos para uma lesão profissional. No ano passado, vivia num acampamento de pessoas sem-abrigo por baixo de um viaduto em Seattle.

Patrick Perotti troçou quando a mãe lhe falou num médico que usa ondas electromagnéticas para tratar a toxicodependência. “Pensei que era um charlatão”, conta.
Patrick tem 38 anos e vive na cidade italiana de Génova. Começou a inalar cocaína aos 17 anos. O seu prazer transformou-se gradualmente num hábito e depois numa compulsão que o consumia por dentro. Apaixonou-se, teve um filho e abriu um restaurante. Vergados ao peso da dependência, a família e o negócio soçobraram.

Começou a inalar cocaína aos 17 anos. O seu prazer transformou-se gradualmente num hábito e depois numa compulsão que o consumia por dentro.

Fez três meses de reabilitação e teve uma recaída 36 horas depois de sair do centro. Passou mais oito meses noutro programa, mas no dia em que regressou a casa, encontrou o seu traficante e repetiu o consumo. “Comecei a consumir cocaína furiosamente”, recorda. “Fiquei paranóico, obcecado, maluco. Não conseguia imaginar uma maneira de parar.”
Quando a mãe o pressionou a falar com o médico, Patrick cedeu. Descobriu que só teria de sentar-se numa cadeira parecida com a de um dentista e deixar o médico, Luigi Gallimberti, segurar um dispositivo junto da sua cabeça e, em teoria, isso reprimiria o seu desejo por cocaína. 
Luigi Gallimberti, psiquiatra especializado em toxicologia, dedica-se há 30 anos ao tratamento da dependência e tem uma clínica em Pádua. 
A sua decisão de experimentar a técnica de estimulação magnética transcraniana (EMT) enraizou-se em progressos significativos na ciência da dependência e na sua frustração face aos tratamentos tradicionais. A medicação pode ajudar as pessoas a deixarem de beber, fumar ou consumir heroína, mas as recaídas são comuns e não existe um medicamento eficaz para a dependência de estimulantes como a cocaína. “É muito difícil tratar estes pacientes”, afirma.

Analisando exames cerebrais em dependentes de cocaína em recuperação, a neurocientista Anna Rose Childress estuda como alusões subliminares a drogas podem excitar o sistema de recompensa do cérebro e contribuir para a recaída. Quando mostrou imagens como a fotografia de cocaína visível no monitor esquerdo a pacientes durante 33 milissegundos, o seu circuito de recompensa foi estimulado. Ela tenta descobrir medicamentos que permitam prevenir esta activação e impedir que as pessoas sejam vítimas de interruptores “invisíveis”.

Segundo o Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, mais de duzentas mil pessoas morrem anualmente em todo o mundo devido a sobredosagens de droga e doenças relacionadas com o consumo de droga (por exemplo, o VIH). Muitas mais morrem devido a tabaco e álcool. Mais de mil milhões de pessoas fumam e o tabaco tem relação com as cinco principais causas de morte: doenças cardíacas, acidentes vasculares, infecções respiratórias, doença pulmonar obstrutiva crónica e cancro do pulmão. Quase um em cada vinte adultos em todo o mundo é dependente de álcool. Nunca foi contabilizado o número de pessoas dependentes do jogo e de outras actividades compulsivas que têm vindo a ser identificadas como dependências.

Quase um em cada vinte adultos em todo o mundo é dependente de álcool.

Os cientistas desenvolveram uma imagem pormenorizada da forma como a dependência perturba as vias e os processos subjacentes ao desejo, formação de hábitos, prazer, aprendizagem, regulação emocional e cognição. A dependência causa centenas de alterações na anatomia e química cerebral e na sinalização celular, incluindo nos espaços existentes entre neurónios, chamados sinapses, que são a maquinaria molecular da aprendizagem. Tirando partido da maravilhosa plasticidade do cérebro, a dependência remodela os circuitos neuronais de modo a atribuir um valor supremo à cocaína, à heroína ou ao gin, em detrimento de outros interesses, como a saúde, o trabalho, a família ou a própria vida. “De certo modo, a dependência é uma forma patológica de aprendizagem”, diz o neurologista Antonello Bonci.

Mais de duzentas mil pessoas morrem anualmente em todo o mundo devido a sobredosagens de droga e doenças relacionadas com o consumo de droga (por exemplo, o VIH).

Luigi Gallimberti ficou fascinado ao ler um artigo num jornal sobre as experiências realizadas por Antonello e colegas do NIDA e da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Ao medirem a actividade eléctrica nos neurónios de ratos dependentes de cocaína, descobriram que uma região do cérebro envolvida na inibição de comportamentos estava anormalmente calma. Utilizando optogenética, que combina fibra óptica com engenharia genética para manipular o cérebro de animais com uma velocidade e precisão outrora inimagináveis, os investigadores activaram estas células letárgicas nos ratos. “O seu interesse na cocaína praticamente desapareceu”, diz Antonello. Os investigadores sugeriram que o estímulo da região do cérebro humano responsável pela inibição de comportamentos, no córtex pré-frontal, poderia acalmar o impulso insaciável que impele o toxicodependente a consumir droga.
Luigi Gallimberti pensou que a ETM poderia ser uma forma de o fazer. Os nossos cérebros funcionam com impulsos eléctricos que correm entre os neurónios, a cada pensamento e movimento. 
A estimulação cerebral, há muito utilizada no tratamento da depressão e da enxaqueca, afecta esses circuitos. O dispositivo é um simples fio enrolado em espiral no interior de uma vara. Quando atravessada pela corrente eléctrica, a vara cria um impulso magnético que altera a actividade eléctrica do cérebro. Luigi Gallimberti pensou que impulsos repetidos poderiam activar as vias neuronais danificadas pelas drogas, um processo semelhante ao reinício de um computador bloqueado.

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