Um pouco nervosos, os jovens engenheiros indianos ocuparam os seus lugares numa sala de conferências improvisada num gigantesco antigo armazém de baterias de automóveis em Bangalore. Sentados à sua frente estavam vários homens e mulheres muito mais velhos, grande parte dos quais eram génios de cabelo grisalho integrados no robusto programa espacial da Índia. A primeira agência espacial asiática a enviar uma sonda orbital para Marte quase triplicou um antigo recorde mundial ao colocar 104 satélites em órbita numa única missão em Fevereiro deste ano. Agora, o alvo das atenções de todos era um pequeno dispositivo rolante praticamente do tamanho de um forno de microondas.

Texto Sam Howe Verhovek   Fotografia Vincent Fournier

 

Synergy Moon - Erik Reedy analisa o design de um foguetão na Interorbital Systems (IOS), patrocinadora desta equipa internacional. Objectivo: ser a fornecedora mais barata de lançamentos da indústria espacial. 

 Os membros da equipa explicaram os seus planos para enviar o dispositivo para o espaço a bordo de um foguetão no final deste ano, posicioná-lo na órbita lunar, quase a quatrocentos mil quilómetros de distância, guiá-lo até um local de alunagem e depois pô-lo a circular sobre a acidentada paisagem lunar. Os engenheiros da TeamIndus afirmaram que a sua empresa faria tudo isto com um orçamento limitado: cerca de 57 milhões de euros, a maioria dos quais angariados junto de investidores privados.

50 anos após o fim da primeira grande corrida à Lua, na qual os Estados Unidos da América e a União Soviética gastaram somas fantásticas numa tentativa de colocar os primeiros seres humanos na superfície lunar, está em curso uma nova e intrigante corrida ao nosso vizinho espacial mais próximo.

Ashish Kacholia, um destacado investidor de Mumbai (Bombaim) que aplicara cerca de um milhão de euros na empresa, ocupava um lugar na primeira fila e mostrava-se hipnotizado pela discussão. O ambiente era uma mistura de perguntas rápida e intensa de uma defesa de doutoramento com a gritaria generalizada pontuada por gargalhadas que caracteriza Lok Sabha, a ruidosa câmara baixa do Parlamento indiano. Ashish não precisava de ficar ali o dia inteiro para acompanhar o seu investimento, mas deixou-se ficar só para ouvir as conversas eruditas sobre projecções orbitais selenocêntricas (centradas na Lua), modelos de força, apogeu e perigeu e as bases da matriz de co-variância de erro concebida “pelos miúdos”.
“É mesmo emocionante”, explicou depois. “Temos jovens de 25, 28 anos a defenderem os seus cálculos, todo o seu trabalho, diante de mil anos da experiência e sabedoria aeroespacial colectiva do país.” O seu amigo S.K. Jain, outro investidor indiano de renome, acenou em vigorosa concordância. “Estes miúdos estão a incendiar a imaginação da Índia”, comentou. “Estão a dizer ao país que nada é impossível.”

De “Full Moon” de Michael Light, 1999; Original da NASA; Fotografia  Mark Thiessen. 

Quase 50 anos após o fim da primeira grande corrida à Lua, na qual os Estados Unidos da América e a União Soviética gastaram somas fantásticas numa tentativa de colocar os primeiros seres humanos na superfície lunar, está em curso uma nova e intrigante corrida ao nosso vizinho espacial mais próximo – desta vez envolvendo capitais privados e custos dramaticamente inferiores. O prémio mais imediato, o Google Lunar XPrize (ou GLXP), no valor de 17,5 milhões de euros, será atribuído a uma de cinco equipas finalistas oriundas de todo o mundo. São as primeiras equipas com financiamento privado a tentar pousar um veículo de exploração na Lua capaz de transmitir imagens de alta qualidade para a Terra.
O concurso segue explicitamente os moldes das grandes fases de inovação dos primeiros anos da aviação, com destaque para o Prémio Orteig, conquistado por Charles Lindbergh em 1927 com a sua viagem aérea sem escalas entre Nova Iorque e Paris, a bordo do Spirit of St. Louis.

Hakuto, Japão -Sorato, o veículo de exploração não tripulado construído pela equipa japonesa participante no concurso Google Lunar XPrize, encontra-se numa sala esterilizada. Um prémio de 17,5 milhões de euros será atribuído ao primeiro grupo com financiamento privado que pousar na Lua um veículo capaz de percorrer 500 metros e transmitir imagens e vídeo para a Terra – um pequeno passo a pensar em recompensas financeiras colossais que nos acenam a partir da Lua e mais além.

À semelhança da demanda pelo Prémio Orteig, o concurso do Lunar XPrize envolve o prestígio nacional. Equipas de Israel, do Japão, da Índia, dos EUA e um grupo multinacional competem pela honra: outros países integram as 16 equipas que sobreviveram até à meia-final, no ano passado.
Quase tão diversificado como as nacionalidades é o leque de abordagens e parcerias comerciais envolvidas na resolução dos três problemas essenciais: lançamento da Terra, alunagem e mobilidade para recolha e transmissão de dados. Para alcançar este desafio, três equipas planeiam utilizar variantes de um veículo de exploração não tripulado tradicional, enquanto outras duas prevêem utilizar os seus veículos para dar um salto gigantesco em termos de iniciativa privada: vão “pular” o mínimo requerido de 500 metros na Lua em vez de percorrê-los ao longo da superfície.

TeamIndus, Índia - Pesando apenas 7,5 quilogramas mas carregando o orgulho e a esperança de uma nação na sua estrutura esguia, o veículo de exploração não tripulado da equipa indiana, com o nome de código ECA, é ensaiado em Bangalore. O enorme balão de hélio acoplado ao veículo simula a gravidade da Lua, que é um sexto da terrestre.

À semelhança do que aconteceu a muitos dos antigos primeiros prémios de aviação, a equipa vencedora, seja qual ela for, irá quase certamente gastar muito mais do que o valor do prémio para conquistá-lo. Apesar disso, todas as equipas esperam que a publicidade global e o “reforço da marca” garantidos pela vitória acabem por compensar largamente o investimento.
No centro da nova corrida ao espaço há uma pergunta que muitos considerariam hilariante no tempo da guerra fria, quando os EUA gastaram mais de 4% do seu orçamento federal para chegar à Lua antes da superpotência inimiga: poderá efectivamente alguém ganhar dinheiro aventurando-se no espaço? Para um grupo de empresários, cientistas, visionários, evangelistas, sonhadores, excêntricos e possíveis loucos envolvidos na florescente indústria espacial a resposta é um “Sim” categórico.

EUA -As equipas que não concorrem ao XPrize também acalentam sonhos grandiosos. A Astrobotic Technology está a construir módulos de alunagem como o Griffin (em cima) num armazém em Pittsburgh. O lema da empresa é “tornar a Lua acessível ao mundo”, vendendo espaço MoonMail na sua viagem em veículo fretado.
Alemanha -O veículo de exploração não tripulado Audi Lunar Quattro (em baixo), construído pela PT Scientists, suporta a acção do solo aquecido a 120°C e de luzes de 1.000 watts para simular as condições lunares. Este veículo não participa no XPrize, mas poderá conduzir imenso “valor pessoal, comercial, educativo, científico ou tecnológico” à superfície lunar.

No seu famoso discurso de 1962, John F. Kennedy incitou os EUA a “escolherem ir à Lua nesta década e apontar para outros objectivos, não por serem fáceis, mas por serem difíceis”. Agora, Bob Richards, fundador e director-geral da Moon Express (a equipa norte-americana), apresenta um argumento diferente, embora descarado: “Escolhemos ir à Lua porque é lucrativo!”
Não sabemos se Bob Richards terá razão e, se tiver, é altamente imprevisível vaticinar quando se concretizará. Os contratempos são a norma no negócio espacial e, para sermos realistas, várias empresas obter ão os primeiros fundos através de contratos com o Estado e não de clientes privados.No entanto, Bob prevê que o primeiro bilionário do mundo venha a ser um empresário da indústria espacial, possivelmente aquele que conseguir extrair do solo lunar hélio-3, um gás raro na Terra, mas abundante na Lua e uma excelente potencial fonte de combustível para fusão nuclear. É um dos santos graal da tecnologia energética que os cientistas tentam dominar há décadas. 

SpaceIL, Israel -Este modelo parcial do módulo de alunagem SpaceIL encontra-se numa câmara sem eco, (no topo), que absorve ondas electromagnéticas, permitindo aos engenheiros testar a forma como as suas antenas transmitirão e receberão dados enquanto estiver na Lua. Noutro local das instalações da SpaceIL, nos arredores de Telavive, uma câmara térmica de vácuo cria o mesmo calor intenso a que o módulo estará exposto durante um dia lunar, o equivalente a uma exposição contínua à luz solar durante 14 dias terrestres (em baixo).

Outra enorme fortuna poderá ser extraída de asteróides e de outros corpos próximos da Terra, onde talvez seja possível utilizar tecnologia robótica na extracção mineira de grandes quantidades de ouro, prata, platina, titânio e outros elementos valiosos neles existentes.
“Lá em cima, há cheques à espera de serem descontados!”, brinca Peter Diamandis, médico e engenheiro e co-fundador da Planetary Resources, uma empresa apoiada pelo realizador do filme “Avatar”, James Cameron, e muitos outros multimilionários da área tecnológica. A Planetary Resources também adquiriu a empresa Asterank em 2013. O sítio da Asterank na Internet fornece dados científicos e projecta o valor económico da extracção mineira em mais de 600 mil asteróides.
Peter é igualmente o fundador e presidente-executivo da XPrize Foundation, patrocinadora de vários outros concursos criados para estimular a inovação e a tecnologia em campos tão diversificados como a inteligência artificial, a matemática, a energia e a saúde global. Segundo Chanda Gonzales-Mowrer, membro da direcção da fundação, o concurso Lunar XPrize tem por objectivo ajudar a abrir caminho para “uma nova era de acesso financeiramente exequível à Lua e mais além”.

Rivalidade entre superpotências - A partir da década de 1950, a União Soviética e os EUA mobilizaram orçamentos gigantescos para alcançar a Lua e gastaram ainda mais para se ultrapassarem mutuamente na exploração da sua superfície. Quatro décadas depois de a corrida acalmar, a China fez a sua primeira incursão. Na imagem; URSS 1970-73, Veículos não tripulados Lunokhod - O primeiro veículo de exploração lunar não tripulado bem-sucedido, controlado à distância pela Rússia, recolheu dados sobre o solo e topografia lunares(à esquerda); EUA 1971-72, Veículos de exploração lunar Apollo - Três missões Apollo enviaram homens à Lua com veículos de exploração lunar (LRV), ajudando-os a percorrer longas distâncias para recolher amostras, captar imagens e fazer experiências. Apollo 15 LRV na imagem (ao centro); China 2013, Veículo não tripulado Yutu - A China entrou em jogo com um veículo pequeno, equipado com radar de penetração no solo para medir as camadas do terreno lunar (à direita). Gráfico Manuel Canales, Ryan T. Williams, Elena Sheveiko e Matthew W. Chwastyk. Arte: Tomás Muller. Fotografias, a partir da esquerda: OFF/AFP/Getty Images; Science History Images/Alamy Stock Photo; Space Frontiers/Getty Images; Corbis via Getty Images; XPrize. Fontes: Associação Lavochkin, Rússia; NASA; Instituto de Tecnologia de Acompanhamento e Localização de Pequim; Observatórios Astronómicos Nacionais, Academia Chinesa das Ciências.

Da mesma forma que o reconhecimento mundial da corajosa proeza de Lindbergh gerou grande interesse pela aviação civil, este concurso lunar destina-se a inflamar a imaginação pública relativamente aos pioneiros da indústria espacial privada, que já estão a transportar cargas para a Estação Espacial Internacional e a lançar satélites, foguetões orbitais e módulos de teste.

Explorando a Lua - O primeiros veículos de exploração lunar tripulados e não tripulados (LRV) a viajar sobre a superfície da Lua percorreram distâncias significativas em missões de recolha de dados.

Abandonados - Cerca de quatro dezenas de locais contêm vestígios de missões passadas, desde veículos de exploração a bandeiras, funcionando como marcos históricos do passado.

Em breve, as naves poderão transportar passageiros: a Virgin Galactic que, segundo as palavras do seu fundador, o multimilionário Richard Branson, é “a primeira linha espacial comercial do mundo”, garante que está a preparar-se para transportar passageiros em curtas excursões ao espaço, proporcionando-lhes experiências de ausência de gravidade e observações espectaculares da Terra. Elon Musk, fundador da SpaceX, anunciou em Fevereiro que a sua empresa tentará levar dois cidadãos privados ainda por identificar à órbita lunar em finais de 2018, a bordo do seu vaivém Dragon

SpaceIL, Israel - Envergando o seu uniforme espacial oficial na sede da organização israelita em Telavive, Yuval Klinger, de 7 anos, segue entusiasmada os seus progressos e pondera se o espaço poderá fazer parte dos seus planos de carreira no futuro. Está longe de ser a única com tais interesses. “Queremos que todos os miúdos de Israel tenham noção do que se está a passar”, disse Eran Privman, o líder da SpaceIL. “Queremos que estes miúdos sejam capazes de explicar aos pais o que se está a passar.”

Dois meses mais tarde, o fundador da Amazon, Jeff Bezos, contou que iria vender um lote de acções no valor de mil milhões de dólares para financiar a Blue Origin, o seu negócio de turismo comercial e espacial.
Há muitas razões para nos sentirmos cépticos quanto à possibilidade de estas empresas conseguirem efectivamente levar clientes privados ao espaço a curto prazo. Afinal de contas, o acidente sofrido pelo protótipo do vaivém da Virgin Galactic, ocorrido em 2014, atrasou os esforços da empresa em vários anos. E embora o concurso Lunar XPrize pareça estar a chegar ao fim, ainda há bastantes obstáculos a superar: a possibilidade de prazos incumpridos ou o fracasso dos testes de pré-lançamento dos foguetões, para mencionar apenas dois.

Moon Express, EUA.- O cabo Canaveral é a sede da equipa que está a construir o módulo MX-1E. Um modelo do veículo em tamanho de bolso ocupa o centro de uma mesa de conferências (e cima) durante uma reunião. No exterior, membros da equipa põem o seu protótipo (em baixo) a postos para uma sessão fotográfica. Segundo o director-geral da Moon Express, Bob Richards: “A tendência actual é a nossa mudança para nos tornarmos uma espécie espacial, talvez tão importante como a transição dos anfíbios dos oceanos para terra firme.”

Além disso, o impacte da corrida na imaginação do público poderá revelar-se limitado. Para começar, falta simplesmente o drama humano e a expectativa da alunagem em 1969 e o regresso em segurança dos homens à Terra, um feito que deu início a uma época de exploração humana da superfície lunar que acabou por durar escassos três anos. Os veículos de exploração lunar não tripulados já existem há décadas: quando a China alunou o Yutu em 2013, tornou-se o terceiro país a levar um veículo de exploração à Lua.
Na verdade, o que há de especial nesta corrida?

 

FINALISTAS - Após uma descida perigosa e uma alunagem complicada, as equipas que cumpriram todos os prazos e ainda permanecem na corrida fazem planos para “saltar” ou percorrer sobre rodas a distância necessária. No futuro, a corrida será pela exploração dos recursos lunares. Na imagem: 1TeamIndus/ECA - O maior veículo de exploração não tripulado foi concebido por engenheiros do “Silicon Valley” da Índia, sendo ensaiado num ambiente poeirento. A equipa foi igualmente contratada para realizar a alunagem do veículo japonês; 2Hakuto/SORATO - O veículo tem um sensor 3D para detectar obstáculos. Em missões futuras, a equipa procurará tubos de lava que poderão servir 
de abrigo às primeiras colónias lunares. Acima, o módulo de alunagem indiano também posicionará o veículo da Hakuto; 3 - Synergy Moon/TESLA - Esta equipa internacional composta por antigos concorrentes inclui artistas. O seu veículo é o mais pequeno, tendo por base um robot de vigilância militar disponível no mercado comercial. Acima, airbags protegerãoo veículo da Synergy Moon quando atingir a superfície; 4Moon Express / mx-1e - Esta equipa norte-americana pretende chegar à Lua e extrair recursos minerais como hélio-3 e metais preciosos; 5 - SpaceIL - A equipa israelita, sem fins lucrativos, tem um veículo saltador equipado com um magnetómetro para medir o campo magnético da Lua. Gráfico Manuel Canales, Ryan T. Williams e Daisy Chung. Arte: Tomás Muller.  Fontes: XPrize; Space Angels; Space Foundation.

“A novidade é que os custos do projecto estão a diminuir e de forma dramática”, explica John Thornton, director-executivo da empresa Astrobotic, cujo objectivo é “tornar a Lua acessível ao mundo”, com serviços logísticos que envolvam o transporte de tudo, desde experiências universitárias a MoonMail (Correio Lunar) de clientes que querem simplesmente deixar uma lembrança sua na superfície lunar – um bilhete, uma fotografia, uma madeixa de cabelo de um ente querido falecido.
“Uma empresa como a nossa sabe fazer contas e mostrar aos investidores que tem um plano exequível para ganhar dinheiro”, conta John. “Há alguns anos, isto seria ficção científica.”

Chegar à Lua - O custo de lançar um foguetão para lá da atmosfera terrestre a 29 mil quilómetros por hora pode ascender a dezenas de milhões de euros. As equipas estão a contratar os serviços de empresas com foguetões supostamente capazes de levá-las até lá. Informação confirmada em Maio de 2017 e sujeita a alterações.

Veículos com rodas ou saltadores -Três equipas estão a modernizar a tecnologia dos veículos já existente para se deslocarem sobre superfície lunar após a alunagem. As outras duas pretendem usar módulos que saltarão sobre o solo com a ajuda de propulsores. 

Ascensão dos empresários espaciais - O número de empresas espaciais comerciais está a aumentar vertiginosamente. A indústria espacial gerou um total de mais de 220 mil milhões de euros em receitas em 2016.

Competindo pelo futuro - Mais de vinte equipas inscreveram-se no XPrize quando este foi anunciado. À data de impressão desta revista, restam cinco. Lista Inclui equipas e aquisições registadas após 2010.  

Se a corrida para levar um homem à Lua equivalesse a construir um daqueles computadores prodigiosamente caros do tamanho de uma sala nos primeiros tempos da alta tecnologia, a corrida de hoje seria análoga a uma era inteiramente diferente da computação: a corrida para instalar um computador financeiramente acessível em cada mesa de trabalho ou, alguns anos mais tarde, em cada telefone.
Os computadores da actualidade são de tal forma minúsculos que poderemos chegar à Lua com dispositivos cada vez mais pequenos e menos caros. Em vez de veículos de exploração do tamanho de carros de golfe, a próxima geração de máquinas que exploram, cartografam e até mineram a paisagem lunar poderá perfeitamente ser do tamanho de um camião de brincar. Com efeito, esse é o principal factor impulsionador da actual economia espacial.

Hakuto, JapãoKyoko Yonezawa reflecte sobre o progresso da equipa à medida que o prazo se aproxima. Segundo os planos, Sorato, o veículo japonês, apanhará boleia até à Lua a bordo do foguetão e do módulo de alunagem da TeamIndus. Depois há que esperar para ver qual dos veículos conclui o percurso sobre a superfície lunar. O orgulho nacional deu grande popularidade à demanda pelo XPrize no Japão. “Não estamos nisto só para ganhar, embora isso fosse agradável”, disse o líder da equipa, Takeshi Hakamada.

 “Pense em microveículos e CubeSats em miniatura”, diz William L. “Red” Whittaker, lendário especialista em robótica da Universidade Carnegie Mellon e pioneiro em tecnologia de veículos de exploração não tripulados e tecnologia automóvel com piloto automático. “É impressionante o que se está a passar. Tudo se decidirá com engenhos pequenos. Muito pequenos.”
Segundo alguns especialistas da indústria espacial, a Lua poderá um dia não ser o destino da nossa viagem e apenas uma espécie de aeroporto gigante, no qual teremos de fazer escala a caminho de outras paragens.

A física do voo espacial humano continua a ser mais complexa, embora estes avanços possam anunciar uma forma mais pequena, mais ágil e mais barata de levar as pessoas novamente à Lua e até mais longe.
Com efeito, segundo alguns especialistas da indústria espacial, a Lua poderá um dia não ser o destino da nossa viagem e apenas uma espécie de aeroporto gigante, no qual teremos de fazer escala a caminho de outras paragens. 
As vantagens económicas e de engenharia inerentes ao facto de os lançamentos estarem ali sujeitos a apenas um sexto da gravidade da Terra tornam uma estação lunar um ponto de escala ideal para a exploração do universo.
A água, actualmente retida sob a forma de gelo nos pólos lunares, seria uma fonte de vida e de combustível: água para beber, água para irrigar culturas e água para ser dividida em oxigénio e hidrogénio, o primeiro para respirarmos e o segundo para fornecer energia às naves espaciais viajando para além desta base lunar. Mais uma vez, não sabemos se o futuro será assim. Sabemos, no entanto, que o primeiro destino da emergente indústria espacial é óbvio: a Lua.

Hakuto, JapãoJornalistas japoneses reúnem-se nas isoladas dunas Tottori para assistir aos ensaios de campo do Sorato, observando Takeshi a transportar o veículo até um local de teste arenoso que simula a superfície lunar. “Queremos mostrar ao mundo que possuímos tecnologia viável”, diz.

Para assistir a uma missão de ensaio da equipa Hakuto, a concorrente japonesa do concurso Lunar XPrize, viajei, em Setembro do ano passado, até um local isolado e varrido pelo vento conhecido como Dunas de Areia Tottori, no Oeste do Japão. Durante dias, uma chuva feroz e nada lunar assolou a costa, vinda do mar do Japão, impedindo o teste. Numa pousada de juventude situada nas proximidades, o líder da equipa, Takeshi Hakamada, e os seus colegas estavam irrequietos. Vestidos com elegantes casacos cinzentos ostentando um logótipo em forma de coelho (Hakuto é um coelho branco mitológico dos contos populares japoneses) e ingerindo bebidas energéticas de um trago, ajustavam constantemente o software que simulava o atraso de 2,5 segundos nas comunicações entre a Terra e a Lua, localizada a aproximadamente 400 mil quilómetros.

A proposta da equipa Hakuto inclui um veículo de exploração não tripulado de quatro rodas, apelidado de Sorato pela equipa, o qual, em futuras missões após o XPrize, será acoplado a um robot separado de duas rodas com capacidade de inclinação.

Certa noite, de repente, os céus clarearam e as estrelas apareceram. Entre os estalidos dos intercomunicadores portáteis, a equipa de Hakamada transportou um conjunto impressionante de computadores portáteis, tablets e sensores ao longo de uma clareira até chegar às dunas. Seguiram-se, com o máximo cuidado, um par de robots de exploração não tripulados concebidos para trabalhar sobretudo em conjunto quando estiverem na Lua, mas parcialmente isolados – o factor decisivo em que se apoia a ideia lucrativa de Hakamada.
A proposta da equipa Hakuto inclui um veículo de exploração não tripulado de quatro rodas (apelidado de Sorato pela equipa (em homenagem a uma banda japonesa de rock alternativo), o qual, em futuras missões após o XPrize, será acoplado a um robot separado de duas rodas com capacidade de inclinação. As duas unidades foram maioritariamente fabricadas com componentes leves e resistentes de fibra de carbono. Takeshi, um homem magro e atencioso com uma cabeleira indomável e fanático pelo espaço desde que viu o primeiro filme da série “Guerra das Estrelas” quando andava na escola primária, diz que o robot mais pequeno pode penetrar no interior de fissuras, tubos de lava e grutas. Reunirá dados essenciais sobre esses locais, esperando que um dia eles possam cumprir a função crucial de servirem de habitats temporários para futuras bases lunares, protegendo os seres humanos enquanto são construídos alojamentos mais definitivos.

Os finalistas do Lunar XPrize 
podem competir entre si por prémios suplementares se realizarem feitos adicionais sobre a Lua: Visitar e transmitir a partir 
de um sítio lunar histórico: 0,8-4 milhões €; Percorrer cinco quilómetros: 1,7 milhões €; Sobreviver e transmitir em dois dias lunares: 1,7 milhões €; Obter provas da presença de água: 3,5 milhões €

A iSpace, empresa sediada em Tóquio e gerida por Hakamada, planeia utilizar os avanços japoneses na miniaturização da tecnologia para sondar, fotografar, cartografar e modelizar a Lua com um nível de pormenor muito superior ao que pode ser observado em fotografias e resultados de testes ao solo obtidos por missões de exploração lunar anteriores.
“Não estamos aqui só para ganhar um prémio, embora isso fosse agradável”, disse Takeshi pouco antes do teste. “Estamos aqui para mostrar ao mundo que temos uma tecnologia viável capaz de produzir informação importante que as pessoas estejam dispostas a pagar.”
Com rodas ligeiramente semelhantes a azenhas antigas, o veículo principal atingiu um “ponto de alunagem” nas dunas: um local suficiente parecido com a acidentada superfície lunar para ser capaz de simulá-la. O robot vai apanhar a boleia da Organização Indiana de Pesquisa Espacial, a agência governamental cujo foguetão vai igualmente transportar o veículo de exploração lunar da TeamIndus, em finais de Dezembro. Para ganhar o prémio XPrize, os lançamentos de cada equipa têm de ocorrer até 31 de Dezembro, mas as missões podem ser concluídas no início de 2018.

A batalha pela supremacia foi renhida, com os governos da URSS e dos EUA alternando vitórias na corrida da exploração lunar: 1957 - URSS, Sputnik: Primeiro satélite artificial lançado para a órbita terrestre. 

O silêncio imperava nas dunas Tottori quando o relógio se aproximou da meia-noite, com o rugido do mar abafado pelas falésias. O minúsculo veículo de exploração da equipa parecia desamparado no simulacro arenoso (uma simulação da superfície lunar). Takeshi e a sua equipa introduziram comandos no computador, levando em conta o atraso temporal nas comunicações com a Lua e, de súbito, o veículo ganhou vida, avançando fluidamente pela areia, percorrendo vários centímetros por segundo. Sentiu vários perigos dispostos no seu percurso e navegou correctamente através deles. Esta capacidade será essencial na Lua, onde uma rocha ou uma vala suficientemente grandes podem arruinar uma missão.

1959 - URSS, Luna 1, 2, 3: Primeiro sobrevoo lunar, alunagem forçada 
e sonda. 

“O veículo portou-se lindamente”, resumiu Takeshi mais tarde, exuberante como se falasse de um filho recém-nascido. Com efeito, explicou, a sua confiança no desempenho do robot deixara de ser o principal problema. “Estamos convencidos de que o maior problema para a inovação espacial não é a tecnologia propriamente dita, mas o empreendedorismo a ela associado. Para abrir novos mercados no espaço, temos de convencer as pessoas de que isto é a sério e temos de contestar todos aqueles velhos estereótipos segundo os quais apenas as grandes agências governamentais podem apostar neste tipo de exploração.”
“Isso é fabuloso nesta corrida”, acrescentou. “Qualquer que seja o vencedor, vai provar que tal é possível.”

1961 - EUA, Discurso de JFK: Kennedy incita os EUA a pôr um “homem sobre a superfície da Lua” até final da década.

A alguns passos do oceano Atlântico, no estado da Florida, numa enorme parcela de matagal, o Complexo de Lançamento Espacial do Cabo Canaveral (SLC) 17 parece, à primeira vista, uma relíquia. Entre 1957 e 2011, o local foi utilizado para lançar foguetões Thor e Delta, uns com os primeiros mísseis balísticos dos EUA e os outros com satélites e sondas para exploração do sistema solar e dispositivos para observação mais pormenorizada do próprio Sol.
Numa agradável noite de Março deste ano, o único som que se ouvia em SLC-17 era uma ligeira brisa vinda do mar, assobiando entre as torres enferrujadas do complexo. Porém, atrás de uma porta trancada num antigo pavilhão de manutenção, o protótipo de um veículo da primeira empresa norte-americana aprovada pelo governo para realizar uma missão espacial fora da órbita terrestre estava pronto para o seu destino final, a Lua.

1966 - URSS, Luna 9, 10: Primeira alunagem suave; primeiro satélite artificial a orbitar a Lua.

Para Bob Richards, outrora assistente do famoso astrofísico Carl Sagan e actual responsável máximo pela Moon Express, o melhor do design do módulo MX-1E é a sua dupla utilidade. “Um veículo de exploração não faz falta se o módulo de alunagem conseguir desempenhar essa função”, disse. Com efeito, acrescentou, o Google Lunar XPrize é demasiadas vezes mal interpretado como um concurso de veículos de exploração não tripulados.
“O maior desafio do GLXP é pousar na Lua”, afirmou. “Os veículos de exploração não conseguem alunar sozinhos e, na verdade, o termo ‘veículo de exploração não tripulado’ (ou rover) não figura sequer nas regras do concurso – só lá está que terá de responder ao requisito de mobilidade para percorrer um mínimo de 500 metros.”
Assim nasceu a ideia de vencer o concurso com um módulo capaz de saltar com a ajuda de propulsores. Após um lançamento inicial para a baixa órbita terrestre, o MX-1E será lançado utilizando peróxido de hidrogénio de alta concentração como fonte de combustível principal para viajar a altíssima velocidade até ao seu destino na Lua.

1968 - URSS, EUA, Zond 5, Apolo 8: Os soviéticos enviam os primeiros seres vivos para a órbita lunar. Os EUA enviam os primeiros seres humanos.

Após assumir a órbita lunar, o veículo acabará por fazer aquilo a que os engenheiros chamam “alunagem suave”: apesar da ajuda do inversor de impulso, a descida vertical será suficientemente violenta para exigir amortecimento com um sistema flexível de trens flexível capaz de absorver o impacte e garantir força suficiente para realizar a fase seguinte da missão. Com pouco combustível remanescente, o MX-1E dará um salto gigante para percorrer a distância necessária para ganhar o XPrize.
Com o seu discurso profundo e reputação na indústria espacial (nem sempre positiva) pelo seu dom da persuasão, Bob Richards torna tudo tão maravilhosamente viável que nos sentimos tentados a investir, mas existem argumentos para pensar duas vezes. Em particular, o lançamento da Moon Express não será feito por uma transportadora comprovada, como a SpaceX, com a sua linha de foguetões Falcon, mas pela Rocket Lab, uma empresa sediada nos EUA cujo local de lançamento na península Mahia, na Ilha Norte da Nova Zelândia, foi inaugurado em Setembro.

1969 - EUA, Apolo 11: Neil Armstrong torna-se o primeiro a caminhar sobre a Lua.

Os testes só começaram este ano, o que significa que a empresa enfrenta prazos agressivos para cumprir a exigência do XPrize de realizar efectivamente o lançamento até ao final do ano. Já foram alargados prazos anteriormente, mas o XPrize diz estar empenhado em concluir brevemente o concurso. É concebível que chegue ao fim sem um vencedor, embora um representante da fundação insista que “querem mesmo muito que alguém ganhe”.
A outra equipa que espera saltar a distância necessária até à vitória tem por sede um pequeno complexo industrial nos arredores de Telavive.

1972 - EUA, Apollo 16, 17: Segundo e terceiro veículos de exploração Apollo sobre a Lua.

“A nossa ideia é recriar um ‘efeito Apollo’ aqui em Israel e inspirar uma geração de miúdos que se superem nas áreas da ciência e tecnologia”, disse Eran Privman, herói nacional e director-geral da SpaceIL, cujo currículo ecléctico inclui experiência em combate como piloto da Força Aérea Israelita, doutoramentos em informática e neurociência pela Universidade de Telavive e vários cargos executivos, de investigação e de desenvolvimento para grandes empresas tecnológicas em Israel. Eran referia-se ao impacte que os programas espaciais Apollo tiveram na juventude das décadas de 1960 e 1970, altura em que as missões bem sucedidas inspiraram muitos dos fundadores das actuais empresas líderes da alta tecnologia.
Com o tamanho aproximado de um frigorífico pequeno, mas com uma forma mais circular, o módulo da SpaceIL deverá pesar 600 quilogramas quando se soltar do foguetão SpaceX Falcon 9, embora cerca de dois terços desse peso se devam ao combustível já consumido quando estiver pronto para pousar. Com alguma impulsão residual nos seus trens, semelhantes aos do MX-1E, utilizará o pouco combustível remanescente para saltar o meio quilómetro estabelecido pelas regras do XPrize.

TeamIndus, Índia Um modelo de espuma concebido para um vídeo (no topo) imita um protótipo do veículo ECA, pronto para testes num laboratório em Bangalore (em baixo). Engenheiros discutem os desafios da injecção translunar, a lenta “dança” propulsiva que terá de ser coreografada para concluir uma alunagem com sucesso. “Se for demasiado depressa, vai despenhar-se sobre a Lua”, explica um. “Se for demasiado devagar, será catapultada para lá de Marte” – outra maneira de dizer que o ECA ficaria perdido no espaço para sempre.

A iniciativa israelita começou em finais de 2010, com “três malucos sem muito dinheiro, mas com a ideia de que seria genial conduzir um robot à Lua”. É assim que o seu co-fundador, Yariv Bash, descreve o início da empresa durante uma visita ao laboratório de testes do computador principal do módulo de alunagem. A equipa esforçou-se até ao limite para cumprir um dos primeiros prazos do concurso, que requeria a apresentação de planos para uma estratégia de alunagem e um mínimo de 44 mil euros em activos. 
“Pedimos dinheiro a toda a gente”, recorda Yariv. “Cheguei ao ponto de pedir à minha mulher enquanto dormia.” Embora com pouco capital, o grupo possuía bastante conhecimento: Yariv é engenheiro electrónico e informático e dirigiu em tempos iniciativas de pesquisa e desenvolvimento para os serviços secretos israelitas. “Está a ver a personagem Q nos filmes de James Bond?”, perguntou-me enquanto bebíamos um copo. “Era um pouco o que eu fazia.”

1973 - URSS, Luna 21: A Lunokhod 2 explora a Lua durante quatro meses até entrar em sobreaquecimento. 

Os seus projectos iniciais eram mais pequenos do que o módulo que estão a montar este Verão, com peças provenientes de todo o mundo. E em vez de ser uma empresa com fins lucrativos, a SpaceIL acabou por ser a única empresa sem fins lucrativos entre os concorrentes finais ao XPrize, usufruindo do generoso financiamento de dois multimilionários famosos: o empresário da tecnologia, Morris Kahn, e o magnata dos casinos, Sheldon Adelson. Neste momento, a sua missão desdobra-se em dois vectores: vencer o prémio, como é óbvio, mas também educar e inspirar uma nova geração de potenciais líderes tecnológicos num país frequentemente apelidado de Nação Startup. 
Tal como na Índia, o orgulho nacional está em jogo. Quase todas as escolas de Israel têm agora uma unidade de ensino sobre a iniciativa SpaceIL e os alunos seguirão de perto a missão quando for lançada para a Lua, esperando que o seu país seja o primeiro a enviar uma missão com financiamento privado para explorar a superfície lunar.
“Queremos que todos os miúdos de Israel tenham noção do que se está a passar”, disse Eran Privman, acrescentando, com uma gargalhada: “Queremos que estes miúdos sejam capazes de explicar aos pais o que se está a passar.”

1976 - URSS, Luna 24: Os soviéticos terminam a corrida à Lua, com uma missão não tripulada.

A Hakuto, a TeamIndus e um consórcio internacional sediado na Califórnia conhecido como Synergy Moon planeiam utilizar veículos de exploração com rodas individualizados para a recolha de dados, aproveitando uma lacuna discutível nas regras: a Hakuto pode vencer subcontratando o lançamento e a alunagem, precisando apenas de colocar o seu veículo Sorato na Lua para conquistar a vitória. Gonzales-Mowrer, responsável pelo concurso XPrize, defende que tal estratégia não seria inconveniente: “Queremos que as equipas apresentem abordagens diferentes para concretizar a missão”, explica. Do ponto de vista do financiamento, o requisito principal é simplesmente provar aos juízes do XPrize que pelo menos 90% dos fundos reunidos pelos concorrentes provinham de fontes privadas.
“Tem sido divertido ver as equipas trabalharem em rede e com fornecedores externos para reduzir os custos”, afirmou. “Nessa matéria, o derradeiro objectivo deste concurso já foi alcançado.”
Se um dia existir um Walmart ou um IKEA gigante para empreendimentos espaciais, a Inter-orbital Systems, a principal empresa por detrás do consórcio Synergy Moon, está determinada a desempenhar esse papel. Pretende ser “a fornecedora de lançamentos de mais baixo custo da indústria espacial comercial”, afirma a sua co-fundadora e directora-geral, Randa Relich Milliron. Para consegui-lo, explica, construirá foguetões com unidades modulares padronizadas, utilizando componentes já existentes no mercado sempre que possível, incluindo tubos de irrigação industriais e microcontroladores, e realizará experiências de propulsão com combustíveis de baixo custo, como terebentina.

2007 - A Google anuncia o Lunar XPrize: O investimento aumenta, com este prémio de 17,5 milhões de euros.

No seu gabinete no Porto Aéreo e Espacial de Mojave, no deserto da Califórnia, cerca de 160 quilómetros a norte de Los Angeles, Randa apontou com orgulho para uma brochura da empresa, que apresenta um Kit de Satélite Pessoal TubeSat, a montar pelo comprador, por cerca de 14 mil euros, valor esse que “Inclui Lançamento Grátis!” e que poderá descer para sete mil alunos do ensino secundário ou universitário.
Os compradores montam o tubo (existe também um CubeSat, mais caro) e acrescentam-lhe os pequenos equipamentos que lhe conseguirem encaixar, como uma câmara para acompanhar animais migratórios a partir da órbita terrestre ou sensores para monitorizar as condições climáticas. A empresa planeia lançar os satélites pessoais para uma órbita a 309 quilómetros de altitude: altura suficiente para lhes permitir funcionar entre três semanas e dois meses, dependendo da actividade solar, incendiando-se posteriormente em segurança ao reentrarem na atmosfera.
Randa e o marido, Roderick, trabalham há cerca de vinte anos para lançar a empresa e os seus foguetões. Vários antigos e actuais concorrentes da corrida GLXP admiram a sua determinação, mas duvidam da sua sorte. Mesmo que cheguem à Lua com um dos seus foguetões, o seu plano para utilizar um “throwbot” personalizado como dispositivo móvel fez erguer algumas sobrancelhas – os throwbots são frequentemente utilizados pelas forças armadas, polícia e bombeiros como “olhos de vídeo” em locais de acesso demasiado perigoso, como esconderijos terroristas, potenciais laboratórios de drogas ou edifícios em chamas.

2013 - CHINA, Chang’e 3: O Yutu mede nove camadas subterrâneas. Encontra provas de actividade vulcânica.

Mesmo assim, o casal e um pequeno grupo de funcionários continuam a trabalhar no seu armazém. O outro lado da pista é um “cemitério” gigantesco, onde grandes aviões comerciais como Boeing 747 e DC-10 antigos vêm morrer, ficando aqui estacionados definitivamente enquanto aguardam o desmantelamento.
Segundo o casal Milliron, os primeiros lançamentos serão realizados a partir de uma barcaça num local ao largo da costa da Califórnia. Com um orçamento humilde que se recusam a quantificar publicamente, mas com sonhos grandiosos, é difícil decidir o que pensar sobre eles ou sobre a participação da Synergy Moon na corrida espacial, cujo projecto é suportado pela sua empresa. 
A equipa tem efectivamente um contrato de lançamento verificado, embora pareça ser basicamente um contrato consigo própria, uma vez que é a única concorrente da corrida que planeia fazer sozinha tudo aquilo de que precisa para ganhar – lançamento, alunagem, exploração lunar com um veículo não tripulado e transmissão.
“Por vezes, sentimo-nos como renegados ou marginais construindo estes foguetões sozinhos”, disse Randa Milliron numa visita guiada à oficina da Interorbital. “Mas é essa a ideia. Somos agitadores. Queremos mostrar ao mundo que isto pode ser feito com custos radicalmente mais baixos.”

TeamIndus, ÍndiaCom o ECA em repouso, o engenheiro Lakshman Murthy faz uma pausa. Os mais de cem membros da equipa esperam colher dividendos muito maiores do que o prémio monetário. “Há miúdos inteligentes nas cidades e em zonas isoladas do país”, diz Sheelika Ravishankar (alcunhada de “Mestre Jedi” pela equipa). “Precisamos que eles saibam que tudo é possível. Temos de chegar até eles.”

Deste posto avançado no deserto de Mojave à costa Atlântica do cabo Canaveral, dos arredores de Telavive às dunas de areia japonesas, passando por um armazém em Bangalore, as cinco equipas estão a progredir nas suas respectivas missões. Todas estão empenhadas em vencer, mas todas se mostram surpreendentemente amigáveis com a concorrência.

Deste posto avançado no deserto de Mojave à costa Atlântica do cabo Canaveral, dos arredores de Telavive às dunas de areia japonesas, passando por um armazém em Bangalore, as cinco equipas estão a progredir nas suas respectivas missões.

Nos últimos anos, mesmo quando o número de equipas foi reduzido de 29 para 16 e posteriormente para as cinco que restam ao redigirmos esta reportagem, uma delas organiza uma conferência anual para todos os participantes, bem como para representantes da XPrize Foundation, com cada líder a fazer uma apresentação sincera sobre os sucessos e contratempos ocorridos até à data. Formaram-se alianças, como um acordo entre a TeamIndus e a Hakuto para partilhar uma boleia a bordo do foguetão da Agência Espacial Indiana e do módulo de alunagem Indus, iniciando a competição entre si quando chegarem à Lua. Está a nascer uma indústria.
“Temos mesmo um tema ‘Yes We Can’ por aqui”, comenta Rahul Narayan, o líder dos 112 membros da TeamIndus. “Chegou o momento. Não sei como irá desenrolar-se. Acho que ninguém sabe. Mas o momento chegou.”. 

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