Liberta do binário “rapaz ou rapariga”, a identidade de género é uma questão dinâmica. Poderá a ciência ajudar-nos a navegar nestas águas ainda por explorar?

Texto Robin Marantz Henig Fotografia Lynn Johnson

Quando os gémeos, Caleb (à esquerda) e Emmie (à direita) Smith nasceram em 1998, era difícil distingui-los. Hoje, Emmie diz: “Quando tínhamos 12 anos, eu não me sentia como um rapaz, mas não sabia que era possível ser rapariga.” Aos 17 anos, Emmie assumiu-se como transgénero e recentemente submeteu-se a uma intervenção cirúrgica de confirmação de género. Ela menospreza o significado: “Não era menos mulher antes dela e não sou mais agora.”

Ela sempre se sentiu mais rapaz do que rapariga.
Desde muito nova, E – como prefere ser identificada nesta reportagem – detestava usar vestidos e gostava de basquetebol, skate e videojogos. Quando nos encontrámos em Maio na cidade de Nova Iorque, no espectáculo de fim de ano do seu grupo de oratória da escola secundária, E usava um fato de corte tradicional e um laço escolhido de entre a sua vasta colecção.
Mais tarde, nessa noite, E procurou o termo certo para definir a sua identidade de género. “Transgénero” não é o mais adequado, disse-me. Para começar, ainda usava o nome próprio que lhe fora atribuído à nascença e ainda preferia ser tratada por “ela”. E enquanto outras crianças trans dizem frequentemente que sempre sentiram que tinham nascido no corpo “errado”, ela diz: “Eu só acho que tenho de fazer algumas alterações ao corpo que tenho para ser o corpo que eu preciso de ter.” Ela refere-se, com isso, a um corpo que não menstrue e não tenha seios, com contornos faciais mais definidos e uma “barba ruiva”. Será que isto faz de E um rapaz trans? Ou uma rapariga que é, nas suas palavras, “insanamente andrógina”? Ou simplesmente uma pessoa que rejeita por completo os constrangimentos dos modelos de género tradicionais?

E questiona a sua própria identidade de género em vez de se limitar a aceitar os seus passatempos e opções de guarda-roupa como caprichos de uma maria-rapaz.

Uma vez que, hoje em dia, se fala tanto em temas transgénero, E questiona a sua própria identidade de género em vez de se limitar a aceitar os seus passatempos e opções de guarda-roupa como caprichos de uma maria-rapaz. Conversas como estas têm levado a uma melhor contabilização dos indivíduos transgéneros nos EUA: em apenas uma década, assistiu-se à duplicação do número de adultos oficialmente identificados como transgéneros nos censos nacionais; aumentou também o número de indivíduos de género não-conforme (uma categoria ampla que nem sequer tinha designação na geração passada), bem como o número de crianças entre os 6 e os 10 anos que questionam o seu género. Por fim, cresce a consciencialização do risco extremamente elevado que estas pessoas correm de serem vítimas de bullying e agressões sexuais ou de tentarem cometer suicídio.
E a conversa continua, com uma evolução do que significa ser homem ou mulher e dos significados de transgénero, cisgénero, género não-conforme, genderqueer, agénero, ou qualquer um dos mais de cinquenta termos disponibilizados pelo Facebook para os perfis dos seus utilizadores. Enquanto isso, os cientistas estão a descobrir novas complexidades no conhecimento biológico do sexo.

Vestir um fato para o baile do oitavo ano foi um passo precoce na jornada de Ray Craig enquanto “rapaz trans”, embora ele tenha decidido esperar até concluir o novo ano na sua escola antes de se assumir publicamente. O pai de Ray não ficou surpreendido, mas “não tinha a certeza se seria uma fase de seis semanas, uma fase de quatro anos ou uma decisão permanente”. O próximo passo: ponderar a medicação com bloqueadores hormonais para suprimir a puberdade.

Muitos de nós aprendemos na disciplina de biologia na escola secundária que os cromossomas sexuais determinam o sexo de um bebé: XX significa que é rapariga; XY que é rapaz.

Sabemos hoje que as diversas componentes daquilo que consideramos “macho” e “fêmea” nem sempre se alinham, com todos os XX (incluindo ovários, vagina, estrogénio, identidade de género feminina e comportamento feminino) de um lado e todos os XY (testículos, pénis, testosterona, identidade de género masculina e comportamento masculino) do outro. É possível ser XX e maioritariamente masculino em termos de anatomia, fisiologia e psicologia, tal como é possível ser XY e maioritariamente feminino.
Cada embrião começa com um par de órgãos primitivos, as protogónadas. A diferenciação de sexo é geralmente desencadeada por um gene no cromossoma Y, o gene SRY, que leva as protogónadas a transformarem-se em testículos. Os testículos segregam então hormonas masculinas e o feto desenvolve uma próstata, escroto e pénis. Sem o gene SRY, as protogónadas transformam-se em ovários, e o feto desenvolve anatomia feminina (útero, vagina e clítoris).
A função do gene SRY nem sempre é linear.

A diferenciação de sexo é geralmente desencadeada por um gene no cromossoma Y, o gene SRY, que leva as protogónadas a transformarem-se em testículos.

O gene pode estar ausente ou ser disfuncional, resultando num embrião XY que não desenvolve anatomia masculina e é identificado como rapariga à nascença. Ou poderá surgir no cromossoma X, gerando um embrião XX que desenvolve anatomia masculina e é identificado como rapaz.
Também podem surgir variações genéticas não relacionadas com o gene SRY, nomeadamente síndrome de insensibilidade aos androgénios (SIA), em que as células de um embrião XY exibem reacções mínimas, ou mesmo inexistentes, aos sinais das hormonas masculinas. Embora as protogónadas se transformem em testículos e o feto produza androgénios, o desenvolvimento de genitais masculinos não ocorre. O bebé parece do sexo feminino, com clítoris e vagina, e, na maioria dos casos, cresce sentindo-se rapariga.O que é então este bebé? É a rapariga que crê ser? Ou, devido aos seus cromossomas XY – para não mencionar os testículos que encerra no seu abdómen – é, “na realidade”, um rapaz?
Georgiann Davis, de 35 anos, nasceu com SIA, mas só o descobriu quase aos 20 anos, quando verificou fortuitamente essa informação nos seus registos médicos. Nunca lhe haviam mencionado o seu estatuto XY, nem mesmo quando foi identificado aos 13 anos ou quando foi submetida a uma cirurgia aos 17 anos para lhe removerem os testículos internos. Em vez de lhe revelarem o verdadeiro propósito da intervenção cirúrgica, os pais decidiram pedir aos médicos que inventassem uns ovários pré-cancerígenos cuja remoção fosse necessária.

Carlos, de 12 anos, mostra uma foto sua de quando era rapariga. Faz parte de um grupo de crianças da República Dominicana nascidas com uma deficiência enzimática: a genitália parece feminina à nascença, mas, com a vaga de testosterona da puberdade, desenvolvem órgãos genitais masculinos e amadurecem como homens. O seu tio diz simplesmente que Carlos “encontrou o seu ritmo”.

Por outras palavras, preferiram contar uma mentira à filha sobre risco de cancro em vez de lhe contarem a verdade sobre a sua identidade, com anatomia e genética reprodutivas que não se enquadram nas definições estritas de fêmea e macho.
“Seria assim tão terrível ter uma manifestação intersexo?”, escreveu Georgiann Davis, hoje socióloga na Universidade de Nevada, em “Contesting Intersex: The Dubious Diagnosis”. “Lembro--me de pensar que deveria ser mesmo uma anormal, se nem os meus pais tinham sido capazes de contar a verdade.”
Outra manifestação intersexo ocorre numa região isolada da República Dominicana, por vezes referida depreciativamente como guevedoce, ou “pénis aos 12 anos”. Foi estudada formalmente pela primeira vez na década de 1970 por Julianne Imperato-McGinley, uma endocrinologista da Faculdade Weill de Medicina de Cornell, em Nova Iorque. Julianne sabia que, por volta das oito semanas de idade gestacional, uma enzima dos embriões masculinos converte a testosterona na potente hormona DHT. Quando a DHT está presente, a estrutura embriónica denominada tubérculo transforma-se num pénis; quando está ausente, o tubérculo torna-se um clítoris. Os embriões afectados por esta condição, revelou a investigadora, não possuem a enzima que converte a testosterona em DHT, por isso nascem com genitais de aparência feminina. São criados como raparigas.
No entanto, a segunda fase de masculinização, que ocorre na puberdade, não requer DHT – apenas um nível elevado de testosterona. Por volta dos 12 anos, os seus organismos são inundados pela hormona, como acontece à maioria dos rapazes, e passam pelas mudanças que as transformariam em homens (embora costumem ser estéreis). No seu caso, aquilo que parecia inicialmente um clítoris transforma-se num pénis.

Os embriões afectados por esta condição, revelou a investigadora, não possuem a enzima que converte a testosterona em DHT, por isso nascem com genitais de aparência feminina.

Julianne contou-me que, aquando da sua primeira viagem à República Dominicana, os rapazes recém-surgidos eram considerados suspeitos e tinham de provar masculinidade de forma mais enfática do que os outros rapazes, antes de serem aceites como homens. Actualmente, estas crianças costumam ser identificadas quando nascem, pois os pais aprenderam a examinar os genitais dos recém-nascidos. No entanto, continuam frequentemente a ser criados como raparigas.
O género é uma amálgama de vários elementos: cromossomas (os tais X e Y), anatomia (órgãos sexuais internos e órgãos genitais externos), hormonas (níveis relativos de testosterona e estrogénio), psicologia (identidade de género definida pelo próprio) e cultura (comportamentos de género definidos pela sociedade). E, por vezes, indivíduos nascidos com os cromossomas e genitais de um sexo apercebem-se de que são transgéneros, ou seja, que têm uma identidade interna de género que se identifica com o sexo oposto ou mesmo, ocasionalmente, com nenhum dos géneros ou com nenhum género concreto.

Na Samoa, os melhores amigos Sandy, de 12 anos (à esquerda) e Mandy, de 10 anos (de T-shirt branca) improvisam uma dança com os amigos e primos. Identificam-se como fa’afafine, um género que não é rapaz nem rapariga. As crianças fa’afafine costumam assumir papéis femininos nas brincadeiras e na família. Na idade adulta, conservam a anatomia masculina, mas assumem aparência e maneirismos femininos.

À medida que os temas transgéneros se tornam notícias de rotina, a comunidade científica vai avançando, adoptando linhas de investigação sobre o que significa, ao certo, ser transgénero.
Em termos biológicos, alguns cientistas entendem que a questão pode remontar ao ritmo sincopado do desenvolvimento fetal. “A diferenciação sexual dos órgãos genitais ocorre nos dois primeiros meses da gravidez e a diferenciação sexual do cérebro começa na segunda metade da gravidez”, escreveu Dick Swaab, um investigador do Instituto Holandês de Neurociência, em Amesterdão. Os genitais e o cérebro são, por conseguinte, sujeitos a ambientes intra-uterinos de “hormonas, nutrientes, medicação e outras substâncias químicas” diferentes, com várias semanas de intervalo, que afectam a diferenciação sexual.

Identidade, sexo e expressão - As pessoas são quase sempre identificadas como homem ou mulher à nascença com base na sua genitália. A definição de género inclui componentes como a identidade e a expressão de género, mas não a orientação sexual. Algumas culturas reconhecem géneros para além de masculino e feminino. Ryan Williams e John Tomanio. Arte: Matthew Twombly. Fontes: Robert Garofalo, Hospital Iinfantil Lurie; Eric Vilain, UCLA.

Isto não significa exactamente que exista tal coisa como um cérebro “masculino” ou “feminino”, mas pelo menos algumas características cerebrais, como a densidade da matéria cinzenta ou o tamanho do hipotálamo, tendem a diferir consoante o género. Descobriu-se que os cérebros dos indivíduos transgéneros podem ser mais parecidos com o cérebro do género com o qual se identificam do que com o género atribuído à nascença.
Há várias dificuldades nestes estudos. São frequentemente pequenos, envolvendo um número tão limitado de indivíduos transgéneros como 12. E por vezes incluem pessoas que já iniciaram medicação hormonal para efectuar a transição para o género oposto, o que significa que as diferenças cerebrais observadas podem ser o resultado – e não a explicação – da identidade transgénero de um participante no teste.

Ainda assim, uma das conclusões da investigação sobre transexualidade mostra-se firme: existe uma ligação entre a não-conformidade de género e as perturbações do espectro autista (PEA).

Ainda assim, uma das conclusões da investigação sobre transexualidade mostra-se firme: existe uma ligação entre a não-conformidade de género e as perturbações do espectro autista (PEA). Segundo John Strang, neuropsicólogo pediátrico do Centro de Perturbações do Espectro Autista e do Programa de Desenvolvimento do Género e da Sexualidade do Sistema Nacional de Saúde Infantil dos EUA, as crianças e adolescentes com perturbações do espectro autista têm sete vezes mais probabilidades de serem de género não-conforme do que os outros jovens. E, em contrapartida, as crianças e adolescentes que frequentam as consultas médicas de género têm 6 a 15 vezes mais probabilidades de sofrerem de PEA do que outros jovens.
Emily Brooks, de 27 anos, é autista e identifica-se como não-binária. Concluiu recentemente um mestrado em Estudos sobre Deficiência e espera, um dia, criar espaços seguros para pessoas de género não-conforme (conceito bastante abrangente, segundo ela) que também sofram de autismo. Estas pessoas têm lutado contra a “discriminação de pessoas com incapacidade” e a “transfobia”, diz. “E não podemos dar como garantido à partida que um sítio que respeite uma das identidades vai respeitar a outra.”

Trina (o seu nome de rua) esconde-se durante o dia e presta serviços sexuais durante a noite – a única altura em que sente ser seguro vestir roupa de mulher. Apesar disso, já foi atacada com ácido, facas, uma catana e um revólver.

English (cabelo vermelho) e Sasha (também nomes de rua) vivem com Trina e outras pessoas numa vala para escoamento das águas pluviais em Kingston, na Jamaica. Dias depois de as fotografarmos, dois grupos criminosos despejaram gasolina sobre a vala e pegaram-lhes fogo. English e Sasha ficaram feridas.

Enquanto estou à conversa com Emily sobre género e autismo, o empregado do bar interpela-nos: “O que posso trazer às senhoras?”. Emily não gosta que lhe chamem senhora. É a prova de que a sua própria demanda por um espaço seguro é difícil, não só devido ao autismo como à sua rejeição total do binário de género.
É preciso acrescentar outra nota sobre o binário. A grande maioria das pessoas insere-se num dos extremos do espectro do género. A integração no binário de género simplifica as escolhas do quotidiano, desde a compra de roupa à escolha de equipas desportivas, do acto de renovação do passaporte à forma como o empregado de mesa se dirige a nós.
Actualmente, as pessoas – sobretudo os jovens – estão a questionar não só o género que lhes foi atribuído à nascença, como o próprio binário de género. “Não me identifico com aquilo que, para as pessoas, define um rapaz ou uma rapariga”, disse a cantora e actriz Miley Cyrus à revista “Out” em 2015, quando tinha 22 anos. “Acho que foi isso que eu tive de compreender: não é de ser rapariga que eu não gosto: é da caixa em que isso me encerra.”

Actualmente, as pessoas – sobretudo os jovens – estão a questionar não só o género que lhes foi atribuído à nascença, como o próprio binário de género.

Um inquérito recente conduzido junto de mil indivíduos com idades compreendidas entre 18 e 34 anos concluiu que metade deles pensa que “o género é um espectro e algumas pessoas ficam fora das categorias convencionais”. E uma fracção significativa dessa metade considera-se não-binária, segundo a Campanha dos Direitos Humanos. Em 2012, este grupo de apoio inquiriu dez mil adolescentes, rapazes e raparigas, homossexuais, bissexuais e transgéneros entre os 13 e os 17 anos e descobriu que 6% deles se definiam como “de género fluido”, “andrógino” ou outro termo alheio ao conceito binário.
Os jovens que tentam encontrar a sua posição no espectro escolhem frequentemente um pronome pelo qual preferem ser tratados. Mesmo que não se sintam exactamente rapaz ou rapariga, podem continuar a usar “ele” ou “ela”, como é o caso de Emily Brooks.
Charlie Spiegel, de 17 anos, tentou usar outras opções durante algum tempo, mas agora prefere “ele”. Charlie foi identificado como rapariga à nascença. No entanto, como contou numa conversa telefónica a partir de sua casa na Califórnia, ser tratado como rapariga começou a parecer-lhe estranho quando atravessou a puberdade. O conceito de rapariga deveria servir-lhe, mas não servia. Um dia, por volta dos 14 anos, Charlie entrou na biblioteca da escola e pegou em “I Am J”, um romance de Cris Beam sobre um rapaz transgénero. Enquanto lia, percebeu que se identificava com a personagem. A revelação foi assustadora, mas também esclarecedora.

Henry foi identificado como rapaz à nascença, mas considera-se “género-criativo”. Exprime-se através de um estilo pessoal único. Os seus pais inscreveram-no no Bay Area Rainbow Day Camp, onde ele pode encontrar o vocabulário necessário para explicar os seus sentimentos. Aos 6 anos, já sabe muito bem quem é.

Na verdade, ele não encontrou imediatamente uma identidade de género que lhe parecesse mais adequada. Charlie passou por um processo de tentativa e erro parecido com o descrito por outros adolescentes que questionam o seu género. Primeiro, experimentou “lésbica de aspecto masculino” e depois “género fluido”, antes de assumir a sua identidade actual “rapaz trans não-binário”. Pode parecer um oxímoro: “não-binário” e “rapaz” deveriam supostamente ser expressões mutuamente exclusivas. No entanto, a combinação é confortável para Charlie. Prestes a entrar para a faculdade, Charlie estava a preparar-se para iniciar a medicação com testosterona.
Se há mais jovens a assumirem-se como não-binários, isso deve-se em parte à recente descoberta de que a opção não-binário proporciona “uma linguagem que permite dar nome à origem da sua experiência”, afirmou o terapeuta Jean Malpas, quando nos encontrámos na Primavera passada no Instituto Ackerman para a Família, onde dirige o Projecto do Género e da Família.
No entanto, à medida que mais crianças se afirmam não-binárias, os progenitores enfrentam novos desafios. Vejamos o caso de E, por exemplo, que ainda usava pronomes femininos quando nos encontrámos em Maio, embora estivesse a esforçar-se por encontrar a sua posição no espectro do género. A mãe de E, Jane, também estava a esforçar-se por descobrir uma forma segura de E não ser tipicamente feminina, nem tipicamente masculina.

A mãe de E, Jane, também estava a esforçar-se por descobrir uma forma segura de E não ser tipicamente feminina, nem tipicamente masculina.

O grupo de oratória que fizera a sua apresentação em Nova Iorque na noite em que conheci E preparava-se para viajar para uma competição nacional na Califórnia e Jane mostrou-me a mensagem de correio electrónico que enviara ao treinador para preparar o terreno. Os outros poderiam achar que E era um rapaz, escreveu Jane, agora que ela usava o cabelo tão curto e roupa tão andrógina. Ela poderia usar “casas de banho masculinas ou femininas consoante o que lhe parecesse mais seguro em determinada situação”, disse-lhe Jane, e “deverá informá-lo se vai à casa de banho e qual delas planeia usar”. Na noite em que conheci Jane, perguntei-lhe onde colocaria a filha no espectro do género. “Acho que ela quer ficar num espaço neutro”, respondeu.
Um “espaço neutro” é algo difícil de construir para um adolescente: a biologia tem por hábito manifestar-se. Por vezes, porém, a biologia pode ser suspensa durante algum tempo com fármacos bloqueadores da puberdade que podem proporcionar às crianças algum tempo suplementar para se interrogarem sobre o seu género. Caso a criança atinja os 16 anos e decida que, ele ou ela, afinal não é transgénero, os efeitos da supressão da puberdade são supostamente reversíveis: a criança pára de tomar os bloqueadores e desenvolve as características do sexo com que nasceu. Para as crianças que queiram mesmo fazer a transição aos 16 anos, a medicação prévia com bloqueadores pode ajudar. Pode iniciar--se a medicação hormonal para mudança de sexo e atravessar a puberdade no género por si escolhido sem desenvolver características sexuais secundárias, que podem ser difíceis de reverter.

A lei e a mudança de género - Mais de um terço dos países permitem a alteração de género (para homem, mulher ou outro) em documentos. Os investigadores só recentemente começaram a documentar este tópico jurídico em rápida metamorfose. Dados de Outubro de 2016. Riley D. Champine, Ryan Williams e Ireneberman-Vaporis. Justus Eisfeld. Fontes: Carla Lagata/Carstein Balzer, Projecto TVT, Transgender Europe; Tamara Adrián, Univ. Central da Venezuela; Andrew Park, UCLA; Kristopher Wells, Univ. de Alberta; Centro de Litigação da África Austral; Grupo FTM PHOENIX; Michael van Gelderen, OHCHR, ONU; Outright Action Intl.

A Sociedade Norte-Americana de Endocrinologia recomenda o uso de bloqueadores em adolescentes diagnosticados com disforia de género. Apesar disso, as consequências a longo prazo dos bloqueadores no desenvolvimento psicológico, no crescimento cerebral e na densidade mineral dos ossos são desconhecidas, o que gera discussões acesas sobre a sua utilização em adolescentes fisicamente saudáveis.
Mais preocupante do que a questão do uso de bloqueadores da puberdade é se não haverá demasiadas crianças encorajadas a fazer a transição social numa idade precoce. Eric Vilain, pediatra e director do Centro de Biologia Baseada em Género da UCLA, diz que as crianças exprimem vários desejos e fantasias passageiros. Poderá o desejo de ser rapariga exprimir por vezes um sentimento tão passageiro como querer ser um astronauta, um macaco ou um pássaro?
Quando falámos pelo telefone na Primavera passada, ele disse-me que a maioria dos estudos sobre crianças pequenas que exprimem desconforto com o seu género de nascimento indica maior probabilidade de virem a ser cisgénero (em conformidade com o género atribuído à nascença) do que trans e que, quando comparadas com a população, um maior número destas crianças identificar-se-á como homossexual ou bissexual.
“Se um rapaz faz coisas de rapariga, está a dizer a si próprio: ‘Estou a fazer coisas de rapariga, por isso devo ser uma rapariga’”, disse Eric Vilain. Mas estas preferências referem-se a expressões de género, não à identidade de género. O investigador disse-me que gostaria que os progenitores tivessem calma e recordassem ao filho que ele pode fazer todas as coisas que as raparigas fazem, mas isso não significa que seja uma rapariga.

“Se um rapaz faz coisas de rapariga, está a dizer a si próprio: ‘Estou a fazer coisas de rapariga, por isso devo ser uma rapariga’”.

Jean Malpas explica que os orientadores do Projecto Género e Família “procuram três facetas nas crianças que exprimem o desejo de pertencer a um género diferente”: que esse desejo seja “persistente, coerente e insistente”. E muitas crianças que vêm à sua clínica cumprem os requisitos, algumas das quais com apenas 5 anos de idade, disse. “Sentem-se assim há muito tempo e não têm dúvidas.”
Foi certamente esse o caso da filha de uma escritora de Seattle que usa o pseudónimo Marlo Mack nos seus podcasts e blogues para proteger a identidade da filha. A filha de Mack foi identificada como rapaz à nascença, mas com apenas 3 anos já dizia, insistentemente, que era uma rapariga. Algo correu mal na tua barriga, dizia ele à mãe, implorando por uma remodelação.
Como o próprio Eric Vilain poderia ter recomendado, Mack tentou alargar a percepção do filho acerca do comportamento de um rapaz. “Disse-lhe vezes sem conta que poderia continuar a ser um rapaz e brincar com Barbies, com vestidos, saias e todas as lantejoulas que o dinheiro pudesse comprar”, disse Mack no seu podcast “How to Be a Girl”. “Mas a minha filha recusou terminantemente. Ela era uma rapariga.”
Por fim, após um ano a “atormentarem-se” mutuamente, Mack deixou a filha de 4 anos escolher um nome de rapariga, começar a usar pronomes femininos e frequentar o jardim-de-infância como rapariga. Quase instantaneamente, a tristeza passou. Num podcast transmitido dois anos mais tarde, Mack disse que a sua filha transgénero, com 6 anos, “adora ser rapariga, provavelmente mais do que qualquer outra rapariga que alguma vez tenha conhecido”.

Aos 4 anos, Trinity Xavier Skeye parou de falar, começou a roer as suas roupas de rapaz e disse que queria cortar o pénis. Alarmados, os pais levaram-na a um terapeuta, que lhes perguntou: “Querem ter uma filha feliz ou um filho morto?” A mãe de Trinity, DeShanna Neal, defende arduamente a filha, que tem agora 12 anos e está a tomar bloqueadores da puberdade. Trinity é a primeira menor em Delaware a fazer este tratamento, beneficiando de cobertura do seguro de saúde.

Eric Vilain rejeita alguns activistas transgéneros, afirmando que nem todas as crianças que dizem “quem me dera ser rapariga” precisem de ser incentivadas. Mas insiste que está a tentar ver para além dos estereótipos de género. “Estou a tentar defender uma grande variedade de expressões de género que pode ir desde rapazes ou homens com cabelo comprido que adoram dança e ópera, a usarem vestidos se quiserem, a gostarem de homens, e nada disso os ‘faz serem raparigas’, ou raparigas raparem a cabeça, usarem piercings e calças, adorarem física, gostarem de mulheres e nada disso as ‘faz serem rapazes’”, escreveu numa mensagem de correio electrónico pouco depois da nossa conversa telefónica.
É aqui que as coisas se turvam no mundo do género. Jovens como a filha de Mack, ou Charlie Spiegel da Califórnia, ou E de Nova Iorque, devem tomar decisões biológicas que afectarão a sua saúde e felicidade durante os próximos 50 anos. Contudo, sendo definitivas, estas decisões entram em conflito com a confusa flutuação das normas de género.

Se E acabar por assumir uma identidade masculina, não será suficiente viver como homem, mudando de pronomes e de nome.

“Acho que as pessoas poderiam chamar-me questionadora-de-género, disse E no nosso segundo encontro, em Junho. “Será que isso existe? Acho que poderia existir.” Mas ela sabia que o “questionamento” não poderia durar para sempre e já se inclinava para a opção “rapaz trans”. Se E acabar por assumir uma identidade masculina, não será suficiente viver como homem, mudando de pronomes e de nome. Isso poderá também significar tornar-se homem fisicamente, o que implicaria tomar testosterona. Eram opções a mais, disse E. Com o seu 15.º aniversário à porta, teria mais um ano para se decidir.
Se E está a pensar onde se enquadra no especto de género então é porque E é uma criança do século XXI: uma época em que conceitos como transgénero e género não-conforme estão em voga. Mas as suas opções ainda são bastante constrangidas pelo facto de serem produzidas numa cultura ocidental onde o género permanece maioritariamente exclusivo. Quão diferentes seriam as coisas se E vivesse num local onde existisse um papel formal correspondente ao género intermédio?
Existem locais assim no mundo. No Sul da Ásia (onde um terceiro género se chama hijra), na Nigéria (yan daudu), no México (muxe), em Samoa (fa’afafine), na Tailândia (kathoey), em Tonga (fakaleiti), e até nos EUA, onde é possível encontrar um terceiro género no Hawai (mahu) e entre alguns povos nativos americanos (dois espíritos). O grau de aceitação dos terceiros géneros varia, mas a categoria costuma incluir pessoas com anatomia masculina que assumem comportamentos femininos e se sentem atraídos por homens e quase nunca por outros indivíduos pertencentes ao terceiro género. Mais raramente, algumas pessoas do terceiro género, como os burrnesha da Albânia ou os fa’afafine da ilha de Samoa, têm anatomia feminina e estilos de vida masculinos.

Mais raramente, algumas pessoas do terceiro género, como os burrnesha da Albânia ou os fa’afafine da ilha de Samoa, têm anatomia feminina e estilos de vida masculinos.

Conheci cerca de uma dezena de fa’afafine no Verão passado, quando viajei até Samoa, a convite do professor de psicologia Paul Vasey, que defende que os fa’afafine da Samoa são um dos terceiros géneros mais bem aceites do mundo.
Director de investigação em psicologia na Universidade de Lethbridge, Paul regressa com tanta frequência a Samoa que tem lá a sua própria casa, automóvel e vida social. Intriga-o particularmente os terceiros géneros, tanto em Samoa como noutros locais, a capacidade para nos esclarecerem quanto ao paradoxo evolutivo” da atracção masculina por parceiros do mesmo sexo.
Como os fa’afafine quase nunca têm filhos biológicos, como conseguem transmitir os genes associados a esta característica? Sem descendência, não deveria a selecção natural tê-los, essencialmente, eliminado?
A definição como fa’afafine é uma característica familiar, tal como ser homossexual, disse Paul, acrescentando que a taxa de incidência é semelhante à da homossexualidade masculina em vários países ocidentais: cerca de 3% da população. Apresentou-me Jossie, uma professora alta e magra de 29 anos. Jossie vive numa aldeia situada a cerca de uma hora da capital, Apia. Ela riu-se das minhas perguntas, sobretudo quando o assunto foi homens. Para Jossie, ser fa’afafine também é uma característica familiar. Vários parentes fa’afafine ouviram a nossa conversa: Andrew, tio de Jossie e enfermeiro reformado que responde pelo nome de Angie; a sua prima Trisha Tuiloma, que também é assistente de investigação de Paul Vasey; e o seu sobrinho de 5 anos.

Em vez de terem um custo reprodutivo, como acontece nos machos, esses genes dão vantagem reprodutiva às fêmeas – o que significa que as fêmeas que possuem esses genes deveriam ser mais férteis.

Paul Vasey está actualmente a investigar duas hipóteses que podem explicar o paradoxo evolutivo da atracção masculina por parceiros do mesmo sexo. A primeira, a hipótese dos genes sexualmente antagonistas, postula que os genes que determinam a atracção sexual por machos exercem efeitos diferentes dependendo do sexo da pessoa que os possui: em vez de terem um custo reprodutivo, como acontece nos machos, esses genes dão vantagem reprodutiva às fêmeas – o que significa que as fêmeas que possuem esses genes deveriam ser mais férteis. Paul Vasey e os seus colegas descobriram que as mães e avós maternas de fa’afafine têm mais filhos do que as mães e avós dos homens samoanos heterossexuais. Contudo, não encontraram evidências comparáveis entre as avós paternas ou entre as tias de fa’afafine, que permitissem substanciar provas mais conclusivas.
Uma segunda possibilidade é a hipótese de selecção de parentesco – a noção de que o tempo e o dinheiro dedicado às sobrinhas e sobrinhos por machos atraídos por parceiros do mesmo sexo aumenta as possibilidades de essas sobrinhas e sobrinhos transmitirem algum do seu DNA à geração seguinte. Com efeito, entre os fa’afafine que Paul Vasey me apresentou, vários tinham acolhido os filhos dos irmãos em sua casa. Trisha Tuiloma, de 42 anos, usa o dinheiro que ganha como assistente de investigação para pagar a alimentação, despesas escolares, presentes e até a conta da electricidade de oito sobrinhas e sobrinhos.
E na sua investigação formal, Paul Vasey percebeu que existe maior probabilidade de os fa’afafine disponibilizarem o seu tempo, dinheiro e apoio emocional aos sobrinhos, sobretudo às filhas mais novas das suas irmãs, do que os samoanos heterossexuais.

Identificada como rapariga à nascença, Hunter Keith, de 17 anos, sentia-se um rapaz desde o quinto ano. No sétimo, contou aos seus amigos. No oitavo, contou aos pais. Os seus seios foram removidos duas semanas antes de esta fotografia ser tirada. Agora, gosta de andar de skate sem camisola no seu bairro do Michigan.

Outro factor relativo à identidade de género tornou-se claro quando conheci o companheiro de longa data de Paul Vasey, Alatina Ioelu, um fa’afafine que Paul conheceu há 13 verões. Quando Alatina apareceu pela primeira vez no meu hotel, a minha percepção do que significa ser fa’afafine começou a desfazer-se. Era muito mais masculino do que os outros fa’afafine que eu conhecera. Alto, com ombros largos e um rosto largo e bem-parecido, usava o mesmo estilo de roupa que Paul. O que significaria isso para alguém com uma aparência convencionalmente masculina, mas pertencente a um terceiro género que implica uma feminilidade acentuada?
Enquanto conversávamos ao jantar, fui-me gradualmente apercebendo de que a identidade de Alatina Ioelu enquanto fa’afafine é representativa das profundas ligações entre essa identidade e a própria cultura de género. Paul e Alatina planeiam casar-se e, um dia, viverem a sua reforma no Canadá. Paul tem 50 anos e Alatina tem 38. “Seríamos vistos como um casal do mesmo sexo comum”, resumiu Paul.
Por outras palavras, a classificação de género de Alatina Ioelu mudaria, como que por magia, de fa’afafine para homem homossexual, só por atravessar uma fronteira. 

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