Casos de vida no mundo dos transgéneros

Liberta do binário “rapaz ou rapariga”, a identidade de género é uma questão dinâmica. Poderá a ciência ajudar-nos a navegar nestas águas ainda por explorar?

Texto Robin Marantz Henig Fotografia Lynn Johnson

Quando os gémeos, Caleb (à esquerda) e Emmie (à direita) Smith nasceram em 1998, era difícil distingui-los. Hoje, Emmie diz: “Quando tínhamos 12 anos, eu não me sentia como um rapaz, mas não sabia que era possível ser rapariga.” Aos 17 anos, Emmie assumiu-se como transgénero e recentemente submeteu-se a uma intervenção cirúrgica de confirmação de género. Ela menospreza o significado: “Não era menos mulher antes dela e não sou mais agora.”

Ela sempre se sentiu mais rapaz do que rapariga.
Desde muito nova, E – como prefere ser identificada nesta reportagem – detestava usar vestidos e gostava de basquetebol, skate e videojogos. Quando nos encontrámos em Maio na cidade de Nova Iorque, no espectáculo de fim de ano do seu grupo de oratória da escola secundária, E usava um fato de corte tradicional e um laço escolhido de entre a sua vasta colecção.
Mais tarde, nessa noite, E procurou o termo certo para definir a sua identidade de género. “Transgénero” não é o mais adequado, disse-me. Para começar, ainda usava o nome próprio que lhe fora atribuído à nascença e ainda preferia ser tratada por “ela”. E enquanto outras crianças trans dizem frequentemente que sempre sentiram que tinham nascido no corpo “errado”, ela diz: “Eu só acho que tenho de fazer algumas alterações ao corpo que tenho para ser o corpo que eu preciso de ter.” Ela refere-se, com isso, a um corpo que não menstrue e não tenha seios, com contornos faciais mais definidos e uma “barba ruiva”. Será que isto faz de E um rapaz trans? Ou uma rapariga que é, nas suas palavras, “insanamente andrógina”? Ou simplesmente uma pessoa que rejeita por completo os constrangimentos dos modelos de género tradicionais?

E questiona a sua própria identidade de género em vez de se limitar a aceitar os seus passatempos e opções de guarda-roupa como caprichos de uma maria-rapaz.

Uma vez que, hoje em dia, se fala tanto em temas transgénero, E questiona a sua própria identidade de género em vez de se limitar a aceitar os seus passatempos e opções de guarda-roupa como caprichos de uma maria-rapaz. Conversas como estas têm levado a uma melhor contabilização dos indivíduos transgéneros nos EUA: em apenas uma década, assistiu-se à duplicação do número de adultos oficialmente identificados como transgéneros nos censos nacionais; aumentou também o número de indivíduos de género não-conforme (uma categoria ampla que nem sequer tinha designação na geração passada), bem como o número de crianças entre os 6 e os 10 anos que questionam o seu género. Por fim, cresce a consciencialização do risco extremamente elevado que estas pessoas correm de serem vítimas de bullying e agressões sexuais ou de tentarem cometer suicídio.
E a conversa continua, com uma evolução do que significa ser homem ou mulher e dos significados de transgénero, cisgénero, género não-conforme, genderqueer, agénero, ou qualquer um dos mais de cinquenta termos disponibilizados pelo Facebook para os perfis dos seus utilizadores. Enquanto isso, os cientistas estão a descobrir novas complexidades no conhecimento biológico do sexo.

Vestir um fato para o baile do oitavo ano foi um passo precoce na jornada de Ray Craig enquanto “rapaz trans”, embora ele tenha decidido esperar até concluir o novo ano na sua escola antes de se assumir publicamente. O pai de Ray não ficou surpreendido, mas “não tinha a certeza se seria uma fase de seis semanas, uma fase de quatro anos ou uma decisão permanente”. O próximo passo: ponderar a medicação com bloqueadores hormonais para suprimir a puberdade.

Muitos de nós aprendemos na disciplina de biologia na escola secundária que os cromossomas sexuais determinam o sexo de um bebé: XX significa que é rapariga; XY que é rapaz.

Sabemos hoje que as diversas componentes daquilo que consideramos “macho” e “fêmea” nem sempre se alinham, com todos os XX (incluindo ovários, vagina, estrogénio, identidade de género feminina e comportamento feminino) de um lado e todos os XY (testículos, pénis, testosterona, identidade de género masculina e comportamento masculino) do outro. É possível ser XX e maioritariamente masculino em termos de anatomia, fisiologia e psicologia, tal como é possível ser XY e maioritariamente feminino.
Cada embrião começa com um par de órgãos primitivos, as protogónadas. A diferenciação de sexo é geralmente desencadeada por um gene no cromossoma Y, o gene SRY, que leva as protogónadas a transformarem-se em testículos. Os testículos segregam então hormonas masculinas e o feto desenvolve uma próstata, escroto e pénis. Sem o gene SRY, as protogónadas transformam-se em ovários, e o feto desenvolve anatomia feminina (útero, vagina e clítoris).
A função do gene SRY nem sempre é linear.

A diferenciação de sexo é geralmente desencadeada por um gene no cromossoma Y, o gene SRY, que leva as protogónadas a transformarem-se em testículos.

O gene pode estar ausente ou ser disfuncional, resultando num embrião XY que não desenvolve anatomia masculina e é identificado como rapariga à nascença. Ou poderá surgir no cromossoma X, gerando um embrião XX que desenvolve anatomia masculina e é identificado como rapaz.
Também podem surgir variações genéticas não relacionadas com o gene SRY, nomeadamente síndrome de insensibilidade aos androgénios (SIA), em que as células de um embrião XY exibem reacções mínimas, ou mesmo inexistentes, aos sinais das hormonas masculinas. Embora as protogónadas se transformem em testículos e o feto produza androgénios, o desenvolvimento de genitais masculinos não ocorre. O bebé parece do sexo feminino, com clítoris e vagina, e, na maioria dos casos, cresce sentindo-se rapariga.O que é então este bebé? É a rapariga que crê ser? Ou, devido aos seus cromossomas XY – para não mencionar os testículos que encerra no seu abdómen – é, “na realidade”, um rapaz?
Georgiann Davis, de 35 anos, nasceu com SIA, mas só o descobriu quase aos 20 anos, quando verificou fortuitamente essa informação nos seus registos médicos. Nunca lhe haviam mencionado o seu estatuto XY, nem mesmo quando foi identificado aos 13 anos ou quando foi submetida a uma cirurgia aos 17 anos para lhe removerem os testículos internos. Em vez de lhe revelarem o verdadeiro propósito da intervenção cirúrgica, os pais decidiram pedir aos médicos que inventassem uns ovários pré-cancerígenos cuja remoção fosse necessária.

Carlos, de 12 anos, mostra uma foto sua de quando era rapariga. Faz parte de um grupo de crianças da República Dominicana nascidas com uma deficiência enzimática: a genitália parece feminina à nascença, mas, com a vaga de testosterona da puberdade, desenvolvem órgãos genitais masculinos e amadurecem como homens. O seu tio diz simplesmente que Carlos “encontrou o seu ritmo”.

Por outras palavras, preferiram contar uma mentira à filha sobre risco de cancro em vez de lhe contarem a verdade sobre a sua identidade, com anatomia e genética reprodutivas que não se enquadram nas definições estritas de fêmea e macho.
“Seria assim tão terrível ter uma manifestação intersexo?”, escreveu Georgiann Davis, hoje socióloga na Universidade de Nevada, em “Contesting Intersex: The Dubious Diagnosis”. “Lembro--me de pensar que deveria ser mesmo uma anormal, se nem os meus pais tinham sido capazes de contar a verdade.”
Outra manifestação intersexo ocorre numa região isolada da República Dominicana, por vezes referida depreciativamente como guevedoce, ou “pénis aos 12 anos”. Foi estudada formalmente pela primeira vez na década de 1970 por Julianne Imperato-McGinley, uma endocrinologista da Faculdade Weill de Medicina de Cornell, em Nova Iorque. Julianne sabia que, por volta das oito semanas de idade gestacional, uma enzima dos embriões masculinos converte a testosterona na potente hormona DHT. Quando a DHT está presente, a estrutura embriónica denominada tubérculo transforma-se num pénis; quando está ausente, o tubérculo torna-se um clítoris. Os embriões afectados por esta condição, revelou a investigadora, não possuem a enzima que converte a testosterona em DHT, por isso nascem com genitais de aparência feminina. São criados como raparigas.
No entanto, a segunda fase de masculinização, que ocorre na puberdade, não requer DHT – apenas um nível elevado de testosterona. Por volta dos 12 anos, os seus organismos são inundados pela hormona, como acontece à maioria dos rapazes, e passam pelas mudanças que as transformariam em homens (embora costumem ser estéreis). No seu caso, aquilo que parecia inicialmente um clítoris transforma-se num pénis.

Os embriões afectados por esta condição, revelou a investigadora, não possuem a enzima que converte a testosterona em DHT, por isso nascem com genitais de aparência feminina.

Julianne contou-me que, aquando da sua primeira viagem à República Dominicana, os rapazes recém-surgidos eram considerados suspeitos e tinham de provar masculinidade de forma mais enfática do que os outros rapazes, antes de serem aceites como homens. Actualmente, estas crianças costumam ser identificadas quando nascem, pois os pais aprenderam a examinar os genitais dos recém-nascidos. No entanto, continuam frequentemente a ser criados como raparigas.
O género é uma amálgama de vários elementos: cromossomas (os tais X e Y), anatomia (órgãos sexuais internos e órgãos genitais externos), hormonas (níveis relativos de testosterona e estrogénio), psicologia (identidade de género definida pelo próprio) e cultura (comportamentos de género definidos pela sociedade). E, por vezes, indivíduos nascidos com os cromossomas e genitais de um sexo apercebem-se de que são transgéneros, ou seja, que têm uma identidade interna de género que se identifica com o sexo oposto ou mesmo, ocasionalmente, com nenhum dos géneros ou com nenhum género concreto.

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