Os perigos de alterar o código da vida

 

"Quais são as consequências indesejadas da edição genómica?” perguntou Jennifer Doudna, enquanto conversávamos no seu gabinete da Universidade da Califórnia, onde ensina química e biologia molecular. Em 2012, Jennifer e a sua colega francesa Emmanuelle Charpentier foram as primeiras a demonstrar que os cientistas poderiam utilizar a tecnologia CRISPR para editar DNA purificado em pratos de laboratório. “Não sei se sabemos o suficiente sobre o genoma humano ou sobre qualquer outro genoma, para dar uma resposta exaustiva a essa pergunta. Mas as pessoas irão utilizar a tecnologia, quer saibamos o suficiente acerca dela ou não.”
Quanto mais velozmente a ciência fizer avançar a humanidade, mais assustador o processo vai parecer. Isto sempre foi assim. Em breve será certamente possível experimentar um kit CRISPR, da mesma maneira que os pioneiros de garagem das gerações anteriores faziam experiências com redes de radioamador ou computadores rudimentares. É natural que nos sintamos apreensivos perante a perspectiva de haver amadores a utilizarem ferramentas que podem alterar a genética fundamental das plantas e dos animais. 

Todos os anos, os mosquitos causam enorme sofrimento em todo o mundo e a erradicação da malária ou de qualquer outra doença classificar-se-ia como um dos maiores feitos alguma vez alcançados pela medicina.

Os benefícios destas ferramentas também são reais, tal como os riscos de as ignorar. Todos os anos, os mosquitos causam enorme sofrimento em todo o mundo e a erradicação da malária ou de qualquer outra doença classificar-se-ia como um dos maiores feitos alguma vez alcançados pela medicina. Embora seja claramente cedo de mais para ponderar a utilização da técnica CRISPR em embriões humanos viáveis, há outras formas de editar a linha germinal humana que permitiriam curar doenças sem alterar a linhagem genética da nossa espécie. 
Um exemplo: as crianças nascidas com a doença de Tay-Sachs não possuem uma enzima essencial para que o organismo metabolize uma substância gorda residual presente no cérebro. A doença é muito rara e ocorre apenas quando ambos os progenitores transmitem a sua versão defeituosa do gene a um filho. Utilizando CRISPR, seria fácil tratar o contributo de um progenitor – digamos, o esperma do pai – para garantir que a criança não recebesse dois exemplares do gene anómalo. Tal intervenção salvaria evidentemente vidas e reduziria a possibilidade de recorrência da doença. Um resultado semelhante pode ser alcançado através de fertilização in vitro: implantando-se um embrião livre do gene defeituoso, haveria garantias de que a criança não transmitiria a doença a uma geração futura. 

Quando confrontados com riscos difíceis de avaliar, tendemos frequentemente a optar pela inacção. Mas com milhões de vidas em jogo, a inacção também comporta o seu próprio perigo. Em Dezembro passado, cientistas de todo o mundo reuniram-se em Washington para debaterem a difícil componente ética destas escolhas. Estão previstas mais discussões. Nunca haverá respostas simples, mas sem alguma orientação regulamentar — e não existe nenhuma, por enquanto, para editar o DNA humano – o fantástico potencial desta revolução poderá ser ensombrado pelo medo.
“Com induções genéticas e a técnica CRISPR, dispomos agora de um poder sobre espécies de todos os tipos que nunca pensámos ser possível”, afirma Hank Greely, director do Centro para o Direito e as Biociências de Stanford. “Podemos fazer um bem potencialmente imenso. Mas precisamos de reconhecer que estamos a lidar com um novo tipo de poder essencialmente novo e teremos de descobrir a maneira de nos assegurarmos de que o vamos utilizar com sensatez. Actualmente, não estamos equipados para consegui-lo e não há tempo a perder.” 
Um olhar de relance para o gabinete de Anthony James desfaz qualquer dúvida sobre o seu trabalho. As paredes estão forradas com desenhos de mosquitos e as prateleiras repletas de livros sobre mosquitos. 

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