Os perigos de alterar o código da vida

 

William Powell, da Faculdade de Ciências Ambientais e Florestais da Universidade Estadual de Nova Iorque, e outros colegas (entre os quais Kristen Stewart, tratando de uma planta transgénica) utilizaram um gene do trigo para desenvolver uma espécie de castanheiro resistente ao cancro do castanheiro. Talvez um dia ele possa repovoar a floresta do Leste dos EUA. 

Uma solução mais sofisticada foi proposta por Kevin Esvelt, que desenvolveu com George Church parte da tecnologia de CRISPR e de indução genética. “Só precisamos de proporcionar capacidade de resistência”, explicou. Isso significaria a codificação dos anticorpos gerados pela vacinação e, de seguida, a sua edição no DNA dos furões.
Kevin acredita que uma abordagem semelhante permitiria ajudar os furões a resistir à doença e erradicar a doença de Lyme (Borreliose), causada por uma bactéria transmitida por carraças que habitualmente se alimentam do sangue dos ratos. 
Se a resistência à doença de Lyme puder ser editada e introduzida no DNA destes ratos por meio da tecnologia CRISPR e disseminada pela população selvagem, será possível reduzir ou eliminar a doença com poucas repercussões ecológicas visíveis. A opinião firme de Kevin Esvelt e George Church, contudo, é a seguinte: nenhuma experiência desse tipo deverá ser tentada sem a auscultação do público e sem que, primeiro, os cientistas que a levarem a efeito tenham desenvolvido um sistema de reversão, uma espécie de antídoto. Se as edições originais tiverem consequências ecológicas imprevistas, haveria sempre a possibilidade de aplicar o antídoto em toda a população-alvo para as anular. 

Antes de os baleeiros trazerem consigo os mosquitos no início do século XIX, as aves autóctones do arquipélago do Hawai não tinham  tido qualquer contacto com as doenças transmitidas pelos mosquitos.

Dificilmente se pode afirmar que os furões-de-patas-negras sejam os únicos animais ameaçados de extinção que poderiam ser salvos assim. A população de aves do Hawai está a desaparecer rapidamente, em grande medida devido a um tipo de malária que infecta as aves. Antes de os baleeiros trazerem consigo os mosquitos no início do século XIX, as aves autóctones do arquipélago do Hawai não tinham  tido qualquer contacto com as doenças transmitidas pelos mosquitos e, por isso, não possuíam qualquer imunidade. Agora, apenas restam 42 das mais de cem espécies de aves endémicas do Hawai, três quartos das quais sob ameaça de extinção. A organização American Bird Conservancy classifica o Hawai como “capital mundial da extinção das aves”.
A malária das aves não é a única ameaça que paira sobre o que resta das aves do arquipélago, mas, se não for possível travá-la, elas provavelmente desaparecerão. 
Jack Newman exerceu funções como director científico da sociedade Amyris, pioneira no desenvolvimento de uma forma sintética de artemisinina, o único medicamento verdadeiramente eficaz no tratamento da malária em seres humanos. Actualmente, concentra boa parte da sua atenção na eliminação da doença transmitida por mosquitos nas aves. O único método actualmente disponível para proteger as aves contra a malária consiste em matar os mosquitos pulverizando enormes regiões com substâncias químicas potentes. 
Para atingi-los com insecticida, seria necessário envenenar grande parte da vida natural das florestas do Hawai. Em contrapartida, a edição genética, que daria origem a mosquitos estéreis, ajudaria a salvar as aves sem destruir o ambiente. 
“A utilização da genética para salvar estas espécies é apenas uma forma extraordinariamente focalizada de resolver uma série de problemas ambientais”, resume Jack Newman. “A malária das aves está a destruir a vida selvagem no Hawai e existe uma maneira de travá-la. Será que queremos mesmo ficar parados a olhar para o que ali se passa?” 
Daríamos provas de estreiteza de pontos de vista se fingíssemos que a possibilidade de danos (incluindo, e talvez sobretudo, danos acidentais) não existe nas novas ferramentas moleculares. Os cientistas mais responsáveis por progressos como a técnica CRISPR concordam que, quando começarmos a manipular o património genético de outras espécies, para não mencionar a nossa, talvez não seja fácil, ou sequer possível, voltar atrás. 

Os pais de Jack são portadores de um gene defeituoso que gera uma possibilidade de 25% de os seus filhos padecerem de fibrose quística. Jack, de 16 meses de idade, também é portador, mas nunca terá a doença. Procedeu-se ao despiste dos embriões (como este blastocito de cinco dias, em baixo) para seleccionar aqueles que não padeciam da doença, antes de serem implantados no útero materno, um processo conhecido por diagnóstico genético de pré-implantação (DGP). Ilan Tur­-Kaspa, responsável pelo tratamento no Instituto para a Reprodução Humana e Genética Reprodutiva, em Chicago, calculou que o DGP permitiria poupar cerca de dois mil milhões de euros por ano em custos de tratamento da fibrose quística. Fotografia David Littschwager.

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