Descubra como são os homens do século XXI

Como será que um rapaz do século XXI se torna homem? Alguns percursos parecem mais definidos do que outros.

 Texto Chip Brown   Fotografia Pete Muller

Drew Moore, de 11 anos, posa com a sua colecção de pressões de ar no quarto, onde a definição de um rapaz está impressa na parede. Na sua comunidade do Arkansas, a caça e a masculinidade estão interligadas: “Não é bem nós não gostarmos” de homens que não caçam, explica a sua madrasta, Callie. “Porém, gostamos mesmo daqueles que o fazem”.

O encontro de Shadrack Nyongesa com a faca fora agendado para pouco depois da alvorada. 
Desde a manhã anterior que este rapaz de 14 anos, ainda não circuncidado, membro da tribo bukusu da região ocidental do Quénia, andara a tinir um par de chocalhos de vaca emplumados contra as pulseiras metálicas atadas aos pulsos. Enquanto abanava os braços e dançava num terreiro em frente da casa do pai, os amigos e parentes mais velhos desfilavam em seu redor, brandindo paus e entoando cânticos sobre coragem, mulheres e álcool.

Ao alvorecer, homens da tribo bukusu, na região ocidental do Quénia, entoam o cântico de circuncisão sioyayo, enquanto encaminham três rapazes até ao ritual. Unidos nesta irmandade, estes rapazes bakoki carregarão um dia os caixões uns dos outros e escavarão as respectivas sepulturas.

À tarde, Shadrack e o seu séquito fizeram uma visita ritual a casa de um tio materno, que lhe ofereceu uma vaca, não sem primeiro o esbofetear e lhe gritar que parecia um maricas e não um indivíduo pronto a tornar-se homem. O rapaz, que pedira para ser submetido ao sikhebo, o cerimonial de circuncisão dos bukusu, não foi capaz de conter as lágrimas. Parecia mais zangado do que amedrontado e, ao regressar a casa do pai, fez tinir as campainhas chinyimba com vigor redobrado, dançando com brio. 
Ao pôr do Sol, o grupo engrossara para mais de cinquenta convidados. Os homens sentados em cabanas alumiadas com candeias mergulhavam palhas longas como canas num pote comunitário de busaa, a cerveja de milho especialmente preparada para esta ocasião.

Sob um cartaz apelando aos ucranianos para que não deixem “manchar a honra do vosso país”, as crianças aprendem tácticas de combate num campo de férias de Verão, nos arredores de Kiev. A experiência foi concebida para preparar os rapazes para o serviço militar e imbuir as raparigas de um sentido patriótico.

Às nove horas e meia, a multidão formou um círculo em redor dos intestinos azulados de uma vaca acabada de abater. Um dos tios paternos de Shadrack rasgou o estômago inchado da vaca. Cortou duas tiras da víscera e, de seguida, recolheu uma colherada de alimento esverdeado, parcialmente digerido. Aproximou-se do sobrinho com o braço em riste. 
“Na nossa família, nunca ninguém teve medo!”, gritou. “Aguenta, firme!” Feixes luminosos emitidos por lanternas fustigavam o rosto de Shadrack enquanto este olhava para o espaço com estoicismo resignado. Então, atirou a papa nojenta para o peito do sobrinho e, com zelo, começou a espalhá-la sobre a cara e cabeça do rapaz. Colocou o colar formado pelo intestino de vaca em torno do pescoço de Shadrack e esbofeteou-o rijamente nas duas faces.

De mãos nuas e preparados para o combate, rapazes da tribo venda, na África do Sul, combatem. Para rapazes que podem ter apenas 9 anos de idade, é um escape para a energia masculina e um treino de agressão. Os adultos supervisionam os combates para conterem a violência.

 “Se começares a tremer ou a chorar, não apareças mais aqui”, avisou o tio. “Atravessa o rio e segue em frente. Agora, és um soldado. Se alguém te espetar o olho, não pestanejes!” Para o omusinde, o rapaz não circuncidado, já não havia ponto de retorno.
Nessa noite, durante horas a fio, Shadrack dançou sob o olhar da multidão festiva, ébria de busaa. Os anciãos deram-lhe conselhos sobre o significado de ser um homem, transmitindo-lhe princípios de moral, explicando a importância de respeitar os anciãos e as mulheres e dando-lhe conselhos práticos, incluindo um aviso para manter as distâncias em relação a mulheres casadas. Ofereceram-lhe farinha, galinhas e pequenas quantias de dinheiro. O seu valor fora espicaçado, a sua determinação posta em causa. Por volta da meia-noite, deixaram-no finalmente pousar os braços cansados e a cabeça envolta em bosta seca para repousar. Levantou-se às 2 horas da manhã. 

Drew Moore mergulha a faca no coração de um javali adulto enquanto o pai, Peaty, e o cão seguram o animal. Esta é uma forma primordial de caçar, contribuindo para manter o frigorífico da família abastecido de carne. Drew, que “espeta javalis” desde os 6 anos, quer ser biólogo quando crescer.

 Uma hora mais tarde, já tinia zelosamente as campainhas e dançava no que pareciam ser convulsões de adrenalina. Os parentes e amigos, alguns dos quais já com os olhos semicerrados devido à ingestão de cerveja caseira, cantarolavam: “O Sol está quase a levantar-se! Consegues cheirar a faca? A manhã está quase a chegar!”
Enquanto aguardava que o Sol nascesse sobre o Grande Vale do Rifte, concretizando a transição de Shadrack para a idade adulta, não pude deixar de pensar no meu próprio pai, que morrera em Junho com 91 anos, e no meu filho de 17 anos, Oliver, que nesse momento dormia a 12 mil quilómetros de distância, na cidade de Nova Iorque. 

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