Como será que um rapaz do século XXI se torna homem? Alguns percursos parecem mais definidos do que outros.

 Texto Chip Brown   Fotografia Pete Muller

Drew Moore, de 11 anos, posa com a sua colecção de pressões de ar no quarto, onde a definição de um rapaz está impressa na parede. Na sua comunidade do Arkansas, a caça e a masculinidade estão interligadas: “Não é bem nós não gostarmos” de homens que não caçam, explica a sua madrasta, Callie. “Porém, gostamos mesmo daqueles que o fazem”.

O encontro de Shadrack Nyongesa com a faca fora agendado para pouco depois da alvorada. 
Desde a manhã anterior que este rapaz de 14 anos, ainda não circuncidado, membro da tribo bukusu da região ocidental do Quénia, andara a tinir um par de chocalhos de vaca emplumados contra as pulseiras metálicas atadas aos pulsos. Enquanto abanava os braços e dançava num terreiro em frente da casa do pai, os amigos e parentes mais velhos desfilavam em seu redor, brandindo paus e entoando cânticos sobre coragem, mulheres e álcool.

Ao alvorecer, homens da tribo bukusu, na região ocidental do Quénia, entoam o cântico de circuncisão sioyayo, enquanto encaminham três rapazes até ao ritual. Unidos nesta irmandade, estes rapazes bakoki carregarão um dia os caixões uns dos outros e escavarão as respectivas sepulturas.

À tarde, Shadrack e o seu séquito fizeram uma visita ritual a casa de um tio materno, que lhe ofereceu uma vaca, não sem primeiro o esbofetear e lhe gritar que parecia um maricas e não um indivíduo pronto a tornar-se homem. O rapaz, que pedira para ser submetido ao sikhebo, o cerimonial de circuncisão dos bukusu, não foi capaz de conter as lágrimas. Parecia mais zangado do que amedrontado e, ao regressar a casa do pai, fez tinir as campainhas chinyimba com vigor redobrado, dançando com brio. 
Ao pôr do Sol, o grupo engrossara para mais de cinquenta convidados. Os homens sentados em cabanas alumiadas com candeias mergulhavam palhas longas como canas num pote comunitário de busaa, a cerveja de milho especialmente preparada para esta ocasião.

Sob um cartaz apelando aos ucranianos para que não deixem “manchar a honra do vosso país”, as crianças aprendem tácticas de combate num campo de férias de Verão, nos arredores de Kiev. A experiência foi concebida para preparar os rapazes para o serviço militar e imbuir as raparigas de um sentido patriótico.

Às nove horas e meia, a multidão formou um círculo em redor dos intestinos azulados de uma vaca acabada de abater. Um dos tios paternos de Shadrack rasgou o estômago inchado da vaca. Cortou duas tiras da víscera e, de seguida, recolheu uma colherada de alimento esverdeado, parcialmente digerido. Aproximou-se do sobrinho com o braço em riste. 
“Na nossa família, nunca ninguém teve medo!”, gritou. “Aguenta, firme!” Feixes luminosos emitidos por lanternas fustigavam o rosto de Shadrack enquanto este olhava para o espaço com estoicismo resignado. Então, atirou a papa nojenta para o peito do sobrinho e, com zelo, começou a espalhá-la sobre a cara e cabeça do rapaz. Colocou o colar formado pelo intestino de vaca em torno do pescoço de Shadrack e esbofeteou-o rijamente nas duas faces.

De mãos nuas e preparados para o combate, rapazes da tribo venda, na África do Sul, combatem. Para rapazes que podem ter apenas 9 anos de idade, é um escape para a energia masculina e um treino de agressão. Os adultos supervisionam os combates para conterem a violência.

 “Se começares a tremer ou a chorar, não apareças mais aqui”, avisou o tio. “Atravessa o rio e segue em frente. Agora, és um soldado. Se alguém te espetar o olho, não pestanejes!” Para o omusinde, o rapaz não circuncidado, já não havia ponto de retorno.
Nessa noite, durante horas a fio, Shadrack dançou sob o olhar da multidão festiva, ébria de busaa. Os anciãos deram-lhe conselhos sobre o significado de ser um homem, transmitindo-lhe princípios de moral, explicando a importância de respeitar os anciãos e as mulheres e dando-lhe conselhos práticos, incluindo um aviso para manter as distâncias em relação a mulheres casadas. Ofereceram-lhe farinha, galinhas e pequenas quantias de dinheiro. O seu valor fora espicaçado, a sua determinação posta em causa. Por volta da meia-noite, deixaram-no finalmente pousar os braços cansados e a cabeça envolta em bosta seca para repousar. Levantou-se às 2 horas da manhã. 

Drew Moore mergulha a faca no coração de um javali adulto enquanto o pai, Peaty, e o cão seguram o animal. Esta é uma forma primordial de caçar, contribuindo para manter o frigorífico da família abastecido de carne. Drew, que “espeta javalis” desde os 6 anos, quer ser biólogo quando crescer.

 Uma hora mais tarde, já tinia zelosamente as campainhas e dançava no que pareciam ser convulsões de adrenalina. Os parentes e amigos, alguns dos quais já com os olhos semicerrados devido à ingestão de cerveja caseira, cantarolavam: “O Sol está quase a levantar-se! Consegues cheirar a faca? A manhã está quase a chegar!”
Enquanto aguardava que o Sol nascesse sobre o Grande Vale do Rifte, concretizando a transição de Shadrack para a idade adulta, não pude deixar de pensar no meu próprio pai, que morrera em Junho com 91 anos, e no meu filho de 17 anos, Oliver, que nesse momento dormia a 12 mil quilómetros de distância, na cidade de Nova Iorque. 

 

Depois de caminhar 90 quilómetros durante 5 dias, Victor Rivera abraça um colega. Pertencem a uma escola secundária masculina, a Saint Benedict’s, cujo ensino propõe uma visão consciente da masculinidade. A divisa da escola é: “Tudo o que faz mal ao meu irmão também me afecta. Tudo o que ajuda o meu irmão também me ajuda.”

 Era impossível imaginar percursos mais distintos para dois rapazes que se encaminhavam, no essencial, para o mesmo destino. Quer Shadrack quer Oliver tinham sido masculinizados no útero por um banho pré-natal de testosterona. Ambos estavam a meio de uma transição, metamorfoseando-se noutra fase: pêlo corporal, músculos definidos, ombros mais largos, sexualidade emergente, apetite pelo risco, níveis elevados de agressividade. Ambos começavam a lidar com tendências e padrões comportamentais programados por milhões de anos de evolução. 

Rodeado pelos homens da sua família e da religião hassídica, Levi Tiechtel festeja o 13.º aniversário durante o seu bar mitzvá em Queens (EUA). Há milénios que os judeus celebram este ritual que comemora a idade em que um homem se torna responsável pelos seus próprios actos e pecados.

Shadrack, porém, entrava na idade adulta numa cultura em que os papéis dos homens e das mulheres ainda encaixam nos modelos tradicionais e os rapazes são guiados por um ritual que remonta há pelo menos 200 anos. Oliver, em contrapartida, aproxima-se da idade adulta numa cultura que se encaminha furtivamente na direcção de uma sociedade com neutralidade de género, uma sociedade de tal maneira afastada das definições de homem e mulher baseadas na anatomia que, em 2016, os ministérios da Justiça, da Educação e da Defesa dos EUA promulgaram políticas públicas onde se reconhece a cada pessoa a identidade de género auto-atribuída. 

Membros dos Comandos de Salvamento fazem uma pausa entre chamadas para prestar serviços de emergência na cidade de San Salvador, em El Salvador. Estes rapazes recusaram a violência dos gangs, preferindo exprimir a sua masculinidade ajudando pessoas necessitadas.

Ao contrário de Shadrack, Oliver não pode apoiar-se nos papéis tradicionais do homem e da mulher para formar um conceito do que significa ser homem. Em nome da igualdade, os estereótipos de identidade sexual foram virados às avessas ou repudiados. Para ele, nada há de surpreendente nem de heterodoxo na existência de mulheres-polícia ou enfermeiros.
Também não existem, na nossa cultura, rituais ou ritos de iniciação explícitos que definam claramente a transição de Oliver de rapaz para homem. Por outras palavras, tornar-se um homem adulto será uma fase que ele, em grande medida, vai ter de descobrir por si próprio. Por vezes, reparo nele a debater-se sobre o significado de tudo isto, olhando com desconfiança o modelo que estabeleci porque, como ele diz, “tu cruzas as pernas como uma rapariga”. E por vezes, quando sente a pressão gerada pelo desempenho,  também consigo vê-lo a cultivar uma espécie de estoicismo, que faz lembrar, embora de forma mais suave, o estoicismo incutido em Shadrack à bofetada.

Muitos percursos até à masculinidade
Ao longo da história, as culturas engendraram uma miríade de práticas e rituais para transformarem os rapazes em homens. Estes métodos sagrados apresentam variações acentuadas e estão continuamente a evoluir, explica o especialista Gilbert Herdt. Também partilham alguns temas universais comuns que reflectem os valores de uma comunidade e os papéis que os homens devem desempenhar. Ilustração Daniela Santamarina.  Arte: Viktor Miller Gausa. Fonte: Gilbert Herdt, Universidade Estadual de São Francisco. Da esquerda para a direita:

ESPARTA, 800 a.C. - Aos 7 anos, os rapazes entravam em colégios internos para testar a sua força e determinação. A formação militar incluía criar laços eróticos com rapazes mais velhos para encorajar a fidelidade militar e suportar espancamentos violentos para reforçar a dureza. Actualidade: Muitas culturas promovem provas de força. Na tribo sambia (Papua Nova-Guiné), os rapazes separam-se das mães aos 7 anos e sujeitam-se a ritos iniciáticos, como sangrar do nariz e praticar sexo oral com rapazes mais velhos.
ROMA, 27 a.C. - A população de escravos ultrapassou a de cidadãos romanos. A meio da adolescência, os rapazes eram incentivados a casar-se cedo e a gerar filhos. Só então seriam considerados homens e cidadãos de pleno direito e estatuto. Actualidade: Em muitas sociedades, o casamento continua a definir-se essencialmente como ritual religioso. Para os homens jovens, pode significar acesso à maturidade, moralidade e papéis sociais masculinos da idade adulta. 
INGLATERRA, 1600 - O percurso de um escudeiro adolescente até aceder à cavalaria exigia aprendizagem com um cavaleiro, juramento de fidelidade ao rei sobre um objecto sagrado, competição em combates e justas, confirmação como cristão.Actualidade: No arquipélago das Trobriand, os rapazes pubescentes abandonam a família  e vivem numa casa em grupo, tutelados por um tio materno. A submissão ao tutor demonstra respeito pelos antepassados e compromisso com a comunidade.
HAWAI, 1700 - Os rapazes de estatuto mais elevado prestavam serviço ao rei e herdavam o seu estatuto como adultos. Se um adolescente de outra classe impressionava, poderia conquistar um estatuto não-hereditário como guerreiro, sacerdote ou mágico. Actualidade: Na Índia, os indivíduos hinduístas oriundos das castas mais baixas tentam provar a sua devoção e conquistar estatuto através de rituais, como caminhar descalço sobre carvão incandescente durante festividades ou dominar touros.
GRANDES PLANÍCIES (EUA), 1900 - Um adolescente lakota celebrava rituais religiosos como a Dança do Sol. Ao participarem neste rito, homens e rapazes tinham de fitar o Sol enquanto eram pendurados por cordas fixas a cavilhas que lhes perfuravam a pele. Actualidade: Rapazes da tribo kpelle, na Libéria, mantêm-se em reclusão durante 4 anos para iniciações, instrução, circuncisão e cerimónias criadas pelos deuses para os homens conquistarem os poderes sobrenaturais úteis à sobrevivência.
ITÁLIA e EUA, 1930 - Na Sicília e em Chicago, os grupos da máfia desenvolveram comportamentos masculinos extremos, definidos pela violência e pelo terror, e comportamentos masculinos condicionais, em que o estatuto depende da inclusão no grupo. Actualidade: Grupos terroristas exigem que os iniciados cometam actos de extrema violência. Costumam obrigar os membros a renunciar a indicadores tradicionais do homem adulto, como assumir responsabilidades pela família ou comunidade. 

Oliver é tímido, esforçando-se cuidadosamente por não mostrar a profundidade dos seus sentimentos, não vá parecer pouco masculino. Deixou de tocar flauta porque era o único rapaz nessa especialidade. Quando cruza as pernas, poisa o tornozelo no joelho. Os seus ícones de masculinidade são Michael Jordan e George Clooney. Quando completou 15 anos, pediu de presente um fato completo. 
Nem os cientistas nem os académicos são capazes de fornecer a qualquer um de nós explicações suficientemente esclarecedoras. As questões que rodeiam a transição do rapaz para o adulto, bem como os conceitos aproximados de virilidade e masculinidade, andam há séculos embrulhadas em debates politicamente parciais sobre a cultura e a biologia. Os antropólogos e os sociólogos costumam defender o ponto de vista cultural, convictos de que a masculinidade é construída pelas sociedades.

Jack McGrath, de 16 anos, prepara-se para a época de futebol americano no ginásio da escola em Marblehead. Para os sociólogos, o aumento do tempo disponível dos rapazes norte-americanos no século XIX deu origem às actividades atléticas, pensadas como reforço do corpo e do carácter.

Não se nasce homem, um “homem” faz-se, afirma Michael Kimmel, professor de sociologia: “A masculinidade não é manifestação de uma essência intrínseca… não emerge borbulhando até ao nível da consciência, proveniente da nossa constituição biológica; é criada na nossa cultura. Com efeito, a busca de uma definição transcendente e intemporal de masculinidade é, em si mesma, um fenómeno sociológico – tendemos a procurar o intemporal e o externo… quando as velhas definições já não se aplicam e as novas ainda não se encontram estabelecidas com firmeza.”

Alguns especialistas têm mesmo defendido que as diferenças de género são invenções e que os atributos masculinos não são mais intrínsecos aos rapazes do que os baby-grows azuis vestidos aos meninos recém-nascidos no hospital.

Alguns especialistas têm mesmo defendido que as diferenças de género são invenções e que os atributos masculinos não são mais intrínsecos aos rapazes do que os baby-grows azuis vestidos aos meninos recém-nascidos no hospital. Isso aplica-se, sem dúvida, a muitos estereótipos sexuais acerca das diferenças entre homens e mulheres em matéria de inteligência, instintos protectores, racionalidade e emoções. No entanto, à semelhança da maioria dos progenitores que criaram um rapaz ou uma rapariga, vejo-me obrigado a pensar se não haverá algo mais do que mera socialização cultural por detrás de comportamentos que, aparentemente, surgiram sem terem sido conscientemente preparados. Penso no gosto precoce de Oliver por andar sempre a atirar bolas – bolas de espuma, bolas de ténis, bolas feitas com fita-adesiva. Uma vez, nas ruas de Paris, jogámos à bola com uma castanha. Pela mesma bitola, será que houve algo mais profundo do que a socialização cultural por detrás do pendor da sua irmã, India, para encenar complexas conversas entre as suas bonecas? Muito antes de entrar no ensino pré-escolar, já ela passava horas a sussurrar diálogos de bonecas, como um intérprete na negociação de um tratado. 

Jovens conversam numa noite de Julho numa pizzaria de Marblehead. Em culturas com variados conceitos sobre o que significa ser homem, a busca da identidade masculina pode ser abalada por confusões. Muitas vezes, o barómetro do sucesso de um rapaz é elementar: o que conta é a maneira como as raparigas reagem na sua presença.

“As mulheres e os homens não possuem mentes intercambiáveis”, observa um professor de psicologia de Harvard, Steven Pinker, no seu livro “The Blank Slate” [sem tradução portuguesa]. Confirmando as pressões da selecção, de ser necessário competir para conquistar recursos e parceiros, estudos realizados ao longo das últimas décadas sugerem que os homens são melhores a desempenhar tarefas mentais que impliquem a rotação de objectos e as mulheres mostram vantagem noutras capacidades de resolução de problemas. Os rapazes tendem a ser mais agressivos fisicamente, com mais propensão para se envolverem nas chamadas “brincadeiras brutas”. Como observa Joe Herbert, professor jubilado da Universidade de Cambridge, os rapazes são capazes de brincar com bonecas, mas há fortes probabilidades de as bonecas entrarem em combates. 
Algum comportamento agressivo pode estar associado ao nível de testosterona, a qual, começando por volta dos 10 anos e atingindo o auge nos finais da adolescência, é por regra dez vezes mais elevada nos rapazes do que nas raparigas. 

 

Lágrimas descem pelas faces de Shadrack Nyongesa, de 14 anos, enquanto os anciãos o descompõem, antes de o cobrir de entranhas de vaca. “Se consegue aguentar que o tio lhe atire tripas à cara, consegue aguentar qualquer coisa”, diz o jornalista bukusu Daniel Wesangula.

 Talvez um dos mais eloquentes exemplos da maneira como a biologia condiciona muitos elementos da masculinidade seja uma doença genética rara denominada síndrome de insensibilidade aos androgénios. Há bebés nascidos com um cromossoma Y – e, portanto, biologicamente masculinos – cujos corpos não têm capacidade para processar a testosterona e, por isso, revertem para o fenótipo feminino. Possuem atributos e características de mulher. Sentem-se mulheres. No entanto, equipados com testículos internos em vez de ovários, não podem procriar. Esta síndrome, observa Joe Herbert no seu livro “Testosterone” [sem versão portuguesa], é “uma demonstração flagrante de que a testosterona se encontra na raiz daquilo a que chamamos ‘masculinidade’.”
Aos primeiros raios da aurora, impelido pelos imperativos culturais dos bukusu e por aquilo a que, segundo os cientistas, é um nível superior a 1.200 nanogramas por decilitro de testosterona correndo no fluxo sanguíneo de um macho adolescente, Shadrack encaminhou-se a pé para norte, dirigindo-se ao rio Chwele, ali perto. Caminhava rodeado por mais de trinta homens e rapazes e por algumas raparigas descaradas que ainda não tinham sido enxotadas. Os cânticos sucediam-se, enquanto o grupo prosseguia pelas estradas de argila vermelha e os campos de milho e cana-de-açúcar. Às 6h45, as campainhas e pulseiras metálicas de Shadrack foram-lhe retiradas. O rapaz despiu os calções. Caminhou nu e desceu por um banco de capim até chegar à água. O tio seguia atrás dele. Oculto pelo caniçal, Shadrack lavou-se, removendo a bosta de vaca. Ao emergir, estava coberto por uma lama cinzenta escura. Um ramalhete de uma erva especial foi colado à sua cabeça, assemelhando-se à crista de um abibe.

O responsável pela circuncisão acocorou-se em frente da virilha. A operação demorou poucos segundos.

Agora, o grupo rumava a sul, na direcção da casa do pai de Shadrack, mais velozmente para gorar quaisquer feitiços lançados por pessoas malevolentes. Cantavam o hino das terras bukusu, o cântico de circuncisão sioyayo que insulta a tribo queniana vizinha dos luo, cuja tradicional entrada na idade adulta masculina implica retirar parte dos dentes do rapaz em vez do prepúcio. “Quem tiver medo da circuncisão que vá para a terra dos luo.”
Uma enorme multidão aguardava junto do casario familiar. Shadrack entrou no pátio. Voltou-se para oeste, contemplando simbolicamente o ocaso da sua juventude como rapaz. Ainda na sua qualidade de artista de espectáculos, Shadrack pôs a mão esquerda sobre a anca e lançou a mão direita sobre a cabeça. O responsável pela circuncisão acocorou-se em frente da virilha. A operação demorou poucos segundos. Shadrack não pestanejou, nem vacilou, nem sequer deu a entender que sentisse qualquer dor. Com efeito, assim que o oficiante soprou o assobio, assinalando o fim da intervenção cirúrgica, a tia e a mãe de Shadrack, juntamente com outras mulheres, desataram a ulular de júbilo. Shadrack começou a pavonear-se.
O pai, o tio de Shadrack e outros homens, apressaram-se a inspeccionar a obra, inclinando-se para uma observação próxima, como se estivessem a verificar de novo os números de um bilhete de lotaria premiado. Com tremores, talvez em estado de choque, Shadrack sentou-se, enquanto as mulheres o envolviam em xailes coloridos. 

Membros da comunidade reunidos junto da casa de Sadik Musa testemunham a sua circuncisão. Espera-se que o adolescente, coberto de lama, aguente com estoicismo. Sadik mantém-se imóvel, mostrando-se à altura de um homem bukusu. Com um rápido golpe de faca, torna-se esse homem.

Passou os quatro dias seguintes em convalescença. Por tradição, os novos iniciados nesta comunidade são sequestrados durante quatro meses, sob tutela de um guardião, que os ensina a caçar, a construir uma cabana, a curtir uma pele e a tornar-se guerreiros suficientemente destemidos para repelir ataques de ladrões de gado e até a organizar assaltos. Embora alguns jovens rapazes bukusu ainda aprendam estas técnicas, Shadrack regressaria à escola quando as aulas reabrissem em Setembro. “Um indivíduo pode ser destemido na escola”, contrapõe Simiyu Wandibba, um bukusu que é professor de antropologia na Universidade de Nairobi. “É possível reacondicionar as virtudes tradicionais para se adaptarem à vida contemporânea.”
Shadrack começou logo a ser tratado com outro respeito: já adquirira o direito a um novo conjunto de privilégios. Nunca mais o mandariam ir buscar água ao rio, nem apanhar lenha ou varrer a casa. Ao prepararem-lhe as refeições, as mulheres passariam a ter em conta as suas preferências. Passando a dispor de cabana própria no casario familiar, deixaria de dormir em casa da mãe. E, chegado o mês de Dezembro, haveria uma cerimónia khukhwalukha na qual se completaria o período de transição de omusinde para omusani e o rapaz de 14 anos seria formalmente apresentado à terra dos bukusu como homem de pleno direito. Dificilmente podemos assistir a uma cerimónia de circuncisão dos bukusu sem nos sentirmos divididos entre admiração e consternação.

Passando a dispor de cabana própria no casario familiar, deixaria de dormir em casa da mãe.

Consternação porque estas crianças… enfim, são crianças. Assisti a cinco circuncisões numa semana e alguns omusinde eram ainda mais novos e pareciam menos preparados do que Shadrack. Será que o rapaz, tentado pela promessa de novos privilégios e pressionado a integrar-se, se sente realmente livre para tomar a decisão de se submeter a tal intervenção cirúrgica dolorosa?
E aquilo que foi feito a Shadrack e aos outros dificilmente se pode considerar uma prova extrema do que as culturas efectivamente fazem para transformar rapazes em homens. 
Na Austrália, espera-se que os rapazes aborígenes mardudjara engulam os seus prepúcios após a sua remoção. Na Amazónia Brasileira, os rapazes satere mawe introduzem as mãos em luvas cheias de formigas-bala cuja picada neurotóxica se diz ser uma das mais dolorosas da natureza. 

Aplicada como defesa contra agressões por parte de outros homens ou para aproveitar fraquezas, a violência é o motivo recorrente da individualidade masculina em inúmeras culturas. 

Porquê? A resposta inquietante é: como preparação para a guerra. O antropólogo David Gilmore explica que, quando os recursos são escassos e o bem-estar colectivo incerto, “a ideologia sexual reflecte as condições materiais da vida”. Os rapazes são “enrijecidos” para cumprirem os deveres clássicos de procriar, garantir o sustento e proteger, tarefas desempenhadas pelos homens há milénios. 
Aplicada como defesa contra agressões por parte de outros homens ou para aproveitar fraquezas, a violência é o motivo recorrente da individualidade masculina em inúmeras culturas.
A julgar pelos jogos de vídeo, pelos filmes de acção ou pelas taxas de homicídio, a violência fascina os homens mesmo em condições terríveis de vida. 
O que poderá quebrar o ciclo que faz coincidir dureza e estoicismo com a identidade masculina? Consternação à parte, parece-me difícil deixar de sentir, ainda que contrafeito, admiração por uma cultura que proporciona aos rapazes um percurso nada ambíguo para se tornarem homens adultos. As etapas encontram-se claramente identificadas. A faca e corte tornam o assunto indesmentivelmente real na sua totalidade. “O sangue liga-nos aos nossos antepassados”, explicou-me um dos tios de Shadrack. Os privilégios masculinos de Shadrack talvez lhe confiram o direito à sua ceia preferida, mas acarretam também obrigações e responsabilidades, e, em alguns aspectos, o abuso sofrido durante o ritual serve provavelmente para ensinar aos rapazes a não pagarem na mesma moeda. “Se um indivíduo aguentou que lhe atirassem bosta de vaca, sabe que pode aguentar tudo o que a vida lhe atirar”, afirma Daniel Wesangula, um jornalista bukusu.

Os privilégios masculinos de Shadrack talvez lhe confiram o direito à sua ceia preferida, mas acarretam também obrigações e responsabilidades.

Deve acrescentar-se a isto o apoio da bakoki, a irmandade de rapazes que foram circuncidados ao mesmo tempo e pertencem ao mesmo grupo etário. “Os bakoki são amigos para toda a vida”, diz Daniel. “Transportam-nos o caixão e cavam-nos a sepultura. Se alguém se portar mal, os pais enviam-lhe um bakoki para incutir-lhe algum juízo.” Talvez devido à inexistência de rituais significativos de entrada na idade adulta, a escola de Oliver convidou recentemente uma companhia de teatro juvenil a apresentar uma peça intitulada “Now That We’re Men” [“Agora que somos homens”]. Algumas das perguntas que figuram no programa: “Quem é prejudicado quando [insultos sexuais] são constantemente ouvidos nos corredores da escola secundária? Como se sente alguém por pertencer a uma cultura em que os jogos de vídeo mais populares do mercado dão pontos quando os jogadores (sobretudo jovens do sexo masculino) violam e matam mulheres?”
Suponho que, em parte, sou culpado por ter mantido a tradição de autodescoberta desestruturada que herdei do meu pai, que não se alongou em conversas embaraçosas sobre passarinhos e abelhas, nem me ensinou a esfaquear um javali. Não faço ideia de qual ou quais os rituais de transição que me conduziram da adolescência àquilo que hoje corporizo com uma lista de competências semiacabadas.

Como se sente alguém por pertencer a uma cultura em que os jogos de vídeo mais populares do mercado dão pontos quando os jogadores (sobretudo jovens do sexo masculino) violam e matam mulheres?”

Nos últimos meses de vida do meu pai, na Primavera passada, perguntei-lhe se tinha tentado preparar-me para me tornar um homem adulto e quando ele olhou para mim atónito, perguntei-lhe se o pai dele fizera algo para prepará-lo. Mais atónito ainda. Imagino que a sua entrada na vida adulta tenha sido oferecida pela Marinha de Guerra dos EUA. Perto do fim, já não conseguia recordar-se ao meio-dia dos procedimentos médicos a que fora submetido às 11h45 da manhã, mas lembrava-se dos camaradas da Marinha com quem prestara serviço militar na Segunda Guerra Mundial. Tinha 19 anos quando atravessou o Pacífico. Navegara por sextante, encafuado com outros marinheiros, e ao largo de Okinawa disparara a arma contra um kamikaze. Fizera escala na baía de Hiroxima dois meses depois da bomba atómica e testemunhara as consequências funestas dos homens em guerra, experiência que o inspirou a compor um poema publicado em Outubro de 1945 no “New York Herald Tribune”. Rendeu-lhe 12 dólares, a sua primeira remuneração numa longa carreira como escritor. Proteger. Garantir o sustento. 

Após a circuncisão, o pai de Sadik oferece-lhe um cobertor. A sua transição para a masculinidade adulta é rígida: anteriormente filho de sua mãe, passa agora a ser filho do pai. Fica isento de tarefas domésticas e viverá na sua própria cabana, escutando os conselhos do pai, em vez de ouvir as histórias contadas pela avó. 

Na ausência de rituais, creio que na minha família a masculinidade deve ser um código de valores, transmitido sobretudo pelo exemplo. Certa vez, o meu pai explicou a um dos meus colegas da universidade, por que razão não precisava de uma arma de fogo para proteger a família. Seguindo um raciocínio que hoje parece uma versão exagerada de idealismo liberal, o meu pai disse-lhe: “No dia em que pegar numa arma em vez de telefonar a um advogado, já não haverá nada para defender.” Isto parece quase pitoresco hoje em dia. E interrogo-me se haverá um ritual de acesso à masculinidade suficientemente artístico para transmitir os valores que o meu pai viu nos dois artistas que lhe moldaram a sensibilidade – o humorista Robert Benchley e o trompetista Louis Armstrong – que venerava pelo seu “sentido de humor, decência e alegria de viver”.
Não sei em que medida será útil a Oliver saber que existe um milhão de definições do que significa ser homem, que é livre de escolher a que quiser ou de descobrir aquilo de que precisa para se qualificar. Tenho esperança de que consiga entender as responsabilidades inerentes a um adulto e que rejeite as desigualdades que a masculinidade perpetua. Espero que se torne um homem, independentemente da maneira que escolher para o definir, e não espere qualquer desculpa para deixar de concretizar essa visão. Também ele vem de uma linha de antepassados, algures no meio da poeira. Poderia fazer uma escolha bem pior do que nortear a vida pelo humor, decência e alegria de viver. 

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