Ramanujan, o indiano que fazia matemática sem nunca a ter aprendido

 

ramanujan manuscrito

Ramanujan seguia escrupulosamente uma vida de brâmane, a casta hindu de mais elevada espiritualidade, com um autocontrolo rigoroso e uma frugalidade ascética. Durante toda a sua vida, era ao levantar-se de cama que escrevia todas as suas descobertas, para muitas das quais não conseguia encontrar uma demonstração rigorosa. Na imagem, uma página manuscrita de um dos seus cadernos. Fotografia Arquivo RBA.

No entanto, chegou a um ponto em que a sua situação económica e social não lhe permitia continuar a avançar. Os matemáticos que o rodeavam não podiam ajudá-lo. Com um grupo de amigos redigiu então uma carta em inglês, enviada a vários matemáticos europeus. Ali, Ramanujan expunha os seus conhecimentos e o desejo de os ampliar. O teor da carta era o seguinte: «Excelentíssimo Senhor: Permito-me a liberdade de me apresentar como escriturário do Port Trust Office de Madrasta, com um salário de apenas 20 libras anuais. Tenho cerca de 23 anos de idade. Não tenho formação universitária, mas segui os cursos da escola ordinária. Depois de deixar a escola, empreguei todo o tempo livre de que dispunha a trabalhar em matemática. Não passei pelo processo regular convencional que se segue num curso universitário, mas estou a seguir uma trajectória própria. Efectuei um estudo pormenorizado das séries divergentes em geral e os resultados a que cheguei são qualificados como «surpreendentes» pelos matemáticos locais... Queria pedir-lhe que revisse os trabalhos aqui incluídos. Se achar que há alguma coisa de valor, gostaria de publicar os meus teoremas, mas sou pobre. Não apresentei os cálculos reais nem as expressões que adoptei, mas indiquei o processo que sigo. Devido à minha pouca experiência, terei em grande apreço qualquer conselho que me quiser dar. Peço-lhe que me perdoe qualquer incómodo. Fico, excelentíssimo Senhor, à sua inteira disposição, S. Ramanujan.»

Em Maio de 1913, Hardy conseguiu-lhe uma bolsa para ir para Cambridge, mas Ramanujan recusou-a porque a mãe não lhe deu autorização para ir para Inglaterra.

De todos os matemáticos que receberam a carta de Ramanujan, apenas Hardy se apercebeu do valor daqueles escritos. Ramanujan tinha-lhe enviado cerca de 120 teoremas, que continham uma infinidade de fórmulas. Referindo-se a elas, Hardy comentou: «Nunca tinha visto anteriormente nada sequer parecido com elas. Uma passagem de olhos foi suficiente para compreender que só podiam ter sido escritas por um matemático da mais elevada categoria. Tinham por força que estar certas, pois ninguém teria tido a imaginação suficiente para as inventar.» Em Maio de 1913, Hardy conseguiu-lhe uma bolsa para ir para Cambridge, mas Ramanujan recusou-a porque a mãe não lhe deu autorização para ir para Inglaterra. Ao fim de pouco tempo, porém, deixou-o ir. Segundo relata Hardy, a razão para a alteração dessa decisão ocorreu «na manhã em que a mãe declarou que, na noite anterior, tinha visto o filho numa grande sala, rodeado por um grupo de europeus e que a deusa Namagiri lhe tinha ordenado que não se interpusesse no caminho do filho e que contribuísse para o objectivo da sua vida». Por fim, graças aos esforços de Hardy, Ramanujan conseguiu mudar-se para Cambridge com uma bolsa paga em parte por Madrasta e em parte pelo Trinity College.

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