Não é ouro, nem é negro, mas o sobreiro é um dos tesouros nacionais. Símbolo da liderança do país, é a peça basilar de uma actividade elogiada pela sua sustentabilidade. A jóia da coroa é a casca, a cortiça, que merece agora o interesse da ciência.

Texto e Fotografia António Luís Campos

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Da autoria de Siza Vieira e Souto de Moura, o Pavilhão de Portugal na Expo de Hannover foi revestido a cortiça. Depois da exposição, foi reconstruído em Coimbra. Em fundo, a fórmula química da cortiça.

Sob o céu carregado de Inverno, num insuspeito edifício envidraçado de Cantanhede, começam a ser desvendados os mais profundos segredos da espécie. Nas instalações do Biocant, um centro de inovação em biotecnologia, está a ser desenvolvido o projecto de sequenciação do genoma do sobreiro (Quercus suber).
Contando com cientistas de renome, o patamar inicial é a sequenciação de 100 milhões de bases. O projecto iniciou-se com a recolha de material vegetal (folhas) num imponente exemplar do Instituto Superior de Agronomia, passando depois para o Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI) onde, após rápida congelação em azotco líquido, se extraiu DNA. Este foi então colocado em placas contendo 1,6 milhões de poços, capazes de gerar 400 mil sequências de uma só vez num sequenciador de DNA. Na prática, cada “poço” é um microscópico tubo de ensaio, dentro do qual acontecem as reacções químicas.

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Pedaços de folha de sobreiro, em solução líquida, foram preparados para centrifugação  e extracção de DNA nos laboratórios do INETI.

Curiosamente, apesar de no processo ser empregue tecnologia de ponta, o sistema de detecção baseia-se no princípio que permite aos pirilampos emitir luz, a quimioluminescência, utilizando uma enzima idêntica à destes insectos. As dificuldades são desde já conhecidas, e a principal é a complexidade do genoma, que José Matos, investigador no INETI, quantifica da seguinte forma: “Se levássemos um segundo a soletrar cada base (representada por uma das siglas A, C, G, T), demoraríamos três décadas para dizer todo este genoma.” Segundo ele, “a sequenciação pode ser vista como a recolha das peças de um puzzle, que depois é necessário montar, de forma a determinar as várias imagens”, fase que poderá levar alguns anos. Conceição Egas, uma das responsáveis do Biocant, fita concentrada um dos muitos monitores do laboratório. “Este é um processo que se baseia numa forte componente informática, incluindo o desenvolvimento de software específico para análise de dados, só possível em equipa”, diz.

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No Biocant, um sequenciador de DNA único a nível ibérico é preparado para uma série de análises (em cima). O azoto líquido facilita o esmagamento do material genético num almofariz para posterior sequenciação (em baixo).

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O objectivo global do projecto é um melhor conhecimento da espécie, antevendo-se desde já aplicações práticas, que passarão por a tornar mais resistente na natureza, pela identificação de potenciais ameaças e pela melhoria quantitativa e qualitativa da cortiça produzida. Cortiça que é, sem dúvida, a alma de uma fileira industrial que tem lutado por se reinventar. Na verdade, a casca do sobreiro continua a ser extraída de forma tradicional, por homens que trabalham à jorna sob o sol impiedoso do Alentejo, empoleirados em ramadas e escadotes, manejando com precisão machados de gume arredondado. Estes trabalhadores sazonais podem ser vistos um pouco por todo o Sul do país, dado que o montado de sobro continua a ser uma das mais significativas manchas florestais em Portugal e Espanha.

O habitat em que se integra é riquíssimo, albergando espécies emblemáticas como o lince e a águia-imperial.

Juntos, contam com mais de 50% da área mundial de sobreiro, com o restante distribuído por países mediterrâneos. Em território nacional, é a espécie florestal mais abundante, ocupando 23% da área total restada, cerca de 736 mil hectares. E tem uma particularidade rara: o habitat em que se integra é riquíssimo, albergando espécies emblemáticas como o lince e a águia-imperial, o que lhe permite apresentar-se como um caso de equilíbrio entre uma actividade socioeconómica lucrativa e a preservação de valores ambientais. Além disso, tem sido feito um esforço considerável para a adesão a práticas restais responsáveis, como comprovam os 150 mil hectares que poderão ser certificados pelo Conselho de Gestão Florestal (Forest Stewardship Council) até 2010.

 

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A espécie florestal mais representada As manchas de sobreiro ocupam mais de 700 mil hectares em todo o país, tornando-o a principal espécie da floresta portuguesa. Espécie de habitats secos e áridos, o sobreiro tem uma distribuição privilegiada a sul do rio Tejo, como se nota pelo mapa (em cima). Embora existam manchas de sobreiros em quase todo o território, o Alentejo representa mais de 70% da ocipação da espécie. O Alentejo e Lisboa e Vale do Tejo são as únicas regiões com uma evolução positiva na última década.

O processo que a cortiça atravessa é relativamente simples. Retiradas manualmente dos sobreiros durante o Verão no mínimo a cada nove anos, as placas são armazenadas em pilhas, onde estagiam durante meses. Depois são passadas para unidades de tratamento, onde a cortiça é triada, cozida, seleccionada e armazenada. Daqui, segue para as fábricas de transformação, onde a maioria (e a de melhor qualidade) é destinada a rolhas. Apesar da alteração do mercado em anos recentes, traduzida na criação de novas utilizações, a importância da rolha não pode ser ignorada. De tal forma que, devido à fama que ganhou entre alguns meios ligados ao vinho, pelo desafortunadamente famoso “gosto a mofo”, ou “sabor a rolha”, causado pelo 2,4,6-tricloroanisol (TCA), a indústria foi obrigada a investir avultados recursos em investigação e controlo de qualidade, sobretudo ao ser confrontada com novas soluções, como os vedantes sintéticos. O ser humano é muito sensível àquele elemento e bastam quatro nanogramas/litro para provocar a sua detecção, algo equivalente a contaminar duas mil piscinas olímpicas com uma única colher de sopa! Este facto, aliado a agressivas campanhas publicitárias a favor das alternativas artificiais em mercados-chave como o Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, fez o império tremer.

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Em Mozelos, onde se concentra parte da indústria de transforma- ção da cortiça, procede- -se ao acondicionamen- to para posterior cozedura.

A reacção materializou-se numa intensa campanha de investigação e inovação, promovidas, entre outros, pelo gigante da cortiça, o grupo Amorim. Recrutando Miguel Cabral no meio académico, a empresa criou, em 1999, um departamento com a missão de encontrar soluções para o problema da contaminação do vinho pelas rolhas de cortiça. Foram estudados três métodos: ozono, vácuo e vapor. O último revelaria uma eficácia surpreendente, com uma taxa de remoção do TCA de 90% nos modelos de teste. A sua implementação à escala industrial foi mais complexa. Designado por ROSA, o dispositivo viu a luz do dia em 2002 e foi actualizado em 2007. Entusiasmado, o investigador diz:  “O princípio consiste na destilação em vapor dos componentes voláteis, nos quais se inclui o TCA.

Retiradas manualmente dos sobreiros a cada nove anos, as placas de cortiça são armazenadas em pilhas.

A apresentação dos primeiros resultados foi um momento inesquecível. Tínhamos encontrado o caminho a seguir, com alta eficiência”. O grupo de investigadores continua a acompanhar novos projectos, como a cromatografia rápida (que permitirá uma análise em tempo real de cada rolha) ou novas ecocolas para rolhas técnicas. Mas o tricloroanisol tem outras possíveis fontes: barricas, pallets ou garrafas contam- -se entre os infractores, pelo que, para contrariar o fenómeno, a Confederação Europeia da  Cortiça, que reúne as associações empresariais europeias do sector, instituiu um código internacional de boas práticas rolheiras e o sistema de acreditação Systecode, com recomendações para o processo de fabrico. Sob apertado controlo, os resultados começaram finalmente a surgir. Várias empresas, como a Cork Supply, investiram consideráveis recursos na metodologia fabril, introduzindo em 1993 a análise sensorial como ferramenta de rotina e adoptando padrões de amostragem exigentes.

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A casca do sobreiro continua a ser extraída de forma tradicional, por trabalhadores sazonais que manejam com precisão as ferramentas de corte.  No Sul do país a imagem destes obreiros da cortiça marca a paisagem uma vez que o montado de sobro continua a ser uma das mais significativas manchas florestais nacionais.

Na nova fábrica, com uma capacidade máxima de produção de 700 milhões de rolhas anuais, Ana Mesquita, directora de investigação e desenvolvimento, rodeada de dezenas de enigmáticos boiões, reafirma o velho adágio de que “90% dos problemas se resolvem em 10% do tempo, mas 90% do tempo é gasto a resolver 10% dos problemas”. 
Um dos objectivos é a rastreabilidade no processo, desde a resta à garrafa. Desenvolvido e patenteado pela empresa, o dispositivo curativo Innocork assegura a neutralidade do lote e a remoção de TCA através da impregnação das rolhas naturais com etanol (dessorção das moléculas), seguida por arrastamento com vapor e secagem.

O ritual de cheirar, olhar e finalmente provar o vinho é intemporal e, como assegura, a rolha de cortiça mantém um papel importante.

Mas o vapor não é a única abordagem. Um outro método, tecnologicamente avançado, originário de uma patente do INETI, utiliza radiação gama para quebrar a molécula, transformando-a em resíduos sem o desagradável odor. Implementadas na região de Lisboa, as infra-estruturas necessárias implicam um bunker, onde já são tratadas rolhas para alguns clientes. Controlado – embora não eliminado – que parece estar o “sabor a rolha”, um dos enfoques da investigação cai agora na permeabilidade das rolhas e na forma como ela afecta o conteúdo. Uma excessiva transmissão de oxigénio tende a oxidar os vinhos, mas a estanquicidade gasosa absoluta fará o vinho “morrer”, não permitindo o seu amadurecimento em garrafa, com consequências odoríferas desagradáveis.

 

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Na linha de engarrafamento robotizado das Caves Messias, na Mealhada, o vinho tinto é vedado com rolhas de cortiça. Uma boa parte destina-se à exportação.

 A importância da qualidade da rolha é confirmada por Dominic Symington, representante de uma das mais antigas famílias de viticultores do Douro, que nos conduz à Quinta do Vesúvio, encaixada entre o rio e as vinhas encavalitadas nos socalcos característicos da mais antiga região demarcada do mundo. Com o cabelo ruivo e pele clara denunciando as raízes britânicas da família e da sua dedicação ao vinho do Porto, Dominic abre uma garrafa com a precisão de gestos dos conhecedores. O ritual de cheirar, olhar e finalmente provar o vinho é intemporal e, como assegura, a rolha de cortiça mantém um papel importante.
Mas nem só de rolhas vive a cortiça. De forma a assegurar a estabilidade de uma indústria cujo valor das exportações, em Portugal, ronda os 800 milhões de euros anuais, uma das acções tomadas foi a diversificação de produtos. A versatilidade é uma mais-valia, e Rui Reis, da Universidade do Minho, atesta-o: “As novas aplicações incluem a cosmética, a indústria farmacêutica, o combate a derrames petrolíferos e a purificação de água, entre outras. Alguns componentes têm até propriedades antioxidantes. E com o desenvolvimento genético poder-se-á alargar ainda mais esse leque.”
 O design é outro dos novos usos a que esta matéria-prima se adapta.

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Do sobreiro às garrafas há um longo processo de transformação da cortiça, que inclui também uma forte dose de investigação científica (em cima). Em baixo, garrafas centenárias de vinho do Porto Graham’s vedadas com rolhas de cortiça. A marca é propriedade da família Symington, cujas origens, enquanto produtora de vinhos, remontam há 13 gerações.

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Na Baixa de Lisboa, cruzada diariamente por turistas pachorrentos e executivos apressados, num edifício a que a idade empresta já o seu encanto, uma loja diferente espreita o transeunte. Tudo o que lá se encontra é feito de ou com cortiça. Segundo a definição bem-humorada da criadora, Sandra Correia, a Pelcor é uma empresa que surgiu de uma rolha de champanhe transformada em guarda-chuva! O sucesso da peça abriu caminhos para vários dos produtos originais que hoje enchem a loja, e vão desde porta-chaves a mobiliário, passando por vestuário, calçado ou joalharia. A fama da empresa nascida em São Brás de Alportel chegou longe, aos ouvidos da princesa Jawaher Abdulaziz, da Arábia Saudita, que se apaixonou pelo toque da cortiça.

A despretensiosa casca do sobreiro marca já presença nos estiradores das mais exclusivas marcas mundiais.

No início de 2008, foi assim recebida uma inesperada encomenda: 1.500 individuais em pele de cortiça! Elevando ainda mais a fasquia, a despretensiosa casca do sobreiro marca já presença nos estiradores das mais exclusivas marcas mundiais, tendo sido integrada nos acabamentos interiores do protótipo F700, da Mercedes, ou em sapatos de luxo da casa Dior. Num ambiente bem menos glamoroso, repleto de equipamento electromecânico, Luís Gil, investigador do INETI, abre um forno do qual o leigo esperaria ver sair deliciosas iguarias... Do interior, porém, retiram-se apenas amostras de aglomerados de cortiça que a sua unidade tem por tarefa testar. Luís Gil dedica-se a este campo de actividade há muito e está ligado a vários projectos que passaram de meras ideias abstractas a produtos comerciais. São 14 as patentes que, entre outras, incluem um sistema de cozedura de cortiça, compósitos de aglomerado – reutilizam-se até resíduos de embalagens TetraPak em revestimentos –, um sistema para limpeza de equipamento eléctrico e, mais recentemente, um processo de aditivação de vinho.

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A inovação não tem fronteiras. A loja da Pelcor, na Baixa lisboeta, exibe vários artigos de moda fabricados à base de cortiça, tirando partido das invulgares texturas produzidas por este material.

Viajando até à capital da cortiça, Santa Maria da Feira, o célebre produto está omnipresente nos labirínticos corredores da Amorim Revestimentos. Sob os pés, literalmente, diversos tipos de materiais derivados de cortiça marcam presença. A empresa é responsável pela fabricação, apenas em 2007, de revestimentos suficientes para cobrir uma área de 6,6km2, equivalentes ao território de Gibraltar! Este segmento é o segundo mais importante, a seguir ao das rolhas, e é em Portugal que estão as mais avançadas unidades fabris.

Os compósitos já são competitivos em campos outrora dominados pelo aço, alumínio, madeira e produtos derivados do petróleo.

Na construção civil, é hoje uma opção nos chamados edifícios verdes, em que a vertente ecológica ganha relevo, sobretudo com a recente obrigatoriedade da certificação energética.
Além dos soalhos, é utilizada em portas corta-fogo, telhados, paredes e janelas. Exemplo disso foi o Pavilhão de Portugal na Expo 2000, em Hannover, criado pela mão de Siza Vieira  e Souto de Moura, com um revestimento exterior de cortiça e que, após ser desmantelado, foi reconstruído à beira do Mondego, em Coimbra. Mais a sul, João Carvalho, da Amorim Cork Composites, abre-nos as portas do laboratório em que se desenvolvem novos produtos, em Corroios. Aqui são experimentadas diversas soluções compósitas de cortiça, sobretudo em misturas com borracha e resinas não convencionais. O investigador explica: “Os compósitos são competidores em campos outrora dominados pelo aço, alumínio, madeira e produtos derivados do petróleo. As suas propriedades como isolante (térmico e vibroacústico) tornam-nos especialmente adaptados a aplicações de rolling stock, como construção naval, transportes ferroviários e rodoviários.”

Tanto a NASA como a Agência Espacial Europeia (ESA) aplicam este material nas suas missões, como escudos térmicos e isolante contra vibrações, prova das propriedades físico-químicas excepcionais.

Um dos projectos que o exemplifica é o AeroCork, promovido pela Dyn’Aero, uma marca de aviões francesa estabelecida em Ponte de Sor que procura a homologação das suas aeronaves substituindo o máximo de componentes sintéticos por cortiça. Com o inegável charme do sotaque gaulês, David Chaumet, o director, elucida que o AeroCork visa investigar possíveis utilizações e melhoramentos da cortiça, entre outras razões, por esta ser mais ecológica e apresentar vantagens como a resiliência e a capacidade de retomar a forma original após um impacte. Além disso, a estética é um forte argumento para o seu emprego, podendo ter lugar em funções decorativas, como por exemplo no painel de instrumentos dos ultraligeiros. 
Não é, aliás, de espantar ver a cortiça em voo. O espaço é um ambiente familiar para este material, dado que tanto a NASA como a Agência Espacial Europeia (ESA) o aplicam nas suas missões, como escudos térmicos e isolante contra vibrações, prova das propriedades físico-químicas excepcionais: a sua estrutura celular contém 90% de ar, o que lhe confere grande capacidade de compressão sem ser danificada.  O facto de ser muito resistente ao fogo – herança genética do ambiente seco e quente em que vive – torna-a adequada a estruturas aerospaciais.

 

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Um caiaque da marca Nelo, com o interior revestido a cortiça, aguarda o envio para o cliente. A cortiça é utilizada em conjunto com diversas fibras e resinas, sobretudo como material de núcleo, pelas suas propriedades físicas e por ser um material ecológico, ambientalmente mais vantajoso do que o PVC.

De estrelas esteve Pequim repleta em 2008.  A elite do desporto marcou presença nos Jogos Olímpicos, e vários atletas chegaram ao pódio aos comandos de embarcações fabricadas em Portugal: os caiaques Nelo. Reconhecidos como os melhores, foram adoptados por várias selecções nacionais, tornando-se esta a marca mais medalhada nos Jogos do ano passado, arrecadando 20 das 36 medalhas possíveis. A curiosidade é que entre os ingredientes desta receita vencedora de materiais compósitos encontra-se a cortiça.
 A empresa nasceu em 1978, em Vila do Conde, ano em que o atleta Manuel Ramos começou a fabricar os seus próprios barcos. A procura cresceu e a evolução levou-o ao emprego de matérias como a fibra de vidro e carbono, resinas epoxy e kevlar.

Só o montado de sobro português fixa até 4,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, prevenindo simultaneamente a desertificação e o empobrecimento dos solos.

A cortiça, pelas características, juntou-se-lhes. Ao possuir grande potencial como núcleo, encontra aplicações muito semelhantes às da construção aeronáutica. É utilizada entre camadas de fibras e resina, para dar robustez estrutural, e poderá em breve substituir totalmente o PVC, ambientalmente negativo. Para já, é integrada em todos os caiaques da marca como reforço, inclusivamente nos que ganharam medalhas olímpicas, prevendo-se no futuro que a sua aplicação seja ainda mais abrangente. Ainda nos Jogos Olímpicos na China, uma empresa local (sugestivamente designada por Great Wall Wines) foi a escolhida para o fornecimento exclusivo de vinhos aos 16 mil atletas. Embora de forma discreta e provavelmente inconsciente, todos tomaram contacto com um produto nacional, dado que a totalidade das rolhas era proveniente de Portugal. Atestando a actualidade do produto, um estudo da consultora PricewaterhouseCoopers demonstrou a grande vantagem ambiental comparativa das rolhas de cortiça enquanto solução de selagem de vinhos. Considerado todo o processo, incluindo a produção, transporte, engarrafamento e fim de vida, as emissões de dióxido de carbono – directamente relacionadas com o fenómeno de aquecimento global – são dez vezes superiores nos vedantes plásticos e 24 vezes nas cápsulas de alumínio.

A Greenpeace, o World Wide Fund for Nature e a Quercus têm apoiado iniciativas de promoção da cortiça.

Só o montado de sobro português fixa até 4,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, prevenindo simultaneamente a desertificação e o empobrecimento dos solos, além de servir de apoio a outras actividades, como a caça, recolecção de cogumelos e cultivo de plantas aromáticas. Não admira, portanto, que sejam muitas as organizações  ambientalistas que advogam a sua preservação. A Greenpeace, o World Wide Fund for Nature e a Quercus têm apoiado iniciativas de promoção. Uma das mais recentes é o GreenCork, um projecto de reciclagem que, em pouco mais de meio ano, recolheu cerca de três milhões de rolhas. Uma outra particularidade ambientalmente favorável da fileira da cortiça é que nada é perdido no processo. Sendo a fatia de leão reservada a rolhas e revestimentos, todos os resíduos resultantes do processo são reaproveitados, em granulados diversos. Até o pó é queimado para co-geração de energia, suficiente para suprir em quase 60% as necessidades das próprias fábricas.
 Um forte contributo tem sido dado à imagem da cortiça, sobretudo no estrangeiro, por campanhas mediáticas como “Real Cork, Real Wine”, a que José Mourinho deu a cara, ou “Save Miguel”, com o actor Rob Schneider, onde se frisava que a matéria-prima não exige o abate da árvore.


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Valor ecológico inato Segundo um estudo da PricewaterhouseCoopers, o ciclo de vida das rolhas de cortiça natural produz significativamente menos emissões de CO2 do que o das alternativas.

A Associação Portuguesa da Cortiça (AP-COR) é o cérebro destes movimentos, pois tem a promoção deste material como uma das atribuições. Os seus membros são agentes activos no sector, e como entidade corporativa que é, procura impulsionar a indústria para novos horizontes. Apesar de não estar imune à crise global, que levou à extinção de centenas de postos de trabalho, a importância económica desta área em Portugal é reforçada pelos números: emprega perto de 12 mil pessoas, representando 0,7% do PIB nacional e 2,3% das exportações.

O contributo da genética, permitirá num futuro próximo desvendar potencialidades ocultas deste tão nobre quanto improvável tesouro

O país contribui com 60% do volume total exportado mundialmente. E há novos mercados em franca expansão, como a Rússia e a China, com aumentos que chegam aos 5% nos últimos cinco anos. Joaquim Lima, director-geral da APCOR, afirma que esses mercados emergentes poderão ser muito importantes a médio prazo, permitindo uma diversificação da oferta e, logo, uma continuação da renovação do sector.
 Muita dessa mudança chegou pela mão de António Amorim. Alto, de voz poderosa, é o rosto da Corticeira Amorim, a maior empresa mundial do ramo que, ainda assim, mantém uma índole familiar. Sucedendo ao carismático Américo Amorim, seu tio, assumiu o cargo máximo com apenas 34 anos, em 2001, numa época pouco animadora, incutindo desde logo uma forte vontade de inovação e alteração de paradigmas. Considera que se está hoje na quarta fase da indústria corticeira – desenvolvimento e inovação – após a consolidação das exportações, do crescimento interno e da internacionalização.

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Revestimentos de cortiça prontos a ser reciclados, para fabrico de materiais compósitos. A fileira da cortiça praticamente não produz resíduos.

Ao de oito anos, em jeito de ponto de situação, comenta: “Houve três momentos marcantes para mim: a criação de unidades de preparação no Sul, com nova tecnologia, o desenvolvimento na área das rolhas e o estabelecimento do departamento de investigação de novas aplicações.”
Para um material utilizado desde a Antiguidade, a versatilidade camaleónica da cortiça não deixa de pasmar. Pela capacidade de se renovar e adaptar às novas exigências tecnológicas, continuará a ser o ouro português. Nos laboratórios high-tech do Biocant, esta opinião é partilhada pela equipa de especialistas. José Matos, o sempre bem disposto biólogo molecular, está de regresso a Lisboa após entregar, pessoalmente, o DNA do velho sobreiro que, da sua morada com vista para o Tejo, na Tapada da Ajuda, terá assistido ao nascer da República há quase um século. O investigador mostra-se convicto de que o contributo da genética, através da sequenciação do genoma do sobreiro, permitirá num futuro próximo desvendar potencialidades ocultas deste tão nobre quanto improvável tesouro.

Artigo originalmente publicado em Março de 2009 (Revista National Geographic-Portugal, nº 96)

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