O triunfo da mente: somos aquilo em que acreditamos

  Texto Erik Vance   Fotografia Erika Larsen

Na Universidade da Florida, Russell Price, paciente com doença de Parkinson, é submetido a uma intervenção cirúrgica destinada a implantar um microeléctrodo que fornecerá estímulos cerebrais profundos (ECB) às regiões do seu cérebro responsáveis pelo controlo do movimento. Os médicos desconhecem que quota do resultado positivo deve ser atribuída ao tratamento e ao efeito placebo. “A fronteira entre o tratamento e o placebo está cada vez mais esbatida”, afirma o neurologista Michael Okun. Fotografia obtida no Instituto McKnight do Cérebro, Universidade da Florida.

 O peregrino não sabia se conseguiria chegar à Capela da Graça. A caminhada já era um sofrimento, agravado pela perspectiva de suportar mais 110 quilómetros para contemplar uma imagem sagrada de madeira: a Virgem Negra de Altötting.

Richard Mödl fracturara recentemente o calcanhar, mas em 2003 decidira completar a sua primeira peregrinação desde Regensburg até Altötting, na Alemanha. Pensou que, caso a dor se tornasse demasiado forte, poderia sempre apanhar boleia, mas sentia uma fé profunda na capacidade de Nossa Senhora lhe aliviar o sofrimento. Por isso, caminhou. E continuou a caminhar. “Quando andamos a pé até Altötting, quase não sentimos dores”, explica.

Aos 74 anos, Richard, de sorriso caloroso e constituição esguia, parece capaz de sobreviver à carga de um rinoceronte. Desde que o pé sarou, já fez a peregrinação mais 12 vezes e é um devoto fervoroso do seu poder transformador. 

Em Merced, na Califórnia, um xamã hmong chamado Va Meng Lee executa uma cerimónia de cura na casa de um homem que adoeceu durante um funeral. A fim de impedir que a sua alma seja atraída para o Além juntamente com o falecido, a alma do porco sacrificado é oferecida em seu lugar. Reconhecendo o poder curativo da fé, o hospital Dignity Health’s, em Merced, permite a interacção dos xamãs com os doentes nas instalações hospitalares. 

 Richard não é o único com esta fé. Quer assuma a forma de uma intervenção do Espírito Santo durante um encontro de reavivamento da fé na Florida, quer de um mergulho nas águas do Ganges, o poder curativo da crença rodeia-nos por todos os lados. Alguns estudos científicos sugerem que a frequência regular de serviços religiosos pode proporcionar melhorias do sistema imunitário, diminuir a tensão arterial e acrescentar longevidade às nossas vidas. 

A fé religiosa dificilmente se pode considerar o único tipo de crença capaz de nos fazer sentir melhor. A dez mil quilómetros de distância de Altötting, outro homem viveu aquilo que aparentemente foi um milagre médico.

Em 2004, Mike Pauletich reparou pela primeira vez num problema. Perdeu a pontaria para lançar a bola de basebol e o braço doía-lhe. A mão tremia ligeiramente e, um dia, a mulher reparou que ele deixara por completo de sorrir. 

A fé religiosa dificilmente se pode considerar o único tipo de crença capaz de nos fazer sentir melhor.

Mike consultou um médico e descobriu que a falta de pontaria não era causada pelo braço, nem a razão pela qual não sorria se devia a dores nos membros. Aos 42 anos, Mike sofria manifestações precoces da doença de Parkinson. O médico disse-lhe que, dentro de uma década, não conseguiria caminhar nem alimentar-se sozinho. 

Mike não degenerou tanto como o médico previra, mas, ao longo dos anos, lutou contra a doença e a depressão, à medida que as capacidades de falar e escrever se tornavam cada vez mais difíceis. Em 2011, procurou a Ceregene, uma empresa que realizava ensaios com uma nova terapia genética. O tratamento experimental da Ceregene consistia em abrir dois orifícios, um em cada hemisfério do cérebro, através do crânio do doente, e injectar o fármaco directamente nas regiões-alvo. 

Maximillian Klement (à esquerda) e Benedikt Braun, de 18 e 21 anos, carregam uma imagem da Virgem Maria durante a peregrinação realizada na Alemanha ao santuário de Nossa Senhora de Altötting, onde se praticam rituais de cura desde os tempos medievais. 

 Mike registou melhorias impressionantes após a intervenção cirúrgica. Antes do ensaio, ele já fazia grandes esforços para se deslocar. Via-se constantemente obrigado a explicar aos clientes da sua empresa de desenvolvimento tecnológico que a maneira arrastada de falar não era causada pela bebida. Após a cirurgia, os tremores desapareceram, a mobilidade melhorou e a fala tornou--se significativamente mais clara. A sua médica durante o estudo, Kathleen Poston, ficou atónita. No sentido estrito, nunca antes fora possível reverter a doença de Parkinson em seres humanos: o melhor resultado fora o abrandamento da progressão da doença e mesmo esse resultado era extremamente raro.

Em Abril de 2013, a Ceregene anunciou os resultados do ensaio: a neurturina fora um fracasso. Os doentes tratados com esse fármaco não registaram melhorias significativamente superiores às do grupo de controlo, medicado com tratamento de placebo – uma intervenção cirúrgica simulada, no âmbito da qual um médico perfura pequenas concavidades (divots) no crânio do doente de maneira a este sentir que fora operado. Em 2013, a Ceregene foi adquirida por outra empresa e o trabalho com a proteína para o tratamento da doença de Parkinson não prosseguiu. 

Em Siena, na Basílica Cateriniana San Domenico, o altar de Santa Catarina, onde se encontra a sua cabeça mumificada, atrai peregrinos católicos em busca de cura. “Quem duvidar nada receberá”, afirma a guia local Chiara Biccellari.

 Kathleen Poston sentiu-se devastada. Então, ao analisar os dados do estudo, reparou em algo que a deixou estarrecida: Mike Pauletich não fora sujeito à intervenção cirúrgica real; recebera, ao invés, o tratamento placebo.


 

Ex-votos sob a forma de fotografias, enchem uma sala de orações nas traseiras do Santuário Madonna dell’Ambro, em Montefortino (Itália). Foram aqui deixados na esperança de cura ou em agradecimento. Alguns estudos sugerem que a frequência regular de serviços religiosos pode melhorar a saúde. 

 Num certo sentido, quer Mike Pauletich quer Richard Mödl participaram numa actuação, actuação essa em que os seres humanos se vêem envolvidos há milhares de anos, de cada vez que consultamos um curandeiro, na esperança de que ele (ou ela) nos façam sentir melhores. E, tal como uma boa actuação teatral nos pode envolver de forma a sentirmos que estamos a assistir a algo real, também o teatro da cura está concebido de maneira a envolver-nos, criando expectativas poderosas nos nossos cérebros. Estas expectativas conduzem ao chamado efeito placebo, que pode afectar o que acontece no nosso organismo. Há várias décadas que os cientistas conhecem o efeito placebo e têm-se servido dele como controlo nos ensaios clínicos. Agora consideram que o placebo é uma janela para compreender os mecanismos neuroquímicos que fazem a ligação entre a mente e o corpo, entre a fé e a experiência. 

Exames TEP revelam quantidades quase iguais de dopamina libertada no cérebro de um doente com Parkinson quando o fármaco L-dopa lhe foi administrado (à esquerda) e quando o mesmo doente foi medicado com um placebo, depois de ser informado que havia 75% de possibilidades de o comprimido conter L-dopa. As expectativas geradas por placebos podem contribuir para o tratamento de distúrbios do sistema nervoso. Fotografia Sarah Lidstone, Universidade da Colúmbia Britânica.

Como pode uma crença tornar-se tão potente a ponto de curar? Voltemos ao teatro: os cenários e os figurinos são um factor decisivo para uma actuação inspiradora. Mike Pauletich experimentou melhorias nos sintomas devido à totalidade da experiência: os médicos com as suas batas brancas, de estetoscópio ao pescoço; os enfermeiros, os exames gerais, as análises clínicas, talvez até a música de má qualidade ouvida na sala de espera do hospital. Por vezes, os médicos chamam teatro da medicina a esta envolvente da vida hospitalar.

Esta encenação alarga-se a muitos aspectos do tratamento e pode, até, actuar a nível do subconsciente. Os placebos caros dão melhor resultado do que os baratos. Os placebos em embalagens de marca resultam melhor do que os genéricos. Em França, têm mais êxito os placebos sob a forma de supositório, enquanto os ingleses preferem os placebos de administração oral. Acontece frequentemente que as injecções falsas resultem melhor do que comprimidos falsos. Mas as falsas intervenções cirúrgicas parecem ser as mais eficazes. 

No decurso de um ensaio na Universidade de Stanford, Mike Pauletich acreditou ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica para aliviar os sintomas da doença de Parkinson. Na realidade, fora submetido a uma cirurgia simulada, mas sentiu consequências positivas palpáveis.

 Mais surpreendente ainda: os placebos podem resultar mesmo quando o indivíduo que os toma sabe que são placebos. Este facto ficou documentado num estudo de 2010, agora clássico, publicado pelo investigador Ted Kaptchuk, da Faculdade de Medicina de Harvard. Depois de 21 dias a ingerirem placebo, doentes com síndrome do cólon irritável sentiram-se muito melhor em comparação com outros que nada tomaram, embora as pessoas que manifestaram melhorias tivessem sido previamente informadas (e mais tarde recordadas) de que estavam a tomar placebo. 

A experiência demonstrou que um bom relacionamento médico-doente era fundamental para criar a fé num resultado de sucesso.

Enquanto Russell Price permanece acordado, os médicos introduzem um microeléctrodo no seu crânio (visível na TAC, à direita) que fornecerá ECB às regiões do cérebro onde a doença de Parkinson gera certos sintomas debilitantes como tremores, rigidez, perda de equilíbrio e redução do movimento. Segundo a mulher de Price, a sua fala melhorou. Os tremores diminuíram e ele sente-se uma pessoa diferente. No topo: fotografado no Instituto McKnight do Cérebro. Em cima: fotografia Max Aguilera-Hellweg, a partir de imagem de TAC fornecida por Kelly Foote, Universidade da Florida


 

O povo achaninka do Peru utilizava vapor gerado por ervas fervidas nos seus rituais de tratamento. Esta cerimónia é celebrada por Mircyla Prado Pintallo: aos 11 anos, ela está a aprender a arte de vaporadora. Quando o doente inspira o vapor, Mircyla lê as folhas para saber se a cura teve sucesso e, possivelmente, prescrever outras ervas que ajudem o doente a recuperar a saúde. 

 Os doentes receberam formação acerca do poder dos placebos e da atitude positiva. Segundo foram informados, estava demonstrado, em ensaios clínicos rigorosos, que os comprimidos de placebo induziam processos significativos de auto-cura.

Karin Jensen, que gere o seu próprio laboratório no Instituto Karolinska de Estocolmo, projectou uma experiência destinada a determinar se seria possível recorrer a mensagens visuais subliminares para influenciar os participantes no estudo, de maneira a sentirem um efeito placebo. 

Durante a fase de condicionamento, os participantes visionaram num ecrã dois rostos em alternância. Karin utilizou rostos na sua experiência porque os nossos cérebros têm uma capacidade admirável para reconhecê-los rapidamente.

O padrão da roupa do curandeiro peruano Enrique Flores Agustín representa canções que ele entoa durante as cerimónias de cura. 

 Metade dos participantes recebeu mensagens subliminares: os rostos apareciam apenas durante uma fracção de segundo — tempo insuficiente para diferenciá-los de maneira consciente. Para os outros participantes, as mensagens faciais eram mostradas durante tempo suficiente para serem conscientemente reconhecidas. 

Durante esta primeira fase, os participantes recebiam estímulos variáveis de calor no braço, juntamente com as mensagens subliminares: mais calor a acompanhar o primeiro rosto, menos calor com o segundo. Na fase de ensaio que se seguiu, os participantes, incluindo aqueles que apenas tiveram um vislumbre rápido das mensagens subliminares, declararam sentir mais dor quando visionavam o primeiro rosto, embora os estímulos de calor se mantivessem moderados e idênticos para ambos os rostos. Por conseguinte, os participantes tinham criado uma ligação inconsciente entre maior intensidade de dor e o primeiro rosto. 

Investigadores de um ensaio realizado na Universidade de Stanford fazem experiências com estimulação magnética transcraniana para reduzir a dor. Antigo ou moderno, o teatro da cura funciona criando expectativas elevadas no cérebro. 

 A experiência demonstrou que uma reacção placebo pode ser condicionada subliminarmente. Karin afirma que pequenas mensagens recebidas quando entramos num hospital (muitas das quais inconscientemente assimiladas) desencadeiam no nosso corpo reacções de maneira semelhante. “Parte da cura não é consciente, é algo que acontece instintivamente”, declara. 


A especialista em placebo Luana Colloca descobriu outro gatilho deste efeito misterioso: a maneira como pensamos que as outras pessoas sentem a dor. Nesta experiência, os participantes foram condicionados de forma a sentirem um estímulo de calor como sendo mais forte quando associado a um rosto angustiado pela dor, mesmo quando o estímulo era moderado. A reacção do cérebro aos estímulos combinados foi depois medida.

Os hospitais são apenas um cenário frequente para o teatro da fé. Há centenas de tratamentos alternativos que mobilizam as nossas expectativas — homeopatia, acupunctura, medicinas tradicionais chinesas, urinoterapia, comprimidos de estrume de vaca, tratamentos faciais com sangue humano, infusões vitamínicas ou terapias de cura pelo som, para referir somente alguns — todos com níveis variáveis de eficácia comprovada. 

“A fé é natural. Em parte, deve-se à maneira como as nossas mentes se encontram estruturalmente formadas”, afirma a antropóloga Tanya Luhrmann, da Universidade de Stanford, que dedicou grande parte da sua vida profissional a perceber as interacções entre as pessoas e Deus.

Na sua opinião, a cura baseada na fé exige não só uma boa história, mas também o esforço de um ouvinte activo. “Os seres humanos conseguem mudar a sua experiência”, afirma. “São capacidades reais e podemos aprendê-las.” 

São curandeiros particularmente teatrais que combinam tradições xamânicas com o catolicismo romano, à semelhança do que os cristãos faziam há mil anos. 

Já ouvira falar da cura baseada na fé dos brujos, ou feiticeiros, de Catemaco, no estado de Veracruz na costa oriental do México. São curandeiros particularmente teatrais que combinam tradições xamânicas com o catolicismo romano, à semelhança do que os cristãos faziam há mil anos. 

Quando cheguei a Catemaco e me dirigi ao consultório de um brujo moderno, não encontrei fogueiras, nem xamãs com convulsões. Bem longe da caverna escura e infestada de morcegos por mim imaginada, a sala de espera apresentava-se, afinal, como uma asseada sala com cheiro a desinfectante. Amuletos de plástico e peças de cristal enchiam as prateleiras. Cerca de dez pessoas estavam sentadas em cadeiras, lendo revistas ou assistindo ao futebol na televisão. O brujo que me atendeu parecia-se mais com um médico do que com um feiticeiro. Vestido de branco, tinha um bigode bem tratado e cabelo curto carregado de gel. Metade do consultório era ocupada por um altar carregado de crucifixos, estatuetas de santos, flores e centenas de luzes coloridas a cintilar. 

Jones Benally, curandeiro da Reserva Navajo do Arizona há mais de 75 anos, trata o corpo e a mente do seu doente de maneira a aliviar a dor e o stress. Ele trabalha num hogan e também em hospitais e centros para idosos. A filha e os filhos estão a aprender as suas técnicas para manterem a tradição. 

 Viera ali para uma simples limpia, uma limpeza do espírito. O brujo pegou num ovo, num punhado de raminhos de manjericão e duas garrafinhas de plástico, cheias com aquilo que me explicou serem bloqueadores da inveja, protecção contra más energias e um líquido indutor de riqueza. Tudo estava arrumado e em boas condições de higiene. Após uma curta entrevista, ele passou a ocupar-se do meu espírito, esguichando-me profusamente com óleos de odor pungente e esfregando-me um ovo no corpo antes de o partir para um copo de água e examinar o conteúdo. 

Este procedimento era-me familiar: é normal entre os brujos do México. Aquilo que me surpreendeu, sim, foi a falta de pompa ou de lengalengas. Foi mais clínico do que cerimonial. O brujo fez-me perguntas sobre os joelhos e sobre a região lombar (ambos em bom estado) e informou-me que o ovo indicava possíveis dores no futuro. Tal como um radiologista que explica os resultados de uma radiografia, ele apontou para várias bolhinhas na clara do ovo que vertera para o copo: indício de que alguém que me era próximo tinha inveja de mim e me desejava mal. Quando saí, parti com uma sensação de anticlímax, como se não tivesse percebido algo. Onde estava o teatro? De regresso à rua, comecei a compreender. As expectativas são um alvo em movimento. 

Antes, cuspir e abanar penas de galinha inspirava confiança, mas hoje a maior parte dos brujos adaptou-se à realidade actual.

Na última geração, a medicina convencional passou a ser a norma em Catemaco. Antes, cuspir e abanar penas de galinha inspirava confiança, mas hoje a maior parte dos brujos adaptou-se à realidade actual, combinando batas de laboratório brancas e pulverizadores anti-sépticos com o seu misticismo. Vão assim ao encontro das expectativas dos doentes modernos: é o teatro da medicina. E, devo confessá-lo, senti-me mesmo um pouco melhor. 

Então como será que funciona realmente o teatro da medicina? Como será que a fé cura? Uma parte do quebra-cabeças tem que ver com condicionamento, argumenta Karin Jensen. Basta lembrar o cão de Pavlov, que salivava a cada toque de campainha. Isso acontecia por Pavlov ter gerado no animal o reflexo condicionado que ligava o alimento ao som. 

A resposta condicionada de efeito placebo, em reacção à dor, consiste em libertar substâncias cerebrais (endorfinas, ou anestésicos semelhantes a ópio) sintetizados no nosso organismo. Na década de 1970, dois neurologistas de São Francisco, interessados em compreender como esses opiáceos internos controlam a dor, fizeram uma descoberta.

Jason Treat; Kelsey Nowakowski. Arte: Studio Muti. Fontes: Irene Tracey, Universidade de Oxford; Fabrizio Benedetti, Universidade de Turim.


 Em primeiro lugar, os investigadores compararam a reacção de um grupo placebo com a reacção de outro grupo medicado com naloxona, uma substância que anula o efeito de melhoria dos opiáceos. Nenhum dos participantes foi tratado, nem previa ser tratado, com um analgésico — e todos eles se sentiram pessimamente. Então os cientistas reconfiguraram a experiência, dizendo aos doentes que a alguns deles seria administrada morfina, a outros placebo e a outros naloxona. Ninguém, nem mesmo os investigadores, sabia quem iria receber o quê. Desta vez, alguns doentes sentiram-se melhor, apesar de não terem recebido morfina. A sua expectativa desencadeou a libertação de endorfinas no seu corpo e essas endorfinas atenuaram a dor. No entanto, assim que lhes foi administrada naloxona, sentiram imediatamente dores. A droga eliminou a acção das endorfinas libertadas devido à reacção ao placebo. “Sem a expectativa do alívio da dor, o efeito placebo não pode manifestar-se”, afirma Howard Fields, professor jubilado da Universidade de Califórnia e um dos autores do estudo. 

A partir dessa experiência, o condicionamento foi utilizado para estudar os efeitos da fé na libertação de outras substâncias pelo organismo. 

A partir dessa experiência, o condicionamento foi utilizado para estudar os efeitos da fé na libertação de outras substâncias pelo organismo. Só no início da primeira década do século XXI os cientistas perceberam a maneira como estes efeitos se repercutem no cérebro. Tor Wager, então doutorando na Universidade de Michigan, examinou os participantes do estudo com equipamento de varrimento cerebral.
Aplicou pomada nos dois pulsos de cada participante e, de seguida, colocou-lhes eléctrodos capazes de transmitir choques dolorosos ou calor. Informou os participantes que uma das pomadas podia aliviar as dores, quando, de facto, as duas pomadas eram iguais e nenhuma delas possuía propriedades analgésicas intrínsecas. Após várias séries de condicionamento, os participantes aprenderam a sentir menos dores no pulso revestido com a pomada “analgésica”; aquando da última série, os choques fortes não doíam mais do que uma ligeira picada. Foi a reacção típica de condicionamento por placebo. 

A parte mais interessante foi o resultado revelado pelo exame de varrimento cerebral. As sensações normais de dor começam com uma lesão e deslocam-se pela medula espinal numa fracção de segundo até chegarem a uma rede de áreas cerebrais que reconhecem a sensação como dor. A reacção de placebo viaja na direcção oposta, começando no cérebro. Uma expectativa de cura surgida na região pré-frontal do córtex transmite sinais a outra secção do cérebro, que gera opiáceos, libertando-os e levando-os a descer pela medula espinal. Nós não imaginamos que não sentimos dor. Literalmente, automedicamo-nos ao esperar o alívio que fomos condicionados para receber. 

“A crença certa e a experiência certa colaboram uma com a outra”, afirma Tor Wager, agora professor catedrático da Universidade do Colorado e director de um laboratório de neurociências ali sediado. “E a receita é essa.”

As sensações normais de dor começam com uma lesão e deslocam-se pela medula espinal numa fracção de segundo até chegarem a uma rede de áreas cerebrais que reconhecem a sensação como dor.

A receita da fé e experiência combinadas está a encontrar o seu caminho fora do âmbito laboratorial e a introduzir-se também na prática clínica. Christopher Spevak é um médico especializado em dor e adicção no Centro Médico Nacional das Forças Armadas Walter Reed, com sede em Bethesda. Todos os dias recebe militares no activo e na reserva com lesões diversas, por vezes poucos dias ou semanas depois de deixarem o campo de batalha. Isto dá-lhe a oportunidade para recorrer à expectativa e ao condicionamento como formas de aproveitar os opiáceos internos a fim de eliminar, ou pelo menos mitigar, as dores a longo prazo. 

Na primeira consulta com o doente, Christopher Spevak nunca lhes faz perguntas sobre as lesões ou sobre o historial médico: já tem toda essa informação em ficheiro. Em vez disso, faz-
-lhes perguntas sobre eles próprios. Poderá assim descobrir que, na infância, esse indivíduo tinha um eucalipto favorito à porta de casa ou gostava de rebuçados de hortelã-pimenta. Por fim, se acabar por receitar-lhes analgésicos opiáceos, em cada toma o doente receberá também óleo de eucalipto para cheirar ou um rebuçado de hortelã-pimenta para chupar, ou seja, o estímulo que o médico considerar potencialmente producente. Com o tempo, tal como acontece com os rostos de visionamento instantâneo de Karin Jensen ou a pomada aplicada na pele por Tor Wager, os pacientes começam a associar a experiência sensorial às drogas. Pouco tempo mais tarde, Christopher Spevak deixa de administrar a droga e dá--lhes apenas os sons e os cheiros. Então o cérebro do doente consegue procurar as drogas necessárias na sua farmácia interna. 

“Temos doentes com amputação de três e de quatro membros que não estão medicados com opiáceos”, diz o especialista, referindo-se aos seus pacientes vindos do Iraque e do Afeganistão. “Há veteranos da guerra do Vietname medicados com doses elevadas de morfina para as lombalgias nos últimos 30 anos.”

Há dois anos,  Leonie Koban, colaboradora do laboratório de Tor Wager, dirigiu um estudo inovador com placebo. Os cientistas estavam bem conscientes dos papéis desempenhados pelo condicionamento e pelo teatro na gestão das expectativas. Queriam pôr à prova o efeito de um terceiro elemento que influencia as experiências com dor: outros crentes. 

À semelhança de vários ensaios anteriores sobre o efeito placebo, os investigadores induziram uma sensação de ardor nos braços dos participantes e pediram-lhes que classificassem o grau de intensidade. Só que, desta vez, introduziram uma variável suplementar. Os voluntários olhavam para um ecrã e viam nele uma série de traços de contagem que representavam a forma como os anteriores participantes tinham classificado a sua dor. Para o mesmo estímulo, os participantes declaravam sentir níveis de dor mais ou menos elevados baseando-se na informação fornecida sobre os níveis experimentados pelos anteriores participantes. 

Os voluntários olhavam para um ecrã e viam nele uma série de traços de contagem que representavam a forma como os anteriores participantes tinham classificado a sua dor.

O resultado não constituiu surpresa. Na década de 1950, uma série de testes denominados Ensaios Asch demonstrou que os participantes dão frequentemente respostas que sabem estar erradas só para assegurarem a pertença ao grupo. O que chocou Leonie e Tor foi o tremendo poder da influência social: o efeito era superior ao previsto após o condicionamento. Estudos realizados com equipamento de Imagiologia de Ressonância Magnética funcional (IRMf) incidiram sobre uma rede separada e complementar de actividade cerebral que é activada quando os placebos convencionais são empolados pela pressão de grupo. Leonie Koban vai ao ponto de afirmar que a informação social pode alterar mais vigorosamente a experiência de dor do que o condicionamento e as mensagens subliminares.

“A informação que obtemos das nossas relações sociais exerce influência profunda, [não só] sobre as experiências emocionais, mas também sobre resultados associados à saúde como a dor e a cura”, afirma. “E só agora começamos a compreender essas influências e a maneira de as mobilizar.”

A forte influência do grupo social pode ajudar a explicar a razão pela qual a religião, num sentido muito literal do termo, poderá bem ser aquilo que Karl Marx definiu como “o ópio do povo”: ela consegue estimular a nossa capacidade para acedermos ao nosso próprio armazém de crenças e expectativas, em especial quando estamos rodeados por outros crentes que fazem precisamente o mesmo. 

Jason Treat; Kelsey Nowakowski. Arte: Studio Muti. Fontes: Irene Tracey, Universidade de Oxford; Fabrizio Benedetti, Universidade de Turim.

 Em nenhum outro lugar, a força da fé colectiva é tão evidente como nas peregrinações religiosas – quer se trate da caminhada anual dos católicos até Lourdes, em França, quer seja a peregrinação anual da hajj feita pelos muçulmanos até Meca, na Arábia Saudita, quer a Maha Kumbh Mela, realizada de 12 em 12 anos. A última Kumbh Mela, em Fevereiro de 2013, atraiu cerca de setenta milhões de hindus à cidade indiana de Allahabad. 

Foi numa fria manhã de Maio de 2016 que me juntei ao peregrino Richard Mödl na estrada para Altötting. A primeira cura ali ocorrida de que há registo aconteceu em 1489, quando, segundo a tradição, um rapaz afogado foi milagrosamente devolvido à vida. Actualmente, a Virgem Negra de Altötting atrai cerca de um milhão de visitantes por ano. 

O grupo a que me juntei já caminhava desde as 3 horas da manhã. Depois de uma pausa para o pequeno-almoço, o grupo conversava alegremente, aguardando indicação para recomeçar a caminhada, à chuva. Sentira-me nervoso com este passeio, devido à intervenção cirúrgica ao tornozelo a que fora submetido três meses antes. No entanto, no meio daquela alegre companhia de fiéis, a minha dor desvaneceu-se.

No entanto, no meio daquela alegre companhia de fiéis, a minha dor desvaneceu-se.

“Cada um de nós tem as suas razões particulares para estar aqui, mas também estamos aqui uns para os outros”, afirmou Marcus Brunner, um padre bem-disposto, veterano que participa há 27 anos nesta caminhada. “O grupo carrega-nos e nós carregamos o grupo em conjunto.”

Ao chegarmos à Capela de Nossa Senhora da Graça, encontrámo-la forrada por dentro e por fora de ex-votos, representações dos milagres realizados ao longo dos séculos, descrevendo todas as maleitas possíveis. Encostadas às paredes viam-se muletas e bengalas ali deixadas ao longo das eras por crentes e peregrinos cujo sofrimento fora aliviado pela Virgem Negra. A expectativa da cura mantém-se inabalável. 

“Aqui existe uma maneira diferente de pensar”, afirmou o psicoterapeuta e diácono Thomas Zauner, que se mudou para Altötting a fim de procurar uma comunidade solidária onde pudesse criar o seu filho com deficiências de desenvolvimento.
“A oração parece mesmo resultar.” 

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