O triunfo da mente: somos aquilo em que acreditamos

 Em primeiro lugar, os investigadores compararam a reacção de um grupo placebo com a reacção de outro grupo medicado com naloxona, uma substância que anula o efeito de melhoria dos opiáceos. Nenhum dos participantes foi tratado, nem previa ser tratado, com um analgésico — e todos eles se sentiram pessimamente. Então os cientistas reconfiguraram a experiência, dizendo aos doentes que a alguns deles seria administrada morfina, a outros placebo e a outros naloxona. Ninguém, nem mesmo os investigadores, sabia quem iria receber o quê. Desta vez, alguns doentes sentiram-se melhor, apesar de não terem recebido morfina. A sua expectativa desencadeou a libertação de endorfinas no seu corpo e essas endorfinas atenuaram a dor. No entanto, assim que lhes foi administrada naloxona, sentiram imediatamente dores. A droga eliminou a acção das endorfinas libertadas devido à reacção ao placebo. “Sem a expectativa do alívio da dor, o efeito placebo não pode manifestar-se”, afirma Howard Fields, professor jubilado da Universidade de Califórnia e um dos autores do estudo. 

A partir dessa experiência, o condicionamento foi utilizado para estudar os efeitos da fé na libertação de outras substâncias pelo organismo. 

A partir dessa experiência, o condicionamento foi utilizado para estudar os efeitos da fé na libertação de outras substâncias pelo organismo. Só no início da primeira década do século XXI os cientistas perceberam a maneira como estes efeitos se repercutem no cérebro. Tor Wager, então doutorando na Universidade de Michigan, examinou os participantes do estudo com equipamento de varrimento cerebral.
Aplicou pomada nos dois pulsos de cada participante e, de seguida, colocou-lhes eléctrodos capazes de transmitir choques dolorosos ou calor. Informou os participantes que uma das pomadas podia aliviar as dores, quando, de facto, as duas pomadas eram iguais e nenhuma delas possuía propriedades analgésicas intrínsecas. Após várias séries de condicionamento, os participantes aprenderam a sentir menos dores no pulso revestido com a pomada “analgésica”; aquando da última série, os choques fortes não doíam mais do que uma ligeira picada. Foi a reacção típica de condicionamento por placebo. 

A parte mais interessante foi o resultado revelado pelo exame de varrimento cerebral. As sensações normais de dor começam com uma lesão e deslocam-se pela medula espinal numa fracção de segundo até chegarem a uma rede de áreas cerebrais que reconhecem a sensação como dor. A reacção de placebo viaja na direcção oposta, começando no cérebro. Uma expectativa de cura surgida na região pré-frontal do córtex transmite sinais a outra secção do cérebro, que gera opiáceos, libertando-os e levando-os a descer pela medula espinal. Nós não imaginamos que não sentimos dor. Literalmente, automedicamo-nos ao esperar o alívio que fomos condicionados para receber. 

“A crença certa e a experiência certa colaboram uma com a outra”, afirma Tor Wager, agora professor catedrático da Universidade do Colorado e director de um laboratório de neurociências ali sediado. “E a receita é essa.”

As sensações normais de dor começam com uma lesão e deslocam-se pela medula espinal numa fracção de segundo até chegarem a uma rede de áreas cerebrais que reconhecem a sensação como dor.

A receita da fé e experiência combinadas está a encontrar o seu caminho fora do âmbito laboratorial e a introduzir-se também na prática clínica. Christopher Spevak é um médico especializado em dor e adicção no Centro Médico Nacional das Forças Armadas Walter Reed, com sede em Bethesda. Todos os dias recebe militares no activo e na reserva com lesões diversas, por vezes poucos dias ou semanas depois de deixarem o campo de batalha. Isto dá-lhe a oportunidade para recorrer à expectativa e ao condicionamento como formas de aproveitar os opiáceos internos a fim de eliminar, ou pelo menos mitigar, as dores a longo prazo. 

Na primeira consulta com o doente, Christopher Spevak nunca lhes faz perguntas sobre as lesões ou sobre o historial médico: já tem toda essa informação em ficheiro. Em vez disso, faz-
-lhes perguntas sobre eles próprios. Poderá assim descobrir que, na infância, esse indivíduo tinha um eucalipto favorito à porta de casa ou gostava de rebuçados de hortelã-pimenta. Por fim, se acabar por receitar-lhes analgésicos opiáceos, em cada toma o doente receberá também óleo de eucalipto para cheirar ou um rebuçado de hortelã-pimenta para chupar, ou seja, o estímulo que o médico considerar potencialmente producente. Com o tempo, tal como acontece com os rostos de visionamento instantâneo de Karin Jensen ou a pomada aplicada na pele por Tor Wager, os pacientes começam a associar a experiência sensorial às drogas. Pouco tempo mais tarde, Christopher Spevak deixa de administrar a droga e dá--lhes apenas os sons e os cheiros. Então o cérebro do doente consegue procurar as drogas necessárias na sua farmácia interna. 

“Temos doentes com amputação de três e de quatro membros que não estão medicados com opiáceos”, diz o especialista, referindo-se aos seus pacientes vindos do Iraque e do Afeganistão. “Há veteranos da guerra do Vietname medicados com doses elevadas de morfina para as lombalgias nos últimos 30 anos.”

Há dois anos,  Leonie Koban, colaboradora do laboratório de Tor Wager, dirigiu um estudo inovador com placebo. Os cientistas estavam bem conscientes dos papéis desempenhados pelo condicionamento e pelo teatro na gestão das expectativas. Queriam pôr à prova o efeito de um terceiro elemento que influencia as experiências com dor: outros crentes. 

À semelhança de vários ensaios anteriores sobre o efeito placebo, os investigadores induziram uma sensação de ardor nos braços dos participantes e pediram-lhes que classificassem o grau de intensidade. Só que, desta vez, introduziram uma variável suplementar. Os voluntários olhavam para um ecrã e viam nele uma série de traços de contagem que representavam a forma como os anteriores participantes tinham classificado a sua dor. Para o mesmo estímulo, os participantes declaravam sentir níveis de dor mais ou menos elevados baseando-se na informação fornecida sobre os níveis experimentados pelos anteriores participantes. 

Os voluntários olhavam para um ecrã e viam nele uma série de traços de contagem que representavam a forma como os anteriores participantes tinham classificado a sua dor.

O resultado não constituiu surpresa. Na década de 1950, uma série de testes denominados Ensaios Asch demonstrou que os participantes dão frequentemente respostas que sabem estar erradas só para assegurarem a pertença ao grupo. O que chocou Leonie e Tor foi o tremendo poder da influência social: o efeito era superior ao previsto após o condicionamento. Estudos realizados com equipamento de Imagiologia de Ressonância Magnética funcional (IRMf) incidiram sobre uma rede separada e complementar de actividade cerebral que é activada quando os placebos convencionais são empolados pela pressão de grupo. Leonie Koban vai ao ponto de afirmar que a informação social pode alterar mais vigorosamente a experiência de dor do que o condicionamento e as mensagens subliminares.

“A informação que obtemos das nossas relações sociais exerce influência profunda, [não só] sobre as experiências emocionais, mas também sobre resultados associados à saúde como a dor e a cura”, afirma. “E só agora começamos a compreender essas influências e a maneira de as mobilizar.”

A forte influência do grupo social pode ajudar a explicar a razão pela qual a religião, num sentido muito literal do termo, poderá bem ser aquilo que Karl Marx definiu como “o ópio do povo”: ela consegue estimular a nossa capacidade para acedermos ao nosso próprio armazém de crenças e expectativas, em especial quando estamos rodeados por outros crentes que fazem precisamente o mesmo. 

Jason Treat; Kelsey Nowakowski. Arte: Studio Muti. Fontes: Irene Tracey, Universidade de Oxford; Fabrizio Benedetti, Universidade de Turim.

 Em nenhum outro lugar, a força da fé colectiva é tão evidente como nas peregrinações religiosas – quer se trate da caminhada anual dos católicos até Lourdes, em França, quer seja a peregrinação anual da hajj feita pelos muçulmanos até Meca, na Arábia Saudita, quer a Maha Kumbh Mela, realizada de 12 em 12 anos. A última Kumbh Mela, em Fevereiro de 2013, atraiu cerca de setenta milhões de hindus à cidade indiana de Allahabad. 

Foi numa fria manhã de Maio de 2016 que me juntei ao peregrino Richard Mödl na estrada para Altötting. A primeira cura ali ocorrida de que há registo aconteceu em 1489, quando, segundo a tradição, um rapaz afogado foi milagrosamente devolvido à vida. Actualmente, a Virgem Negra de Altötting atrai cerca de um milhão de visitantes por ano. 

O grupo a que me juntei já caminhava desde as 3 horas da manhã. Depois de uma pausa para o pequeno-almoço, o grupo conversava alegremente, aguardando indicação para recomeçar a caminhada, à chuva. Sentira-me nervoso com este passeio, devido à intervenção cirúrgica ao tornozelo a que fora submetido três meses antes. No entanto, no meio daquela alegre companhia de fiéis, a minha dor desvaneceu-se.

No entanto, no meio daquela alegre companhia de fiéis, a minha dor desvaneceu-se.

“Cada um de nós tem as suas razões particulares para estar aqui, mas também estamos aqui uns para os outros”, afirmou Marcus Brunner, um padre bem-disposto, veterano que participa há 27 anos nesta caminhada. “O grupo carrega-nos e nós carregamos o grupo em conjunto.”

Ao chegarmos à Capela de Nossa Senhora da Graça, encontrámo-la forrada por dentro e por fora de ex-votos, representações dos milagres realizados ao longo dos séculos, descrevendo todas as maleitas possíveis. Encostadas às paredes viam-se muletas e bengalas ali deixadas ao longo das eras por crentes e peregrinos cujo sofrimento fora aliviado pela Virgem Negra. A expectativa da cura mantém-se inabalável. 

“Aqui existe uma maneira diferente de pensar”, afirmou o psicoterapeuta e diácono Thomas Zauner, que se mudou para Altötting a fim de procurar uma comunidade solidária onde pudesse criar o seu filho com deficiências de desenvolvimento.
“A oração parece mesmo resultar.” 

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