O triunfo da mente: somos aquilo em que acreditamos

A especialista em placebo Luana Colloca descobriu outro gatilho deste efeito misterioso: a maneira como pensamos que as outras pessoas sentem a dor. Nesta experiência, os participantes foram condicionados de forma a sentirem um estímulo de calor como sendo mais forte quando associado a um rosto angustiado pela dor, mesmo quando o estímulo era moderado. A reacção do cérebro aos estímulos combinados foi depois medida.

Os hospitais são apenas um cenário frequente para o teatro da fé. Há centenas de tratamentos alternativos que mobilizam as nossas expectativas — homeopatia, acupunctura, medicinas tradicionais chinesas, urinoterapia, comprimidos de estrume de vaca, tratamentos faciais com sangue humano, infusões vitamínicas ou terapias de cura pelo som, para referir somente alguns — todos com níveis variáveis de eficácia comprovada. 

“A fé é natural. Em parte, deve-se à maneira como as nossas mentes se encontram estruturalmente formadas”, afirma a antropóloga Tanya Luhrmann, da Universidade de Stanford, que dedicou grande parte da sua vida profissional a perceber as interacções entre as pessoas e Deus.

Na sua opinião, a cura baseada na fé exige não só uma boa história, mas também o esforço de um ouvinte activo. “Os seres humanos conseguem mudar a sua experiência”, afirma. “São capacidades reais e podemos aprendê-las.” 

São curandeiros particularmente teatrais que combinam tradições xamânicas com o catolicismo romano, à semelhança do que os cristãos faziam há mil anos. 

Já ouvira falar da cura baseada na fé dos brujos, ou feiticeiros, de Catemaco, no estado de Veracruz na costa oriental do México. São curandeiros particularmente teatrais que combinam tradições xamânicas com o catolicismo romano, à semelhança do que os cristãos faziam há mil anos. 

Quando cheguei a Catemaco e me dirigi ao consultório de um brujo moderno, não encontrei fogueiras, nem xamãs com convulsões. Bem longe da caverna escura e infestada de morcegos por mim imaginada, a sala de espera apresentava-se, afinal, como uma asseada sala com cheiro a desinfectante. Amuletos de plástico e peças de cristal enchiam as prateleiras. Cerca de dez pessoas estavam sentadas em cadeiras, lendo revistas ou assistindo ao futebol na televisão. O brujo que me atendeu parecia-se mais com um médico do que com um feiticeiro. Vestido de branco, tinha um bigode bem tratado e cabelo curto carregado de gel. Metade do consultório era ocupada por um altar carregado de crucifixos, estatuetas de santos, flores e centenas de luzes coloridas a cintilar. 

Jones Benally, curandeiro da Reserva Navajo do Arizona há mais de 75 anos, trata o corpo e a mente do seu doente de maneira a aliviar a dor e o stress. Ele trabalha num hogan e também em hospitais e centros para idosos. A filha e os filhos estão a aprender as suas técnicas para manterem a tradição. 

 Viera ali para uma simples limpia, uma limpeza do espírito. O brujo pegou num ovo, num punhado de raminhos de manjericão e duas garrafinhas de plástico, cheias com aquilo que me explicou serem bloqueadores da inveja, protecção contra más energias e um líquido indutor de riqueza. Tudo estava arrumado e em boas condições de higiene. Após uma curta entrevista, ele passou a ocupar-se do meu espírito, esguichando-me profusamente com óleos de odor pungente e esfregando-me um ovo no corpo antes de o partir para um copo de água e examinar o conteúdo. 

Este procedimento era-me familiar: é normal entre os brujos do México. Aquilo que me surpreendeu, sim, foi a falta de pompa ou de lengalengas. Foi mais clínico do que cerimonial. O brujo fez-me perguntas sobre os joelhos e sobre a região lombar (ambos em bom estado) e informou-me que o ovo indicava possíveis dores no futuro. Tal como um radiologista que explica os resultados de uma radiografia, ele apontou para várias bolhinhas na clara do ovo que vertera para o copo: indício de que alguém que me era próximo tinha inveja de mim e me desejava mal. Quando saí, parti com uma sensação de anticlímax, como se não tivesse percebido algo. Onde estava o teatro? De regresso à rua, comecei a compreender. As expectativas são um alvo em movimento. 

Antes, cuspir e abanar penas de galinha inspirava confiança, mas hoje a maior parte dos brujos adaptou-se à realidade actual.

Na última geração, a medicina convencional passou a ser a norma em Catemaco. Antes, cuspir e abanar penas de galinha inspirava confiança, mas hoje a maior parte dos brujos adaptou-se à realidade actual, combinando batas de laboratório brancas e pulverizadores anti-sépticos com o seu misticismo. Vão assim ao encontro das expectativas dos doentes modernos: é o teatro da medicina. E, devo confessá-lo, senti-me mesmo um pouco melhor. 

Então como será que funciona realmente o teatro da medicina? Como será que a fé cura? Uma parte do quebra-cabeças tem que ver com condicionamento, argumenta Karin Jensen. Basta lembrar o cão de Pavlov, que salivava a cada toque de campainha. Isso acontecia por Pavlov ter gerado no animal o reflexo condicionado que ligava o alimento ao som. 

A resposta condicionada de efeito placebo, em reacção à dor, consiste em libertar substâncias cerebrais (endorfinas, ou anestésicos semelhantes a ópio) sintetizados no nosso organismo. Na década de 1970, dois neurologistas de São Francisco, interessados em compreender como esses opiáceos internos controlam a dor, fizeram uma descoberta.

Jason Treat; Kelsey Nowakowski. Arte: Studio Muti. Fontes: Irene Tracey, Universidade de Oxford; Fabrizio Benedetti, Universidade de Turim.

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