O triunfo da mente: somos aquilo em que acreditamos

  Texto Erik Vance   Fotografia Erika Larsen

Na Universidade da Florida, Russell Price, paciente com doença de Parkinson, é submetido a uma intervenção cirúrgica destinada a implantar um microeléctrodo que fornecerá estímulos cerebrais profundos (ECB) às regiões do seu cérebro responsáveis pelo controlo do movimento. Os médicos desconhecem que quota do resultado positivo deve ser atribuída ao tratamento e ao efeito placebo. “A fronteira entre o tratamento e o placebo está cada vez mais esbatida”, afirma o neurologista Michael Okun. Fotografia obtida no Instituto McKnight do Cérebro, Universidade da Florida.

 O peregrino não sabia se conseguiria chegar à Capela da Graça. A caminhada já era um sofrimento, agravado pela perspectiva de suportar mais 110 quilómetros para contemplar uma imagem sagrada de madeira: a Virgem Negra de Altötting.

Richard Mödl fracturara recentemente o calcanhar, mas em 2003 decidira completar a sua primeira peregrinação desde Regensburg até Altötting, na Alemanha. Pensou que, caso a dor se tornasse demasiado forte, poderia sempre apanhar boleia, mas sentia uma fé profunda na capacidade de Nossa Senhora lhe aliviar o sofrimento. Por isso, caminhou. E continuou a caminhar. “Quando andamos a pé até Altötting, quase não sentimos dores”, explica.

Aos 74 anos, Richard, de sorriso caloroso e constituição esguia, parece capaz de sobreviver à carga de um rinoceronte. Desde que o pé sarou, já fez a peregrinação mais 12 vezes e é um devoto fervoroso do seu poder transformador. 

Em Merced, na Califórnia, um xamã hmong chamado Va Meng Lee executa uma cerimónia de cura na casa de um homem que adoeceu durante um funeral. A fim de impedir que a sua alma seja atraída para o Além juntamente com o falecido, a alma do porco sacrificado é oferecida em seu lugar. Reconhecendo o poder curativo da fé, o hospital Dignity Health’s, em Merced, permite a interacção dos xamãs com os doentes nas instalações hospitalares. 

 Richard não é o único com esta fé. Quer assuma a forma de uma intervenção do Espírito Santo durante um encontro de reavivamento da fé na Florida, quer de um mergulho nas águas do Ganges, o poder curativo da crença rodeia-nos por todos os lados. Alguns estudos científicos sugerem que a frequência regular de serviços religiosos pode proporcionar melhorias do sistema imunitário, diminuir a tensão arterial e acrescentar longevidade às nossas vidas. 

A fé religiosa dificilmente se pode considerar o único tipo de crença capaz de nos fazer sentir melhor. A dez mil quilómetros de distância de Altötting, outro homem viveu aquilo que aparentemente foi um milagre médico.

Em 2004, Mike Pauletich reparou pela primeira vez num problema. Perdeu a pontaria para lançar a bola de basebol e o braço doía-lhe. A mão tremia ligeiramente e, um dia, a mulher reparou que ele deixara por completo de sorrir. 

A fé religiosa dificilmente se pode considerar o único tipo de crença capaz de nos fazer sentir melhor.

Mike consultou um médico e descobriu que a falta de pontaria não era causada pelo braço, nem a razão pela qual não sorria se devia a dores nos membros. Aos 42 anos, Mike sofria manifestações precoces da doença de Parkinson. O médico disse-lhe que, dentro de uma década, não conseguiria caminhar nem alimentar-se sozinho. 

Mike não degenerou tanto como o médico previra, mas, ao longo dos anos, lutou contra a doença e a depressão, à medida que as capacidades de falar e escrever se tornavam cada vez mais difíceis. Em 2011, procurou a Ceregene, uma empresa que realizava ensaios com uma nova terapia genética. O tratamento experimental da Ceregene consistia em abrir dois orifícios, um em cada hemisfério do cérebro, através do crânio do doente, e injectar o fármaco directamente nas regiões-alvo. 

Maximillian Klement (à esquerda) e Benedikt Braun, de 18 e 21 anos, carregam uma imagem da Virgem Maria durante a peregrinação realizada na Alemanha ao santuário de Nossa Senhora de Altötting, onde se praticam rituais de cura desde os tempos medievais. 

 Mike registou melhorias impressionantes após a intervenção cirúrgica. Antes do ensaio, ele já fazia grandes esforços para se deslocar. Via-se constantemente obrigado a explicar aos clientes da sua empresa de desenvolvimento tecnológico que a maneira arrastada de falar não era causada pela bebida. Após a cirurgia, os tremores desapareceram, a mobilidade melhorou e a fala tornou--se significativamente mais clara. A sua médica durante o estudo, Kathleen Poston, ficou atónita. No sentido estrito, nunca antes fora possível reverter a doença de Parkinson em seres humanos: o melhor resultado fora o abrandamento da progressão da doença e mesmo esse resultado era extremamente raro.

Em Abril de 2013, a Ceregene anunciou os resultados do ensaio: a neurturina fora um fracasso. Os doentes tratados com esse fármaco não registaram melhorias significativamente superiores às do grupo de controlo, medicado com tratamento de placebo – uma intervenção cirúrgica simulada, no âmbito da qual um médico perfura pequenas concavidades (divots) no crânio do doente de maneira a este sentir que fora operado. Em 2013, a Ceregene foi adquirida por outra empresa e o trabalho com a proteína para o tratamento da doença de Parkinson não prosseguiu. 

Em Siena, na Basílica Cateriniana San Domenico, o altar de Santa Catarina, onde se encontra a sua cabeça mumificada, atrai peregrinos católicos em busca de cura. “Quem duvidar nada receberá”, afirma a guia local Chiara Biccellari.

 Kathleen Poston sentiu-se devastada. Então, ao analisar os dados do estudo, reparou em algo que a deixou estarrecida: Mike Pauletich não fora sujeito à intervenção cirúrgica real; recebera, ao invés, o tratamento placebo.

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