Todos os verões, no primeiro fim-de-semana de Agosto, milhares de gémeos verdadeiros acorrem a Twinsburg, no Ohio, uma vila assim designada por iniciativa de gémeos há aproximadamente dois séculos. Os visitantes participam no Festival dos Dias dos Gémeos, uma maratona de piqueniques, concursos de talentos e provas de parecenças que se tornou uma das maiores reuniões de gémeos do mundo.

Texto  Peter Miller   Fotografia Jodi Cobb   Retratos Martin Schoeller

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Johanna Gill, de 6 anos, pousa a mão sobre a irmã, Eva. As gémeas sofrem uma de forma ligeira de autismo, perturbação associada à herança genética.

Dave e Don Wolf, naturais do estado de Michigan, vêm há muitos anos ao festival. À semelhança da maioria dos gémeos presentes, gostam de passar tempo um com o outro. Com efeito, ao longo dos últimos 18 anos, estes dois camionistas de 53 anos, cujas barbas idênticas lhes dão pelo peito, já conduziram cerca de cinco milhões de quilómetros juntos, transportando cargas tão variadas como fraldas ou sopa enlatada. Enquanto um se senta ao volante do seu camião, o outro dormita no banco de trás. Ouvem as mesmas estações de rádio de música country, partilham as mesmas opiniões políticas ultraconservadoras acerca do peso excessivo do Estado e partilham a mesma dieta, composta por salame, maçãs e queijo Cheddar suave. Nos dias de folga, vão caçar ou pescar juntos. É um modo de vida que lhes agrada.

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“Estamos em sintonia”, diz Don Wolf (à direita) sobre o seu gémeo, Dave. São camionistas e viajam em conjunto há 18 anos. “Ele é mais desarrumado do que eu”, diz Don. “Mas gostamos da mesma música e partilhamos o mesmo sentido de humor.”

“Deve ser coisa de gémeos”, diz Don.
No festival, os irmãos visitaram uma tenda de investigação patrocinada pelo FBI, pela Universidade de Notre Dame e pela Universidade da Virgínia Ocidental. No interior, há técnicos a fotografar gémeos com câmaras de alta resolução, recolhendo as suas impressões digitais e digitalizando a pupila dos seus olhos para apurar se o software de reconhecimento facial mais recente é capaz de distinguir diferenças entre os dois.

"Um sistema de imagiologia digital consegue identificar pequenas diferenças nas sardas, nos poros cutâneos e na curvatura das sobrancelhas."

“Embora os gémeos verdadeiros possam parecer iguais, a si e a mim, um sistema de imagiologia digital consegue identificar pequenas diferenças nas sardas, nos poros cutâneos e na curvatura das sobrancelhas”, explica o cientista informático Patrick Flynn. No entanto, até agora, o equipamento de imagiologia mais avançado pode ser enganado por alterações da iluminação, expressões faciais ou outros obstáculos.
Como metade dos seus rostos está coberta com barba, os irmãos Wolf dificultam a tarefa. A situação parece diverti-los. “Tiraram-me o retrato e eu perguntei a um agente: ‘Se eu agora fosse cometer um crime, voltando depois para casa já barbeado, seria capaz de garantir que tinha sido eu?’”, conta Dave, “Ele olhou para mim e disse: ‘Provavelmente não. Mas não se ponha a cometer crimes.’”

Natureza e ambiente
Com permissão dos organizadores do evento, outras instituições instalaram tendas na periferia do terreno do festival. Na tenda ao lado do projecto do FBI, investigadores do Centro Químico Sensorial de Monell pedem aos gémeos que bebam bebidas alcoólicas em pequenos copos para analisar se reagem da mesma maneira ao sabor. Médicos dos Hospitais Universitários de Cleveland fazem questionários a gémeas sobre assuntos de saúde feminina. Um dermatologista da Procter & Gamble está a entrevistar gémeos sobre lesões cutâneas.

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Mesmo quando não actuam em filmes como Creeporia, uma comédia de terror, Camille Kitt (à esquerda) e a sua irmã Kennerly preferem vestir-se de igual. As gémeas são igualmente harpistas profissionais e antigas instrutoras de taekwondo.

Para os investigadores na área biomédica, os gémeos representam uma oportunidade singular para destrinçar a influência genética do ambiente, ou seja a natureza do ambiente. Uma vez que os gémeos verdadeiros provêm de um único óvulo fertilizado que se divide em dois, eles têm essencialmente o mesmo código genético. As diferenças entre ambos (por exemplo, um apresentar uma pele de aparência mais jovem) só podem dever-se a factores ambientais como menos tempo de exposição solar.

Ao compararem as experiências de gémeos verdadeiros e de gémeos falsos, os investigadores podem quantificar em que medida os genes afectam as nossas vidas.

Em alternativa, ao compararem as experiências de gémeos verdadeiros e de gémeos falsos, oriundos de óvulos separados e partilhando metade do seu DNA, os investigadores podem quantificar em que medida os genes afectam as nossas vidas. Se os gémeos verdadeiros forem mais semelhantes entre si relativamente a uma doença do que os gémeos falsos, então a vulnerabilidade à doença terá origem na hereditariedade, pelo menos parcialmente.
Estas duas linhas de investigação (o estudo das diferenças entre gémeos verdadeiros para identificar a influência do ambiente e a comparação de gémeos verdadeiros com gémeos falsos para medir a importância da hereditariedade) têm sido decisivas para compreender a interacção entre natureza e ambiente na definição das nossas personalidades, comportamento e vulnerabilidade à doença.

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Têm os mesmos olhos. A mesma cor de cabelo. Mas um pode ser tímido enquanto o outro é extrovertido. (Da esquerda para a direita no sentido horário: Ramon, Eurides, Emily e Kate).

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Recentemente, contudo, estudos sobre gémeos têm ajudado os cientistas a alcançar uma conclusão quase herética: a natureza e o ambiente não são os únicos factores fundamentais em jogo. Segundo um domínio recentemente desenvolvido (a epigenética), existe um terceiro factor em jogo que, em alguns casos, actua como ponte entre o ambiente e os nossos genes e noutros funciona por si só para moldar as pessoas que somos.

Os gémeos Jim
A ideia de utilizar os gémeos para medir a influência da hereditariedade é muito antiga. Data de 1875, ano em que o cientista inglês Francis Galton sugeriu pela primeira vez esta metodologia (e cunhou a frase “natureza e ambiente”). Mas os estudos sobre gémeos registaram um ponto de viragem surpreendente na década de 1980, após a descoberta de numerosos gémeos verdadeiros que tinham sido separados à nascença.

 

Descobrir por que razão os gémeos verdadeiros diferem entre si pode revelar muito sobre nós.

A história começou com o caso muito publicitado de dois irmãos, ambos chamados Jim. Nascidos em Piqua, no Ohio, em 1939, Jim Springer e Jim Lewis foram dados para adopção quando eram bebés, sendo criados por dois casais diferentes, que casualmente lhes deram o mesmo nome próprio. Quando Jim Springer voltou a estabelecer contacto com o irmão, aos 39 anos, em 1979, ambos foram desvendando uma série de outras semelhanças e coincidências. Ambos mediam 1,80m e pesavam 82kg. Durante a fase de crescimento, os dois tinham possuído cães chamados Toy. Em jovens adultos, ambos se casaram com mulheres de nome Linda, divorciando-se em seguida. As suas segundas mulheres chamavam-se Betty. Puseram aos filhos o nome de James Alan e James Allan. 
Ambos exerceram o cargo de xerife a tempo parcial, gostavam de projectos de carpintaria doméstica, ambos mostravam o mesmo sorriso assimétrico e tinham vozes indiferenciáveis. Ambos reconheceram também que deixavam recados de amor às respectivas mulheres espalhados pela casa.

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A equipa de pares formada por Mike (à esquerda) e Bob Bryan conquistou 73 campeonatos, incluindo Wimbledon em 2011. Os dois irmãos de 33 anos prevêem tão bem os movimentos um do outro que os seus opositores os acusam de comunicarem por telepatia.

Mal ouviu falar da existência dos dois Jim, o psicólogo Thomas Bouchard, Jr., da Universidade de Minnesota, convidou-os a visitarem-no no seu laboratório. A equipa de investigação submeteu os irmãos a testes, que confirmaram as semelhanças. Embora cada um tivesse traçado o seu próprio percurso de vida, os gémeos Jim, como acabaram por ser conhecidos, pareciam ter seguido caminhos idênticos.  “Lembro-me de estar sentado à mesa com eles, quando aqui vieram pela primeira vez”, conta o psicólogo. “Ambos tinham as unhas roídas até ao sabugo. 
E eu pensei, nenhum psicólogo faz perguntas sobre isso, mas não há dúvida: é flagrante.”

Os cientistas encontravam sempre a mão invisível da influência genética a moldar as nossas vidas.

Mais tarde alguns cépticos afirmaram que os pormenores eram exagerados ou que as coincidências eram apenas isso: coincidências. No entanto, Nancy Segal, professora de psicologia na Universidade Estadual da Califórnia, corrobora a parecença assombrosa entre os gémeos Jim. “Conheci-os talvez um ano depois de voltarem a encontrar-se e eles eram absolutamente genuínos”, afirma Nancy, que entrou para a equipa de Thomas Bouchard em 1982. “Embora tivessem o cabelo diferente, já não me conseguia lembrar quem era quem.”
Por essa altura, já os investigadores tinham descoberto outros gémeos separados quando eram bebés e entretanto reencontrados em adultos. Ao longo de duas décadas, 137 pares de gémeos acabaram por visitar o laboratório de Thomas Bouchard. Os gémeos foram submetidos a testes de capacidades mentais. Fizeram análises à função pulmonar e exames cardíacos e as suas ondas cerebrais foram medidas. Realizaram testes de personalidade e foram interrogados sobre os seus historiais sexuais. No total, cada gémeo foi bombardeado com mais de 15 mil perguntas.

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Iguais como duas gotas de água. Os gémeos verdadeiros provêm de um único ovo fertilizado que se divide em dois pelo que estes indivíduos têm essencialmente o mesmo código genético. (Na imagem: à esquerda Marta, à direita Emma).

Munidos destes dados, Thomas, Nancy e os restantes colegas tentaram desvendar um dos mais intricados mistérios da natureza humana: por que razão algumas pessoas são felizes e outras tristes? Por que motivo algumas são extrovertidas e outras tímidas? De onde provém a inteligência geral? A chave desta abordagem foi um conceito estatístico denominado heritabilidade. Em termos gerais, a heritabilidade de uma característica mede quanto as diferenças entre membros de uma população podem ser explicadas por diferenças na sua genética. Comparando a probabilidade de gémeos verdadeiros partilharem uma característica com a probabilidade de os gémeos falsos a partilharem também, os investigadores conseguem calcular que parte dessa diferença se deve à variação genética. A altura de uma pessoa, por exemplo, é frequentemente estimada em 0,8, significando que 80% das diferenças de altura entre os indivíduos de uma determinada população são devidas a diferenças na sua composição genética.

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Depois de Doug Malm (à direita) e o seu gémeo, Phil, terem conhecido Jill Lassen (terceira da direita) e a sua gémea, Jena, Doug disse a Phil para “escolher uma e não mudar”. Os dois casais vivem na mesma casa em Idaho, com o filho de Phil e Jena, Tim, e a filha de Doug e Jill, Rylie.

Quando analisou os dados relativos à inteligência dos gémeos, a equipa de Thomas Bouchard alcançou uma conclusão polémica: para pessoas criadas dentro do mesmo enquadramento cultural e com as mesmas oportunidades, as diferenças de QI reflectiam em grande medida diferenças hereditárias mais do que em educação ou formação. A equipa apurou uma pontuação de heritabilidade de 0,75% para a inteligência, indicando uma forte influência da hereditariedade.

Os investigadores questionaram igualmente em que medida a influência dos progenitores afectava os níveis de inteligência.

Esta conclusão era contrária à convicção dominante entre os psicólogos de que os cérebros são tábuas rasas à espera de serem escritas pela experiência. Mais alarmante para algumas pessoas: a sugestão de que a inteligência se encontrava associada à hereditariedade lembrava as teorias caídas em descrédito dos movimentos eugenistas do início do século XX em Inglaterra e nos EUA, que tinham promovido a melhoria do património genético colectivo através de reprodução selectiva.
Os investigadores questionaram igualmente em que medida a influência dos progenitores afectava os níveis de inteligência. Ao compararem gémeos verdadeiros criados em famílias diferentes, como os gémeos Jim, com gémeos verdadeiros criados dentro da mesma família, descobriram que as pontuações de QI de cada par eram semelhantes. Isso não implicava que os progenitores não tivessem qualquer influência nos seus filhos, apressaram-se a esclarecer Thomas Bouchard e os seus colegas. Sem um ambiente de amor e apoio, nenhuma criança consegue concretizar a plenitude do seu potencial.

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Genes iguais, pessoas diferentes
Os gémeos verdadeiros nascem com o mesmo DNA, mas podem tornar-se diferentes à medida que envelhecem. A epigenética tem revelado a maneira como alguns factores como o stress e a nutrição podem provocar esta divergência, mudan
do o comportamento individual dos genes.

Outros estudos recorrem aos gémeos para examinar atitudes e comportamentos. Uma investigação, por exemplo, apurou que um gémeo verdadeiro de um gémeo criminoso tinha 1,5 vezes mais probabilidades de infringir a lei do que um gémeo falso na mesma situação, sugerindo com isso que os factores genéticos, de alguma forma, preparam o caminho para o comportamento criminoso. Outro estudo revelou que a força do fervor religioso de um indivíduo era muito moldada pela hereditariedade, embora a escolha da religião não o fosse.
Para onde quer que os cientistas olhassem, encontravam sempre a mão invisível da influência genética a moldar as nossas vidas.

Separados à nascença
Para dois casais no Canadá, o poder do DNA na determinação do comportamento é mais do que uma questão académica. Desde 2000 que criam irmãs gémeas verdadeiras, a 440 quilómetros de distância uma da outra, numa espécie de experiência científica acidental.
Lynette e Mike Shaw conheceram Allyson e Kirk MacLeod ao recorrerem à mesma agência de adopção. O casal Shaw vive na província de Ontário, e os MacLeod vivem perto de Toronto. Em 2000, viajaram juntos até Chenzhou, uma cidade na província chinesa de Hunan.

Disseram-lhes que as meninas não eram aparentadas, embora tivessem nascido na mesma data, e que as duas crianças não seriam entregues a uma só família para adopção.

Quando olharam para as bebés que iam adoptar, tiveram uma surpresa. “As raparigas emergiram do elevador e percebemos que eram idênticas”, diz Mike. “Os choros das duas eram iguais, tal como o riso. Não era possível distinguir uma da outra”, acrescenta Lynette.
Antes da partida para a China, os casais tinham recebido fotografias das bebés, então com 6 meses de idade, interrogando-se se seriam irmãs. Disseram-lhes que as meninas não eram aparentadas, embora tivessem nascido na mesma data, e que as duas crianças não seriam entregues a uma só família para adopção. Se os Shaw e os MacLeod não as adoptassem, as bebés seriam entregues a outras famílias. Nestas circunstâncias, as raparigas poderiam ser separadas para sempre. Por isso, levaram as bebés para o Canadá, decididos a ajudá-las, mesmo que isso implicasse criar gémeas verdadeiras à distância.

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Nascidas na China, Gillian Shaw (à esquerda) e Lily MacLeod foram adoptadas quando eram bebés por dois casais canadianos. As famílias reúnem-se com frequência, permitindo que as raparigas saiam juntas para compensar o tempo passado sem a outra.

Com intervalos de seis ou oito semanas, os MacLeod fazem o percurso de quatro horas de automóvel até Amherstburg ou os Shaw deslocam-se a Sutton. Assim que o carro dos MacLeod se imobiliza na rampa de acesso à casa dos Shaw, Lily corre para a irmã, Gillian, que a espera de braços abertos. Hoje com 12 anos, ambas têm rostos de expressão aberta e cabelo negro pelos ombros, embora Gillian tenha agora um aparelho nos dentes. “São irmãs em tudo”, diz Lynette. “Parecem ervilhas da mesma vagem.”
Os Shaw e os MacLeod têm consciência da raridade da situação. Existe apenas um punhado de casos semelhantes, também envolvendo agências de adopção da Ásia, em que se sabe de gémeos separados criados longe uns dos outros. As suas filhas parecem satisfeitas com a situação. “Não detesto. Não adoro”, é a opinião de Lily quanto a ser gémea.

Quando ainda eram pequenas, ambas mostravam a mesma atitude agressiva.

Por terem mantido contacto estreito uns com os outros, os progenitores partilharam cada etapa do desenvolvimento das gémeas. Aos 14 meses, por exemplo, as duas deram os primeiros passos no mesmo dia: uma em Amherstburg, a outra em Sutton. Ambas apresentavam pequenos orifícios nos seus dentes e ambas padecem de ambliopia, ou olho preguiçoso, num dos olhos. Quando ainda eram pequenas, ambas mostravam a mesma atitude agressiva.
O vaivém de influências entre a genética e a vida familiar nunca está longe dos seus pensamentos, contam os casais. “Gostamos de pensar que estamos a ter impacte como progenitores”, diz Allyson. Mas então, no meio de uma conversa, Lily revira os olhos exactamente da mesma maneira que Gillian, e Allyson lembra-se subitamente da gémea de sua filha. “É assustador!” observa. 
“Às vezes, até me dá arrepios.”

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Tão parecidos e no entanto tão diferentes, os gémeos verdadeiros John e Sam, de 6 anos, sofrem ambos de autismo mas funcionam em opostos no espectro da doença. Enquanto John, que não fala muito, abana as mãos de entusiasmo, Sam concentra-se num iPad com a intensidade de um raio laser.

A terceira componente
Lily e Gillian são tão parecidas, apesar de terem sido criadas em famílias diferentes, que demonstram o património genético comum às gémeas verdadeiras. Mas para dois irmãos de Maryland a situação é a inversa: apesar de terem sido criados na mesma família, estes gémeos verdadeiros não podiam ser mais diferentes. Que fenómeno foi tão poderoso que se sobrepôs aos efeitos combinados da natureza e do ambiente?
“Hoje, vi uma nuvem cumulus congestus a perder força”, diz Sam, fazendo conversa enquanto espera pelo irmão, John, para irem os dois juntos para casa. “Era muito grande. Depois decompôs-se num nimbostratus.”

Os gémeos estão na primeira classe, mas frequentam escolas primárias diferentes, para que John possa ter a atenção de que precisa.

De 6 anos e olhos inteligentes por detrás dos óculos, Sam parece um professor universitário a dar uma aula de meteorologia. As nuvens são a sua paixão mais recente, diz a mãe.
Os gémeos estão na primeira classe, mas frequentam escolas primárias diferentes, para que John possa ter a atenção de que precisa (os progenitores dos rapazes pediram para o seu apelido não ser publicado). Quando o autocarro de John o deixa em casa, ele corre lá para dentro e Sam dá-lhe um abraço afectuoso. John ri-se mas não fala. Então Sam liberta-o e John dirige-se para uma caixa com animais de pelúcia e começa a abanar as mãos de entusiasmo.
A ambos foram diagnosticadas perturbações do espectro autista, embora os sintomas de John sejam mais graves, incluindo movimentos constantes, problemas de fala e dificuldade em estabelecer contacto visual. Sam também tem dificuldades, sobretudo no que se refere a capacidades sociais. Quando o autismo é diagnosticado a um gémeo verdadeiro, há 70% de hipóteses de o outro também padecer do mesmo.

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Características partilhadas
Os gémeos verdadeiros partilham doenças com mais frequência do que os gémeos falsos, um indício da influência da hereditariedade.

Ninguém conhece a causa desta doença, diagnosticada em cerca de uma em cada cem crianças. Pensa-se que a hereditariedade desempenhe um papel importante, embora os peritos acreditem que o autismo poderá ser desencadeado por factores ambientais ainda não identificados. Um estudo sobre gémeos, realizado na Califórnia em 2011, indica que as experiências no ventre materno e durante o primeiro ano de vida podem ter um impacte maior.
Os pais de John interrogam-se sobre se esse seria também o seu caso. Nascido com uma anomalia cardíaca congénita, foi submetido a intervenção cirúrgica aos três meses e meio de idade, sendo depois fortemente medicado para debelar uma infecção. “Durante os primeiros seis meses de vida, o ambiente de John foi radicalmente diferente do de Sam”, afirma o pai.

Um estudo sobre gémeos indica que as experiências no ventre materno e durante o primeiro ano de vida podem ter um impacte maior.

Pouco depois do diagnóstico a Sam e John, os seus pais inscreveram-nos num estudo no Instituto Kennedy Krieger, em Baltimore. As amostras de sangue dos gémeos foram partilhadas com uma equipa da Universidade Johns Hopkins para procurar ligações entre os processos autístico e epigenético, ou seja, reacções químicas não associadas nem à natureza nem ao ambiente, mas que representam aquilo a que os investigadores têm denominado como “terceira componente”. Estas reacções influenciam a forma como o nosso código genético se exprime: como cada gene é fortalecido ou enfraquecido, ou mesmo activado ou desactivado, para construir os nossos ossos, cérebros e todas as outras partes dos nossos corpos.

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Diana Bozza conforta a sua gémea verdadeira, Deborah Faraday, numa casa de saúde. Diagnosticada há oito anos com doença de Alzheimer de manifestação precoce, Deborah está completamente incapacitada, enquanto Diana não apresenta sintomas da doença.

Se pensarmos no nosso DNA como um gigantesco teclado de piano e nos nossos genes como as teclas – com cada tecla simbolizando um segmento do DNA responsável por determinada nota ou característica e com todas as teclas a combinarem-se para nos transformarem na pessoa que somos – então o processo epigenético determina o momento e a forma em que cada tecla pode ser tocada, mudando a melodia que está a ser interpretada. Uma maneira como o estudo da epigenética está a revolucionar o nosso conhecimento da biologia é revelada por um mecanismo através do qual o ambiente se repercute directamente nos genes.

Há outros processos epigenéticos normais, como aqueles que guiam as células embrionárias enquanto estas se transformam em células cardíacas, cerebrais ou hepáticas.

Por exemplo, estudos com animais têm demonstrado que quando uma fêmea de rato sofre stress durante a gravidez isso provoca no feto alterações epigenéticas que conduzem a problemas de comportamento, à medida que os roedores vão crescendo. Outras alterações epigenéticas parecem manifestar-se de forma aleatória. No entanto, há outros processos epigenéticos normais, como aqueles que guiam as células embrionárias enquanto estas se transformam em células cardíacas, cerebrais ou hepáticas, por exemplo.
“Na gravidez, muitas alterações devem ocorrer, à medida que as células se diferenciam e se transformam em tecidos especializados. E nós sabemos que esse processo implica uma cascata de programas epigenéticos”, diz Andrew Feinberg, director do Centro de Epigenética da Faculdade de Medicina Johns Hopkins.
Este estudo centra-se num processo epigenético específico denominado metilação do DNA, conhecido por tornar a expressão dos genes mais fraca ou mais forte. Para melhor compreender a forma como tal se relaciona com o autismo, Andrew e a sua equipa utilizam digitalizadores e computadores para analisar amostras de DNA provenientes de gémeos autistas em busca de “marcas” epigenéticas, zonas ao longo do genoma onde a metilação altera o padrão da expressão génica.

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Com um ano e meio de idade, Declan Conrad (à direita) tem um peso superior em 4,5kg ao do seu gémeo verdadeiro, Finian. Os rapazes cresceram a ritmos diferentes no útero materno, onde tinham acesso desigual ao fluxo sanguíneo e aos nutrientes da placenta partilhada.

O objectivo deste estudo, ainda em curso, consiste em determinar se os indivíduos com formas graves de autismo, como John, têm perfis de metilação diferentes das outras pessoas. Se assim for, isso talvez permita explicar a razão pela qual ele pôde tornar-se tão diferente de Sam. Embora partilhando o mesmo teclado, os seus corpos estão a interpretar melodias diferentes.
Trata-se de uma abordagem bastante promissora, afirma Arturas Petronis, director do laboratório de epigenética do Centro para a Adicção e a Saúde Mental de Toronto. Há algum tempo que os investigadores conhecem o elevado grau de heritabilidade de doenças complexas como o autismo. Mas o exame exaustivo das próprias sequências do DNA não tem revelado o motivo pelo qual gémeos como Sam e John divergem tanto no seu comportamento. “Passados 30 anos de estudos de genética molecular, só sabemos explicar cerca de 2 a 3% da predisposição hereditária para as doenças psiquiátricas”, afirma. 
O resto permanece ainda um mistério.

Alguns destes processos, ao contrário das nossas sequências de DNA, podem ser alterados.

Andrew Feinberg e Arturas Petronis reconhecem com prontidão que essa investigação ainda se encontra numa fase inicial. Só agora os cientistas começam a perceber a forma como os processos epigenéticos se relacionam com doenças complexas como o autismo. A boa notícia é que alguns destes processos, ao contrário das nossas sequências de DNA, podem ser alterados. Os genes alterados por metilação, por exemplo, podem ser reconduzidos à forma primitiva, com bastante facilidade. E, embora isso possa não suceder tão cedo, há esperanças de que, um dia, os erros epigenéticos sejam tão simples de reparar como um piano desafinado.

Escrever a caneta e lápis
Regressando ao Festival dos Dias dos Gémeos, Danielle Reed aguarda em frente à tenda do Centro Monell com um bloco de notas na mão, pedindo aos gémeos que participem no seu estudo sobre álcool. Consegue atrair muitos participantes, inscrevendo sucessivamente vários pares. Especialista em genética, Danielle Reed trabalhou com muitos gémeos ao longo dos anos e tem reflectido profundamente sobre o que os estudos sobre gémeos nos ensinaram.
“Quando estudamos gémeos é muito claro que grande parte daquilo que partilham é determinante”, diz. “Muitas características são iguais e inalteráveis. Mas também é claro, quando chegamos a conhecê-los, que há outras coisas neles que são diferentes. No meu entender, a epigenética é a origem de muitas dessas diferenças.”

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Com a mesma passada descontraída, Ned e Fred Mitchell passeiam pelas docas de Charleston, onde reparavam submarinos nucleares antes de se reformarem em 1996. Para gémeos tão próximos como os Mitchell, viver sincronizados parece natural.

Danielle Reed atribui ao trabalho desenvolvido por Thomas Bouchard o mérito pelo surto actual de estudos sobre gémeos. “Ele foi um pioneiro”, afirma. “Esquecemo-nos de que há 50 anos pensava-se que coisas como o alcoolismo e as doenças cardíacas eram causadas pelo estilo de vida. Pensava-se que a esquizofrenia se devia ao fraco desempenho das mães. Os estudos sobre gémeos permitiram-nos diferenciar de maneira mais profunda aquilo com que as pessoas nascem daquilo que é causado pela experiência.”
Agora, os trabalhos mais recentes sobre epigenética prometem levar o nosso conhecimento a patamares ainda mais elevados. “Eu gosto de dizer que a natureza escreve coisas a lápis e a caneta”, diz. “Há coisas escritas a caneta que não se podem mudar. Isso é o DNA. Mas o que está a lápis pode ser mudado. Isso é a epigenética. Agora que somos capazes de analisar o DNA e ver onde se encontram as coisas escritas a lápis, abre-se um mundo inteiramente novo.”

"Há coisas escritas a caneta que não se podem mudar. Isso é o DNA. Mas o que está a lápis pode ser mudado. Isso é a epigenética."

Para os gémeos Sam e John, esse mundo parece cheio de promessas. Ultimamente John descobriu a sua voz, alargando o seu vocabulário além de instruções de uma só palavra. “Eu quero ir nadar à piscina grande com mamã papá Sam John”, saiu-lhe uma tarde, na piscina do bairro. “Fantástico, uma frase de 12 palavras dita por um rapazinho tão silencioso”, comemorou a mãe no seu blogue. “Um rapazinho tão silencioso que, este Verão, é outra pessoa: um menino que usa as suas palavras em vez de me puxar até aos lugares onde quer ir.”
Por seu lado, Sam anda a devorar livros sobre mitologia grega e ortopedia, dois temas emparelhados devido à fractura do cotovelo. Depois de ler a lenda de Ícaro, que voou sobre Creta com asas de penas e cera, resolveu fazer ele próprio a experiência atirando-se do sofá da sala e acabando na urgência do hospital. Isso deu-lhe tempo, enquanto convalescia em casa, para escavar fundo no manual de medicina. Cada menino, à sua maneira, tenta voar.

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