Uma ou duas coisas...sobre gémeos

Todos os verões, no primeiro fim-de-semana de Agosto, milhares de gémeos verdadeiros acorrem a Twinsburg, no Ohio, uma vila assim designada por iniciativa de gémeos há aproximadamente dois séculos. Os visitantes participam no Festival dos Dias dos Gémeos, uma maratona de piqueniques, concursos de talentos e provas de parecenças que se tornou uma das maiores reuniões de gémeos do mundo.

Texto  Peter Miller   Fotografia Jodi Cobb   Retratos Martin Schoeller

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Johanna Gill, de 6 anos, pousa a mão sobre a irmã, Eva. As gémeas sofrem uma de forma ligeira de autismo, perturbação associada à herança genética.

Dave e Don Wolf, naturais do estado de Michigan, vêm há muitos anos ao festival. À semelhança da maioria dos gémeos presentes, gostam de passar tempo um com o outro. Com efeito, ao longo dos últimos 18 anos, estes dois camionistas de 53 anos, cujas barbas idênticas lhes dão pelo peito, já conduziram cerca de cinco milhões de quilómetros juntos, transportando cargas tão variadas como fraldas ou sopa enlatada. Enquanto um se senta ao volante do seu camião, o outro dormita no banco de trás. Ouvem as mesmas estações de rádio de música country, partilham as mesmas opiniões políticas ultraconservadoras acerca do peso excessivo do Estado e partilham a mesma dieta, composta por salame, maçãs e queijo Cheddar suave. Nos dias de folga, vão caçar ou pescar juntos. É um modo de vida que lhes agrada.

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“Estamos em sintonia”, diz Don Wolf (à direita) sobre o seu gémeo, Dave. São camionistas e viajam em conjunto há 18 anos. “Ele é mais desarrumado do que eu”, diz Don. “Mas gostamos da mesma música e partilhamos o mesmo sentido de humor.”

“Deve ser coisa de gémeos”, diz Don.
No festival, os irmãos visitaram uma tenda de investigação patrocinada pelo FBI, pela Universidade de Notre Dame e pela Universidade da Virgínia Ocidental. No interior, há técnicos a fotografar gémeos com câmaras de alta resolução, recolhendo as suas impressões digitais e digitalizando a pupila dos seus olhos para apurar se o software de reconhecimento facial mais recente é capaz de distinguir diferenças entre os dois.

"Um sistema de imagiologia digital consegue identificar pequenas diferenças nas sardas, nos poros cutâneos e na curvatura das sobrancelhas."

“Embora os gémeos verdadeiros possam parecer iguais, a si e a mim, um sistema de imagiologia digital consegue identificar pequenas diferenças nas sardas, nos poros cutâneos e na curvatura das sobrancelhas”, explica o cientista informático Patrick Flynn. No entanto, até agora, o equipamento de imagiologia mais avançado pode ser enganado por alterações da iluminação, expressões faciais ou outros obstáculos.
Como metade dos seus rostos está coberta com barba, os irmãos Wolf dificultam a tarefa. A situação parece diverti-los. “Tiraram-me o retrato e eu perguntei a um agente: ‘Se eu agora fosse cometer um crime, voltando depois para casa já barbeado, seria capaz de garantir que tinha sido eu?’”, conta Dave, “Ele olhou para mim e disse: ‘Provavelmente não. Mas não se ponha a cometer crimes.’”

Natureza e ambiente
Com permissão dos organizadores do evento, outras instituições instalaram tendas na periferia do terreno do festival. Na tenda ao lado do projecto do FBI, investigadores do Centro Químico Sensorial de Monell pedem aos gémeos que bebam bebidas alcoólicas em pequenos copos para analisar se reagem da mesma maneira ao sabor. Médicos dos Hospitais Universitários de Cleveland fazem questionários a gémeas sobre assuntos de saúde feminina. Um dermatologista da Procter & Gamble está a entrevistar gémeos sobre lesões cutâneas.

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Mesmo quando não actuam em filmes como Creeporia, uma comédia de terror, Camille Kitt (à esquerda) e a sua irmã Kennerly preferem vestir-se de igual. As gémeas são igualmente harpistas profissionais e antigas instrutoras de taekwondo.

Para os investigadores na área biomédica, os gémeos representam uma oportunidade singular para destrinçar a influência genética do ambiente, ou seja a natureza do ambiente. Uma vez que os gémeos verdadeiros provêm de um único óvulo fertilizado que se divide em dois, eles têm essencialmente o mesmo código genético. As diferenças entre ambos (por exemplo, um apresentar uma pele de aparência mais jovem) só podem dever-se a factores ambientais como menos tempo de exposição solar.

Ao compararem as experiências de gémeos verdadeiros e de gémeos falsos, os investigadores podem quantificar em que medida os genes afectam as nossas vidas.

Em alternativa, ao compararem as experiências de gémeos verdadeiros e de gémeos falsos, oriundos de óvulos separados e partilhando metade do seu DNA, os investigadores podem quantificar em que medida os genes afectam as nossas vidas. Se os gémeos verdadeiros forem mais semelhantes entre si relativamente a uma doença do que os gémeos falsos, então a vulnerabilidade à doença terá origem na hereditariedade, pelo menos parcialmente.
Estas duas linhas de investigação (o estudo das diferenças entre gémeos verdadeiros para identificar a influência do ambiente e a comparação de gémeos verdadeiros com gémeos falsos para medir a importância da hereditariedade) têm sido decisivas para compreender a interacção entre natureza e ambiente na definição das nossas personalidades, comportamento e vulnerabilidade à doença.

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