É a droga psicoactiva mais popular em todo o mundo: excita o cérebro, desgasta os nervos e tira o sono. Cada um de nós simplesmente recusa-se a viver sem ela.

Texto T.R. Reid   Fotografia Bob Sacha

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Richard Wurtman bebe pelo menos um litro de café por dia. O investigador médico ingere diariamente mais de 600mg de cafeína, que lhe aguçam a mente e concentram a criatividade. 

“Poder! Dinheiro! Luxúria! Sexo!” “Poder! Dinheiro!Luxúria! Sexo!” Os altifalantes gigantes troam, repetindo sem parar o vibrante refrão de uma música popular: têm tanta potência que a pista de madeira treme, qual terramoto, ao som ressonante de cada nota grave. Através da cortina purpúrea, feita de fumo e suor, o brilho vermelho dos projectores ilumina os pares que dançam: homens de penteado à moicano e pinturas no rosto, mulheres com saias de vinil tão curtas que nem se percebe para que servem. São 4 horas e 45 minutos na popular discoteca londrina Egg: a esta hora da madrugada, um punhado de dançarinos já se deixou cair sobre os sofás ou refugiou-se no bar. Porém, apesar da longa noite de álcool, drogas, tabaco e ruído ensurdecedor, a maioria das pessoas mantém-se enérgica e abana-se alegremente pela pista de madeira. Como conseguem aguentar? “A pista costuma reanimar por volta das quatro e meia da manhã”, diz o gerente da Egg, Simon Patrick. “A essa hora as pessoas correm para o bar e vão beber Red Bull. Todos dançam sem parar. Às sete da manhã, não é fácil mandá-los embora.”

Um atleta exibe a força depois de ingerir uma “bebida energética”. Às 14h42, ele bebe uma lata de Red Bull. Às 14h45 levanta um vendedor de Red Bull. O frenesi deve-se sobretudo ao efeito placebo, pois os efeitos só atingem o auge uma hora após a cafeína entrar na corrente sanguínea.

“É como se puséssemos todo o nosso organismo a 200km/h”, grita Lee Murphy, por cima do ruído, deslizando pelo chão nos sapatos de dança com saltos de dez centímetros, argola de ouro no queixo e, em cada mão, uma lata prateada e azul da bebida energética Red Bull. “Às quatro ou cinco da manhã, sentimo-nos completamente bêbedos e exaustos”, explica o enfermeiro londrino, de 29 anos. “É então que entra em cena o Red Bull. Bebo estas duas latas e sinto-me como se tivesse ingerido duas doses de speeds [metanfetaminas].”No entanto, as misturas enlatadas comercializadas como bebidas energéticas constituem uma nova forma para um dos estimulantes mais antigos: a cafeína. O ingrediente activo no produto austríaco de enorme êxito, o Red Bull é uma dose considerável de cafeína, misturada com um punhado de outros componentes. A lata de 250ml contém uma quantidade de cafeína duas a três vezes superior à de uma lata de refrigerante gasoso de 350ml. Em parte, a razão pela qual a cafeína é a mais popular das drogas consumidas em todo o mundo para alterar o humor (eclipsando outras, como a nicotina e o álcool) encontra-se na sua dupla capacidade para contrariar a fadiga física e aumentar o estado de vigília.

Este jovem monge leva um bule de chá de manteiga aos superiores num mosteiro budista do Sul da Índia. A cafeína e as calorias presentes na mistura fumegante composta por chá preto, leite, manteiga e sal alimentam as primeiras horas do dia dedicadas à oração e ao debate espiritual.

Disponível nos refrigerantes e no café, mas também nos comprimidos para emagrecer e nos analgésicos, é a única droga psicoactiva indutora de habituação que servimos frequentemente às crianças. Nos países desenvolvidos, a maioria dos bebés vem ao mundo com resíduos de cafeína no organismo, transferidos pelo cordão umbilical a partir do café com leite ou refrigerante ingeridos pela mãe. O consumo generalizado da cafeína é causa de preocupações para cientistas e defensores da saúde pública, mas esse temor não tem diminuído a sua  popularidade. As vendas de Red Bull e de outras bebidas energéticas idênticas encontram-se em franco crescimento.

Amostras de um refresco de café atraem clientes em Virginia Beach. A Nestlé espera que o marketing apelativo contribua para que o seu produto vendido nas mercearias entre em concorrência com as bebidas semelhantes disponibilizadas nas cafetarias.

Entretanto, novos cafés abrem constantemente em todo o mundo. Todos os dias úteis, a cadeia Starbucks abre quatro novas lojas algures no planeta e contrata 200 novos empregados. Os cientistas aperceberam-se há menos de 200 anos de que a excitação provocada pelo café e pelo chá era a mesma, já que era produzida pelo mesmo agente químico. Alcalóide naturalmente disponível nas folhas, sementes e frutos do chá, café, cacau, árvores cola e mais de sessenta outras plantas, esta droga antiga e maravilhosa é receitada para consumo humano desde pelo menos o século VI a.C. Segundo consta, a sua origem remonta ao momento em que o grande chefe espiritual Lao-tzu recomendou a ingestão de chá aos discípulos da sua nova religião, o taoísmo.

Os estudos indicam que as pessoas extrovertidas são menos sensíveis aos efeitos da cafeína.

Porém, foi só em 1820, depois de os cafés proliferarem na Europa, que uma nova geração de cientistas se interrogou sobre as razões que tornavam esta bebida tão popular. O químico alemão Friedlieb Ferdinand Runge isolou pela primeira vez a droga no grão de café, chamando à nova substância “cafeína”, pois estava presente no café. Em 1838, os químicos compreenderam que o ingrediente efectivo presente no chá era a mesma substância que a cafeína de Runge. Antes do final do século XIX, a mesma droga seria encontrada na noz de cola e no cacau.

O aluno do MIT Nathan Wilson prepara a sua própria bebida energética, antes de uma longa noite no laboratório. Divide um comprimido de 200mg de cafeína (em baixo)
e dissolve 50mg em Gatorade (em cima). Wilson faz parte de um enorme mercado: todos os anos, os consumidores dos EUA gastam 23 milhões de euros em
comprimidos de cafeína e cerca de 38 mil milhões de euros em refrigerantes com teor de cafeína.

O café e o chá popularizaram-se na Europa precisamente na época em que se construíam as primeiras fábricas, durante a Revolução Industrial. O consumo generalizado de bebidas com cafeína (substituindo a omnipresente cerveja) facilitou a grande transformação do esforço económico humano, que se transferiu da quinta para a fábrica. Nas cidades com elevado número de habitantes, ferver água para fazer chá ou café foi um gesto que contribuiu para diminuir a incidência de doenças entre os operários e a cafeína presente no organismo impediu que estes adormecessem em cima das máquinas.

Os medicamentos enriquecidos com cafeína demonstraram ser mais aptos para o alívio das dores do que os analgésicos simples.

Em certa medida, a cafeína foi a droga que tornou possível o mundo moderno. E quanto mais moderno está o nosso mundo, aparentemente mais precisamos dela. Sem essa útil dose de café, chá ou chocolate que nos arranque da cama de manhã para trabalhar, a sociedade do mundo desenvolvido não teria capacidade para funcionar 24 horas por dia. “Durante a maior parte da história humana, o padrão de sono e vigília foi definido, no essencial, pelo Sol e pelas estações do ano”, explica Charles Czeisler, neurocientista e especialista em sono da Faculdade de Medicina de Harvard. “Quando a natureza do trabalho abandonou o horário construído em volta do Sol para um emprego dentro de casa, regido pelo relógio, os seres humanos tiveram de se adaptar. O consumo generalizado de alimentos e bebidas com cafeína, juntamente com a invenção da luz eléctrica, permitiu a adaptação a um horário de trabalho determinado pelo relógio e não pela luz ou pelo ciclo natural do sono.” O enérgico Czeisler, que raramente consome cafeína, argumenta: “A cafeína é o que se chama uma terapêutica promotora do estado de vigília.” Os cientistas desenvolveram várias teorias para explicar a capacidade da cafeína para “promover o estado de vigília”.

Qual é a excitação?
As farmacêuticas têm de indicar a quantidade decafeína nos seus produtos, mas as empresas de alimentos e bebidas não.
Uma amostra de produtos familiares mostra quanta cafeína consumimos.

Descafeinado, chávena de 150ml ..........................1,6mg
Tablete de chocolate, 200g .................................7mg
Ice tea, copo de 250ml .....................................12mg
Pepsi Diet, lata de 330ml ..........................................35mg
Bica, chávena de 45ml ......................................44mg
Coca-Cola, lata de 330ml .........................................46mg
Chá, chávena de 150ml ............................................70mg

Actualmente, é consensual que a droga interfere com a adenosina, uma substância química presente no organismo que funciona como um comprimido natural para dormir. A cafeína bloqueia o efeito hipnótico da adenosina, impedindo-nos de adormecer. Quando ingerida em quantidades moderadas, ela estimula o humor e aumenta o estado de vigília, actuando como uma poção potente para os estudantes e investigadores presos nos laboratórios às três da manhã. A capacidade da cafeína para matar o sono torna-a a droga preferida para quem faz viagens de longa distância. Há tantos remédios diferentes para o jet lag como lugares num voo intercontinental através do Atlântico. Uma das teorias defende que antes de uma viagem a pessoa deve abster-se de ingerir cafeína durante alguns dias e que,no dia da chegada, deverá tomar pequenas doses de café ou chá para se manter acordada até regularizar a hora de deitar no local de destino.

os grãos de café de "robusta" usados em marcas mais baratas contêm quase o dobro da cafeína dos grãos de "arábica" mais apreciados pelos conhecedores.

“A cafeína ajuda as pessoas a contrariar o ritmo circadiano humano, inato em todos nós”, diz Czeisler. O rosto bem disposto do médico ensombra-se e o seu tom muda abruptamente. “Em contrapartida, paga-se um preço muito elevado por todo este estado de vigília suplementar”, diz, com solenidade. Sem o sono adequado, traduzido nas convencionais oito horas por dia, o organismo humano não funciona em pleno, tanto física, mental ou emocionalmente, diz o médico. “Como sociedade, confrontamo-nos com uma tremenda situação de privação.”
De facto, continua o professor, existe uma espécie de armadilha subjacente à ânsia por cafeína. “A cafeína é utilizada principalmente porque favorece o estado de vigília”, diz Czeisler. “No entanto, as pessoas precisam do apoio da cafeína sobretudo porque não dormem o que devem. Pensem nisto: nós consumimos cafeína para compensar um défice de sono que se deve em grande parte ao consumo de cafeína.”

Participando num estudo com um mês de duração, Conor O’Brien (na imagem) e outros 15 voluntários vivem um “dia” de 43 horas (29 horas acordado, 14 a dormir), tomando um comprimido a cada hora que estão acordados. Alguns recebem placebo, outros cafeína. Charles Czeisler e a sua equipa concluíram que pequenas doses de cafeína melhoram mais o estado de alerta do que a chávena de café matinal. Para os desportistas, porém, a cafeína permanece banida.

Dietrich Mateschitz não perde o sono a pensar na quantidade de cafeína que ingere. Homem grande e afectuoso, este austríaco especialista em marketing descreve-se a si próprio como “vivendo bem com o risco”, quer esteja a trepar por um penhasco rochoso, fazendo ski de helicóptero, percorrendo de bicicleta um impossível trilho íngreme dos Alpes ou a trabalhar. Mateschitz tem mesmo de conviver com o risco, pois a sua maior oportunidade foi extraordinariamente recompensada quando conseguiu colocar nas prateleiras do supermercado um novo produto que gerou centenas de concorrentes e o tornou milionário em apenas 15 anos.

Autorizados a dormir apenas três em 52 horas, durante as quais correram e praticaram tiro ao alvo e exercícios de vigilância, os soldados da Operação Nighthawk,
no Canadá (em cima), testaram pastilha elástica com 100mg de cafeína (em baixo) como “medida contra a fadiga”. Absorvida directamente pelas membranas
da boca, a cafeína mastigada actua três vezes mais depressa.

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Na década de 1980,Mateschitz trabalhava para a Blendax, uma empresa alemã de cosméticos, comercializando produtos para os cuidados da pele e dentífricos no Leste Asiático. Os voos nocturnos que realizava frequentemente de Frankfurt para Tóquio e Pequim (Beijing) provocavam-lhe inevitavelmente jet lag, que Mateschitz começou a detestar cada vez mais. Como era um vendedor, precisava de estar no auge da sua energia para fazer bem o seu trabalho, mas os voos de longo curso deixavam-no completamente exausto. Começou a reparar que, na maioria das cidades asiáticas, os motoristas de táxi bebiam regularmente um estimulante que transportavam dentro de pequenas garrafas.

Estudos sobre indivíduos que não dormiram durante 48 horas demonstraram que a melhoria do estado de vigília com a ingestão de 600mg de cafeína é equivalente a 20 mg de anfetaminas.

Após um voo extenuante para Banguecoque, pediu ao motorista do táxi que o deixasse provar a bebida. Eureka! “O jet lag desapareceu ”, recorda. “Subitamente, senti-me acordado.” Ao contar a história quase duas décadas mais tarde, Mateschitz ainda se lembra da excitação do momento da descoberta. “Encontrei em toda a Ásia essas bebidas, que eram adquiridas por um grande número de pessoas e comecei a pensar: porque será que este produto não existe no Ocidente?” O Ocidente, evidentemente, possuía já o ingrediente-chave dessas misturas asiáticas: a cafeína.

Cérebro Influenciado
Antes de consumir a dose habitual, os consumidores acostumados a uma quantidade média diária de cafeína de 650mg apresentaram níveis baixos de actividade visual
e auditiva no cérebro (indicada pelas cores vivas nas imagens). Depois de ingerirem 250mg de cafeína, a actividade aumentou, mas apenas até níveis idênticos aos
consumidores ocasionais que não tinham consumido cafeína. “Se tomarmos regularmente quantidades elevadas, precisamos delas para que o cérebro funcione
normalmente”, diz o investigador Paul Laurienti.

A bebida que tão bons resultados dera com Dietrich Mateschitz, um estimulante tailandês chamado Krating Daeng (ou seja,“Red Bull” ou Touro Vermelho), era uma mistura de cafeína, um aminoácido denominado taurina e um hidrato de carbono, a glucuronolactona. O austríaco desistiu do emprego de vendedor de dentífricos e investiu as poupanças numa licença de comercialização do Krating Daeng no Ocidente. Depois de modificar ligeiramente o sabor e a embalagem da bebida, acrescentando-lhe carbonatação, lançou-a na Europa.

A não ingestão de cafeína durante um dia e meio aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, o que pode explicar as dores de cabeça quando se interrompe o consumo.

De início, as lojas não sabiam o que fazer com uma bebida energética. Não existia outro produto igual e, portanto, não havia mercado para ele. Mateschitz resolveu o problema com uma brilhante campanha de marketing.“Red Bull não se bebe. Usa-se”, proclamava o anúncio. “Há coisas melhores para fazer do que dormir.” “Red Bull dá-te asas.” O Red Bull começou a promover provas desportivas radicais e hoje organiza os seus próprios campeonatos de Flügtag (ou seja, máquinas voadoras impulsionadas pelo homem) e Seifenkistenrennen, ou concursos de carros estranhos. O público-alvo eram os jovens europeus com formação universitária, vigorosos e bem pagos, pessoas que passavam longos dias a trabalhar ou a fazer exercício físico e longas noites nas discotecas, dançando e bebendo até ao amanhecer.

Eis o que falta no seu café descafeinado: uma pazada de cafeína e resíduos de cera é retirada do efluente, depois de os operários extraírem a cafeína dos grãos numa fábrica de Trieste, Itália.

Ao mesmo tempo que, em todo o mundo, os consumidores continuam a ingerir a droga diariamente, James senta-se no seu espartano gabinete da Universidade Nacional da Irlanda, em Galway, e vai documentando as razões pelas quais as pessoas devem parar de consumir cafeína. Australiano de nascimento, James vai beberricando um copo de água tépida ao longo das quatro horas de duração da entrevista. Outrora consumidor diário de cafeína, Jack abandonou quase por completo o consumo desta substância.

A cafeína é utilizada como padrão para "amargo" na formação de provadores de comida.

Este psicólogo criticou os relatórios de investigação custeados pelas indústrias de refrigerantes e de cafés, já que estes, no seu entender, defendem que a cafeína é uma substância benigna e ignoram a evidência dos seus potenciais efeitos adversos.Os artigos de investigação por ele publicados avisam que a cafeína é uma droga psicoactiva que faz subir a pressão arterial, aumentando portanto o risco de doença cardíaca. A opinião de James não está em consonância com a maioria das declarações em matéria de saúde pública proferidas a propósito da cafeína. Embora as indústrias do café e dos refrigerantes comparticipem alguma investigação laboratorial sobre a cafeína, existem também muitos investigadores independentes. E a visão de consenso é a de que a droga mais popular do mundo não é perigosa em níveis moderados de consumo (máximo de 300mg, ou seja, cinco a seis pequenas chávenas de café ou seis a oito latas de refrigerante por dia).

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Estudos do Laboratório de Desempenho Humano da Universidade de Connecticut (em cima) indicam que a cafeína em quantidades moderadas não provoca
desidratação. Contrariamente à crença popular, o nosso organismo retém a mesma quantidade de fluidos dos líquidos com cafeína do que da água.
Esta é uma boa notícia para os finlandeses, que ingerem cerca de 145g de cafeína (em baixo) por ano.

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Porém, a cafeína não deixa de ser uma droga, o que talvez explique a razão pela qual as pessoas se preocupam com ela. Ao longo dos anos, vários estudos mostraram que os consumidores de cafeína em doses elevadas apresentam taxas mais elevadas de cancro do fígado ou bexiga, doença mamária fibrocística, cancro do pâncreas e osteoporose. No entanto, estes dados não podem provar que a doença foi causada pela cafeína. Tudo o que pode ser estudado são os efeitos a curto prazo. Tal como as outras drogas, a cafeína não tem impacte imediato nas funções mentais ou físicas. Os vários estudos efectuados mostraram que a cafeína é analéptica (estimula o sistema nervoso central) e ergogénica (melhora o desempenho físico). É igualmente um diurético, embora estudos recentes tenham mostrado não ser desidratante em quantidades moderadas, mesmo nos atletas.

A cafeína extraída para o descafeinado é vendida aos fabricantes de fármacos e refrigerantes.

As bebidas com cafeína aumentam a produção de urina, mas apenas na mesma medida que a água. A cafeína faz subir a pressão arterial, mas trata-se de um efeito temporário. E enquanto alguns estudos demonstraram que a cafeína aumenta a perda de cálcio, os efeitos são tão pequenos que basta ingerir apenas 30ml de leite por dia para os eliminar. Na realidade, parte da investigação indica que a cafeína pode ter efeitos benignos para a saúde humana.

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Numa plantação de chá orgânico na Índia, as folhas de Camellia sinensis são colhidas à mão, tal como têm sido desde que os britânicos começaram o cultivo intensivo do chá por volta de 1830. Com cerca de 900 milhões de quilogramas por ano, a Índia é o maior produtor do mundo. O trabalho manual continua a ser crucial para a produção dos apreciados chás indianos. O chá é um negócio que vale 577 milhões de euros por ano no estado oriental de Assam, onde os militantes locais desencadearam actos terroristas raptando executivos da indústria do chá para obter resgates. Para minimizar os riscos, alguns gerentes viajam acompanhados por guardas armados (em baixo).

Estudos demonstraram que a cafeína pode ajudar a aliviar a dor, prevenir as enxaquecas, reduzir os sintomas da asma e melhorar o humor. Como estimulante mental, aumenta o estado de alerta, a cognição e a velocidade de reacção; uma vez que combate o cansaço, permite melhorar o desempenho de tarefas de vigilância como a condução ou o voo. Apesar do seu consumo quase universal, raramente se registam abusos de cafeína. “Com a cafeína, o consumo excessivo tem tendência a parar por si só”, diz Jack Bergman, especialista em farmacologia do comportamento. “As pessoas sentem-se nervosas e desconfortáveis e não querem permanecer assim.” O ponto em que um indivíduo atinge esse estado de nervosismo é muito, muito variável.

Em 2002, um estudante do País de Gales suicidou-se, engolindo comprimidos de cafeína equivalentes a 100 chávenas de café.

Algumas pessoas parecem ser geneticamente mais susceptíveis aos efeitos da cafeína e podem sentir um aumento da ansiedade após o consumo de pequenas doses. Numa minoria de indivíduos, as doses de 300mg ou mais podem provocar um aumento da tensão, ansiedade e até mesmo ataques de pânico, factores que talvez expliquem o facto dos estudos comprovarem que as pessoas nervosas costumam normalmente consumir menores doses de cafeína. No que diz respeito ao consumo de cafeína entre as crianças, o seu menor peso corporal obriga a que devam consumir menos do que os adultos.

Os chás de elevada qualidade estão prontos a provar numa fábrica de Darjiling. A cafeína contribui para activar o sabor, que nas infusões de qualidade inferior ou demasiado fervidas podem tornar-se amargas.

O relatório do Comité para as Bebidas Estimulantes da Irlanda desaconselha o consumo de bebidas com elevado teor de cafeína nas crianças para prevenir possíveis aumentos da ansiedade ou nervosismo. Não há, contudo, evidência conclusiva sobre o carácter nocivo da cafeína nas crianças quando consumida em pequenas quantidades. Um relatório da Australia New Zealand Food Authority conclui também que as crianças aparentemente metabolizam a cafeína com mais rapidez e que por isso não há motivos especiais para suspeitar que elas serão mais sensíveis aos seus efeitos – bons ou maus – do que a população  adulta. Mesmo assim, depois de décadas de testes, a cafeína ainda é listada pelo organismo americano responsável pela alimentação e pelos medicamentos, como um aditivo “geralmente reconhecido como seguro”.

O chá preto, o chá verde e o oolong são preparados a partir da mesma planta. As diferenças de sabor dependem do fabrico.

“Ao olharmos para todos os estudos sobre a cafeína, é muito difícil afirmar que o consumo moderado é mau para as pessoas”, diz Bergman. “Os seus efeitos sobre o comportamento são reais, mas ligeiros. Não há dúvida de que gera alguma dependência física. Quando me levanto de manhã normalmente tomo uma ou duas chávenas de café. Mas quando não tomo, os sintomas de privação não são graves.” Alguns consumidores de cafeína não concordam com Bergman: um ou dois dias sem cafeína podem causar dores de cabeça, irritabilidade, falta de energia e, evidentemente, sonolência. Mas se compararmos estes efeitos com os provocados pela privação do consumo de cocaína ou heroína, deixar de ingerir cafeína é um processo mais curto e fácil. Os sintomas de privação costumam desaparecer ao fim de dois a quatro dias, embora possam persistir durante uma semana ou mais. Mesmo assim, o desejo de evitar os sintomas da privação talvez expliquem por que razão milhões de seres humanos consomem tão avidamente cafeína todos os dias.

A paixão consumista torna-se uma obra de arte nas lojas de chocolate da Sicília (em cima) ou de Nova Iorque (em baixo).
O chocolate negro contém três vezes a quantidade de cafeína do chocolate de leite. Uma tablete de 225g equivale à cafeína de uma chávena de café de 355ml.

A pessoa que diz “sinto-me um monstro até beber uma chávena de café de manhã” está a descrever uma forma de dependência ligeira. Com efeito, Jack James diz que a dependência física generalizada da cafeína pode ter enviesado as conclusões das investigações, exagerando os efeitos de alteração do humor provocados pela cafeína. Se os cientistas compararem dois grupos de indivíduos (com e sem administração de cafeína), qualquer melhoria do humor ou do desempenho no grupo que ingeriu cafeína pode dever-se simplesmente a um alívio dos sintomas de privação. “Pode ser que estejamos todos num desses ciclos intermináveis”, concorda Derk-Jan Dijk, fisiologista do Centro de Investigação do Sono da Universidade de Surrey.

As "meias de café", um novo produto com cafeína incorporada, são collants com cafeína tecida nos fios que poderão contribuir para o adelgaçamento das coxas.

“Quando ingerimos cafeína, permanecemos mais despertos. Depois, na manhã seguinte, o efeito desapareceu e precisamos de ingerir mais droga para restaurar o estado de alerta. Pode ser que consigamos sair do ciclo. Para as pessoas que trabalham durante o dia, é bem possível que a cafeína não faça falta.” O ritual matinal do café, possivelmente acompanhado de um bolo, é uma componente normal da vida que apreciamos. É calmante, ajuda a organizar o dia e tudo isto pode ser muito útil. Ao longo dos séculos, os seres humanos foram criando inúmeros rituais para acompanhar o consumo da sua droga favorita. Em muitos casos, o ritual cresceu e transcendeu a bebida. No Japão, a austera e elegante cerimónia chanoyu, ou cerimónia do chá, o simples ambiente da sala de chá, o suave roçagar do quimono pelo tatami, a beleza modesta de uma chávena castanha artesanal são tão importantes como o próprio chá. Os britânicos transformaram o seu ritual do chá das cinco num aparato de pompa e circunstância. No esplendor reluzente do empório alimentar londrino do Fortnum & Mason, o chá das cinco é servido em chávenas de porcelana fina douradas e verdes, no meio de pilares de mármore e enormes arranjos florais. Empregados obsequiosos servem delicadas sanduíches, scones com creme e tartes de frutas tropicais, tudo acompanhado de Earl Grey ou Lapsang Souchong. No centro da sala, ouve-se um pianista a tocar “On the Sunny Side of the Street”: mesmo a propósito, porque nos sentimos realmente tão ricos como Rockefeller, pelo menos até acabarmos de bebero chá e chegar a conta (33 euros).

Um agricultor vietnamita olha para a cor vermelho-vivo que indica a maturação das “cerejas” do café. Estão prontas a colher e a espalhar ao sol para secar, de forma a que seja possível retirar os grãos do interior. Com cerca de 500 mil hectares de culturas, o Vietname é um dos maiores produtores mundiais de café.

Os norte-americanos inventaram um conjunto de rituais bastante mais informais no que diz respeito à cafeína: bolo e café no Dunkin’Donuts local, ou café instantâneo com natas polvilhadas e adoçante à secretária. Na última década, contudo, o ritual matinal dos americanos em matéria de consumo de cafeína tornou-se decididamente mais excêntrico. Uma avalanche de novas cafetarias transformou a chávena da “bica”, antigamente vendida a 50 cêntimos, numa extravagância que passou a custar 4,6 euros: uma mistura expressamente preparada à medida de cada cliente por um empregado pessoal. “Criámos neste país um ritual totalmente novo para o café”, diz Howard Schultz, o homem que inventou o Starbucks.

O Vietname é o segundo maior produtor de café a nível mundial.

Em duas décadas, Schultz transformou um bar de cafés expresso numa cafetaria, situada na esquina das ruas Fourth e Spring, em Seattle, numa das 500 maiores empresas segundo a classificação da revista “Fortune”, construindo um ícone global tão familiar que a revista “Playboy” publicou um artigo sobre as “mulheres Starbucks”. Schultz, de 51 anos e que bebe cinco chávenas de café por dia, é a imagem da intensidade enquanto deambula pelo seu escritório, recordando como tudo começou. Em 1983, Schultz era vendedor de café em grão numa loja de Seattle denominada Starbucks – nome do oficial imediato no livro “Moby Dick”, de Melville. Nesse ano, visitou Milão e apaixonou-se pelo ambiente dessa grande instituição italiana que é a bica ao balcão. “O café era excelente, mas era mais do que isso”, diz num tom apaixonado. “Era a conversa. Era a vida social. Eram os laços entre as pessoas. E o bom café fazia a ligação. Pensei: podíamos fazer isto em Seattle.” De regresso aos EUA, em Abril de 1984,Schultzmontou um pequeno balcão no fundo da loja de cafés onde vendia, oferecendo bebidas misteriosas como café com leite com que os concorrentes de Dunkin’Donuts nunca tinham sonhado. Dias depois, formavam-se já grandes filas no passeio, junto à loja, e Howard Schultz nem hesitou: deixou a empresa e abriu o seu próprio café, chamado Il Giornale. Dois anos mais tarde, adquiriu a empresa do seu antigo patrão e hoje existem mais de 8.500 Starbucks em todo o mundo. Schultz não gosta de destacar o papel possivelmente desempenhado pela cafeína no êxito da sua empresa: “Não acho que seja a cafeína. Penso que é o ritual, o ambiente romântico que, na realidade, foi o factor mais importante.” No entanto, a cafeína está presente.

A velocidade de metabolização da cafeína quase duplica nos fumadores de cigarros.

A alguns quilómetros do escritório de Schultz, viajando pela estrada interestadual, na fábrica de torrefacção em Kent, Washington, o supervisor Tom Walters sabe que isso é verdade por experiência própria. “Pediram-me para não ligar o café à cafeína”, diz Walters, enquanto deambula por entre montanhas de sacas de serapilheira de 70kg com grãos de café acabados de colher, provenientes da Colômbia, Costa Rica, Nicarágua e Indonésia. “Mas por aqui vêem-se grandes quantidades de cafeína. Quando torramos os grãos, a cafeína forma uma espécie de flocos na máquina de torrar. Por isso, quando não há tempo para intervalo de café, algumas pessoas passam um dedo pela tampa da torradeira e lambem-na, provocando o mesmo efeito da cafeína.” A produção do mesmo efeito é, evidentemente, a razão pela qual muitas das bebidas mais populares da Terra – café, cola, chá – contêm cafeína.

Leite quente habilmente disposto em cima do café expresso com um padrão em forma de folha, em Turim, Itália. Os adeptos chamam a estes floreados latte art, e os empregados de bar desde a Islândia a El Salvador têm orgulho em servir um pouco de beleza com a bebida que provoca excitação.

Quer seja um estudante universitário emborcando café no laboratório ou um monge bebericando chá verde enquanto entoa cânticos no templo, o estimulante favorito da humanidade está presente em todo o mundo. Todos os dias. E todas as noites também. De volta às luzes intermitentes e ao barulho ensurdecedor da discoteca londrina Egg, Lee Murphy dança ao som da batida electrónica da canção “Give It What You’-ve Got!”. Bebe um grande trago de uma das duas latas de Red Bull. “Olha, companheiro, eu sei que isto é droga”, grita, sobrepondo a voz ao ruído. “Mas eu preciso deste estímulo.”

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