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É a droga psicoactiva mais popular em todo o mundo: excita o cérebro, desgasta os nervos e tira o sono. Cada um de nós simplesmente recusa-se a viver sem ela.

Texto T.R. Reid   Fotografia Bob Sacha

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Richard Wurtman bebe pelo menos um litro de café por dia. O investigador médico ingere diariamente mais de 600mg de cafeína, que lhe aguçam a mente e concentram a criatividade. 

“Poder! Dinheiro! Luxúria! Sexo!” “Poder! Dinheiro!Luxúria! Sexo!” Os altifalantes gigantes troam, repetindo sem parar o vibrante refrão de uma música popular: têm tanta potência que a pista de madeira treme, qual terramoto, ao som ressonante de cada nota grave. Através da cortina purpúrea, feita de fumo e suor, o brilho vermelho dos projectores ilumina os pares que dançam: homens de penteado à moicano e pinturas no rosto, mulheres com saias de vinil tão curtas que nem se percebe para que servem. São 4 horas e 45 minutos na popular discoteca londrina Egg: a esta hora da madrugada, um punhado de dançarinos já se deixou cair sobre os sofás ou refugiou-se no bar. Porém, apesar da longa noite de álcool, drogas, tabaco e ruído ensurdecedor, a maioria das pessoas mantém-se enérgica e abana-se alegremente pela pista de madeira. Como conseguem aguentar? “A pista costuma reanimar por volta das quatro e meia da manhã”, diz o gerente da Egg, Simon Patrick. “A essa hora as pessoas correm para o bar e vão beber Red Bull. Todos dançam sem parar. Às sete da manhã, não é fácil mandá-los embora.”

Um atleta exibe a força depois de ingerir uma “bebida energética”. Às 14h42, ele bebe uma lata de Red Bull. Às 14h45 levanta um vendedor de Red Bull. O frenesi deve-se sobretudo ao efeito placebo, pois os efeitos só atingem o auge uma hora após a cafeína entrar na corrente sanguínea.

“É como se puséssemos todo o nosso organismo a 200km/h”, grita Lee Murphy, por cima do ruído, deslizando pelo chão nos sapatos de dança com saltos de dez centímetros, argola de ouro no queixo e, em cada mão, uma lata prateada e azul da bebida energética Red Bull. “Às quatro ou cinco da manhã, sentimo-nos completamente bêbedos e exaustos”, explica o enfermeiro londrino, de 29 anos. “É então que entra em cena o Red Bull. Bebo estas duas latas e sinto-me como se tivesse ingerido duas doses de speeds [metanfetaminas].”No entanto, as misturas enlatadas comercializadas como bebidas energéticas constituem uma nova forma para um dos estimulantes mais antigos: a cafeína. O ingrediente activo no produto austríaco de enorme êxito, o Red Bull é uma dose considerável de cafeína, misturada com um punhado de outros componentes. A lata de 250ml contém uma quantidade de cafeína duas a três vezes superior à de uma lata de refrigerante gasoso de 350ml. Em parte, a razão pela qual a cafeína é a mais popular das drogas consumidas em todo o mundo para alterar o humor (eclipsando outras, como a nicotina e o álcool) encontra-se na sua dupla capacidade para contrariar a fadiga física e aumentar o estado de vigília.

Este jovem monge leva um bule de chá de manteiga aos superiores num mosteiro budista do Sul da Índia. A cafeína e as calorias presentes na mistura fumegante composta por chá preto, leite, manteiga e sal alimentam as primeiras horas do dia dedicadas à oração e ao debate espiritual.

Disponível nos refrigerantes e no café, mas também nos comprimidos para emagrecer e nos analgésicos, é a única droga psicoactiva indutora de habituação que servimos frequentemente às crianças. Nos países desenvolvidos, a maioria dos bebés vem ao mundo com resíduos de cafeína no organismo, transferidos pelo cordão umbilical a partir do café com leite ou refrigerante ingeridos pela mãe. O consumo generalizado da cafeína é causa de preocupações para cientistas e defensores da saúde pública, mas esse temor não tem diminuído a sua  popularidade. As vendas de Red Bull e de outras bebidas energéticas idênticas encontram-se em franco crescimento.

Amostras de um refresco de café atraem clientes em Virginia Beach. A Nestlé espera que o marketing apelativo contribua para que o seu produto vendido nas mercearias entre em concorrência com as bebidas semelhantes disponibilizadas nas cafetarias.

Entretanto, novos cafés abrem constantemente em todo o mundo. Todos os dias úteis, a cadeia Starbucks abre quatro novas lojas algures no planeta e contrata 200 novos empregados. Os cientistas aperceberam-se há menos de 200 anos de que a excitação provocada pelo café e pelo chá era a mesma, já que era produzida pelo mesmo agente químico. Alcalóide naturalmente disponível nas folhas, sementes e frutos do chá, café, cacau, árvores cola e mais de sessenta outras plantas, esta droga antiga e maravilhosa é receitada para consumo humano desde pelo menos o século VI a.C. Segundo consta, a sua origem remonta ao momento em que o grande chefe espiritual Lao-tzu recomendou a ingestão de chá aos discípulos da sua nova religião, o taoísmo.

Os estudos indicam que as pessoas extrovertidas são menos sensíveis aos efeitos da cafeína.

Porém, foi só em 1820, depois de os cafés proliferarem na Europa, que uma nova geração de cientistas se interrogou sobre as razões que tornavam esta bebida tão popular. O químico alemão Friedlieb Ferdinand Runge isolou pela primeira vez a droga no grão de café, chamando à nova substância “cafeína”, pois estava presente no café. Em 1838, os químicos compreenderam que o ingrediente efectivo presente no chá era a mesma substância que a cafeína de Runge. Antes do final do século XIX, a mesma droga seria encontrada na noz de cola e no cacau.

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