A epidemia silenciosa do mundo industrializado: o consumo de açúcar

É uma epidemia silenciosa, mas não deixa de ser uma epidemia. O consumo de açúcar nos países industrializados continua a aumentar. Os norte-americanos, líderes deste ranking infeliz, consomem 95 gramas de açúcar por dia per capita.

Texto Rich Cohen       Fotografia Robert Clark

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O olykoek é uma bola de massa frita holandesa e é o antepassado quinhentista do donut. O buraco no meio veio mais tarde.

O FUNDO DA BEBIDA
Foi preciso fazê-las desaparecer. As máquinas automáticas de venda de refrigerantes e snacks. A fritadeira. Arrastadas até ao passeio, ficaram lá com outro lixo, nas traseiras da Escola Básica Kirkpatrick, uma entre meia dúzia de escolas primárias de Clarksdale, no estado do Mississípi. Isto aconteceu há sete anos, quando os directores da escola se aperceberam pela primeira vez da magnitude do problema. Famosa pelas plantações de algodão da região e pelas vastas campinas que se estendem até ao rio, com as suas mansões vitorianas ainda belíssimas, Clarksdale está no centro de uma gigantesca crise de saúde que afecta os Estados Unidos. Taxas elevadas de obesidade, diabetes, tensão arterial elevada, doença cardíaca. Segundo alguns peritos, é o legado do açúcar, uma cultura que trouxe, literalmente acorrentados até este hemisfério, os antepassados da maior parte dos moradores de Clarksdale. “Tínhamos de fazer alguma coisa”, resumiu Suzanne Walton, directora de Kirkpatrick.

"Andava sempre a mordiscar rebuçados porque passo o dia todo sentada. Agora, mudei para aipo."

Nascida e criada em Clarksdale, Suzanne conduziu-me num passeio pela escola, falando sobre as soluções encontradas pelo corpo docente para tentar ajudar os alunos, a maioria dos quais consome duas refeições por dia no refeitório. A directora vestia uma bata hospitalar, o traje habitual dos professores às segundas-feiras para sublinhar o empenho da escola relativamente à saúde e ao bem-estar. O corpo discente é constituído por 91% de alunos afro-americanos, 7% de caucasianos “e três latinos”, os restantes 2%. “Os miúdos comem aquilo que lhes dão e o que lhes dão são normalmente os alimentos mais doces e mais baratos: bolos, doces, rebuçados. A situação tinha de mudar. Eram os alunos que estavam em causa”, explicou Suzanne.
Veja-se, por exemplo, o caso de Nicholas Scurlock, que recentemente ingressara no primeiro ano da Escola Oakhurst. De baixa altura, Nicholas pesava 61 quilogramas no quinto ano. “Ficava apavorado no ginásio”, contou Suzanne. “Tinha dificuldade em correr e em respirar.”
“No fundo, quem sou eu para apontar o dedo?”, perguntou Suzanne Walton, batendo com a mão nas coxas. “Eu própria sou uma mulher grande.”
Encontrei-me com Nicholas no refeitório, onde estava sentado ao lado da sua mãe, Warkeyie Jones. Warkeyie disse-me que mudara de hábitos alimentares para servir de exemplo ao filho. “Andava sempre a mordiscar rebuçados porque passo o dia todo sentada. Agora, mudei para aipo”, contou. “As pessoas dizem-me: ‘Fazes isso porque tens um namorado.’ E eu respondo: ‘Não, faço isto porque quero viver e ser saudável.’”

ACUCAR BOLAS

Refrigerante O consumidor sente-se melhor com bolhas ou, pelo menos, era assim que pensavam os frequentadores das termas, que muitas vezes bebiam água mineral gaseificada como parte da cura para a doença. No século XVIII, a descoberta
do papel do dióxido de carbono na água gasosa levou 
à invenção de sistemas de fabrico de água gaseificada 
e depois às bebidas doces. Actualmente, uma garrafa 
normal de refrigerante gaseificado com 355 mililitros 
contém cerca de 42 gramas de açúcar.

Pegue numa chávena de água, adicione açúcar ao líquido e deixe-o repousar durante cinco horas. Quando regressar, verá que os cristais assentaram no fundo do vidro. Clarksdale, uma cidade grande numa das províncias mais obesas, no mais obeso dos estados norte-americanos, no país industrializado mais obeso do mundo, é o fundo da bebida norte-americana, onde o açúcar se instala nos corpos de miúdos como Nicholas Scurlock. É a herança dos doces sob a forma de um rapaz.

MESQUITAS DE MAÇAPÃO
A princípio, na ilha da Nova-Guiné, onde a cana-de-açúcar foi domesticada há cerca de dez mil anos, as populações colhiam a cana e comiam-na crua, mastigando o caule. O açúcar ocupou assim um lugar de destaque nos antigos mitos da Nova-Guiné. Num deles, o primeiro homem faz amor com um caule de cana, gerando a raça humana. Em cerimónias religiosas, os sacerdotes beberricavam água açucarada em cascas de coco, uma bebida desde então substituída nas cerimónias sagradas por latas de Coca-Cola.

Primeiro aqui, depois ali: o açúcar foi surgindo em todos os lugares onde se prestava culto a Alá.

O açúcar foi alastrando lentamente de ilha em ilha até que, por volta de 1000 a.C., chegou finalmente ao continente asiático. Em 500 d.C., já era transformado em pó na Índia e utilizado como remédio para as dores de cabeça, espasmos no estômago e a impotência. Durante muitos anos, a refinação foi guardada como uma ciência secreta, transmitida de mestre a aprendiz. Aproximadamente no ano 600, a técnica passara à Pérsia, onde os governantes entretinham os convidados com uma grande variedade de doces. Quando os exércitos árabes conquistaram a região, levaram consigo o conhecimento e o gosto pelo açúcar. Primeiro aqui, depois ali, o açúcar foi aparecendo em todos os lugares onde se prestava culto a Alá. “Para onde quer que fossem, os árabes levavam açúcar, o produto e a tecnologia do seu fabrico”, escreve Sidney Mintz no livro “Sweetness and Power” [sem tradução portuguesa]. “O açúcar, segundo nos dizem, foi seguindo o Alcorão.”

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