Se a viagem não vos matar, viver lá talvez o faça.

 Texto Joel Achenbach   Fotografia Phillip Toledano, Robert Clark, Max Aguilera-Hellweg  e Mark Thiessen

Quatro dias depois de regressar de uma missão de quase um ano a bordo da Estação Espacial Internacional, Mikhail Kornienko conduz um simulador de veículo móvel marciano em Star City, o centro de treino dos cosmonautas russos. Não sabemos que condições os exploradores de Marte encontrarão quando um dia lá chegarem: os perigos da viagem incluem perda de massa óssea e lesões cerebrais. Fotografia: Phillip Toledano.

 Elon Musk quer ir a Marte. É famosa a sua afirmação de que quer morrer em Marte, embora não devido ao impacte do desembarque. A tecnologia que poderá contribuir para evitar esse desastre foi aprovada, num teste crucial, numa certa noite de Dezembro do ano passado, quando um foguete Falcon 9 construído pela empresa de Musk, a SpaceX, foi lançado de Cape Canaveral, na Florida (EUA), transportando onze  satélites de comunicações.

Mosaico de Marte composto por 102 imagens: projecto VIKING, USGS/NASA.

 Alguns minutos de voo mais tarde, o propulsor separou-se do resto do foguete, da mesma forma que milhares de propulsores gastos o fizeram desde os primeiros tempos da era espacial: normalmente ardem na atmosfera e os seus fragmentos precipitam-se sobre o oceano. Contudo, este propulsor não estava gasto. Em vez de cair, inverteu a trajectória e os seus motores voltaram a ligar-se para realizar, lentamente, a sua descida até um local de aterragem ali perto. Visto do solo, parecia que o filme da descolagem estava a ser rebobinado.

Nunca antes um foguete propulsor de classe orbital como este conseguira aterrar.

No centro de controlo de lançamento de Cape Canaveral e no centro de controlo da missão SpaceX em Hawthorne, na Califórnia, centenas de rostos viram a bola de luz aproximar-se em ecrãs de vídeo. Estavam hipnotizados. No centro de controlo de lançamento, Elon correu para o exterior para assistir à cena com os seus próprios olhos. Segundos mais tarde, ouviu-se um estrondo fatídico. Nunca antes um foguete propulsor de classe orbital como este conseguira aterrar. Nas primeiras tentativas da SpaceX, o foguete explodira.
Na verdade, o ruído fora apenas um estrondo sónico devido à velocidade com que o propulsor fizera a sua descida através da atmosfera. 

Chegou aos ouvidos de Elon no instante em que o propulsor aterrava – suavemente, em segurança e, finalmente, com sucesso. Diante dos seus ecrãs, o sengenheiros soltavam gritos de alegria.

 

Pousar suave para voar novamente - A empresa aeroespacial SpaceX está a desenvolver tecnologia que poderá um dia permitir o desembarque de seres humanos em Marte: foguetes reutilizáveis. Nesta imagem, um foguete Falcon 9 parte (no topo) de Cape Canaveral, na Florida, para levar provisões à estação espacial. Passados alguns minutos, o propulsor separa-se da secção superior, que prossegue em direcção à órbita terrestre. Em vez de cair no oceano, o propulsor vira-se ao contrário e liga os motores mais duas vezes para abrandar e pousar controladamente numa plataforma próxima (última imagem). Uma exposição longa (ao centro) capta a sequência completa: o rasto de luz em linha recta visível à direita é a trajectória de regresso do propulsor.  Fotografias: SPACEX (topo); Michael Seeley (ao centro); SPACEX (última imagem).

 A SpaceX acabara de alcançar um marco histórico na saga dos foguetes reutilizáveis. Elon Musk acredita que a tecnologia poderá reduzir os custos de lançamento para 1% do total actual, conferindo à SpaceX vantagem competitiva no seu negócio de lançamento de satélites e entrega de materiais à Estação Espacial Internacional. Essa nunca foi a preocupação de Elon. A primeira aterragem controlada de um foguete propulsor era “um passo essencial no caminho para a fundação de uma colónia em Marte”, afirmou durante uma conferência de imprensa nessa noite.

Elon Musk não quer pousar em Marte como os astronautas da Apollo alunaram.

Elon Musk não quer pousar em Marte como os astronautas da Apollo alunaram. Ele quer construir uma nova civilização antes que alguma calamidade, possivelmente auto-infligida, nos elimine da face da Terra. Os funcionários da SpaceX em Hawthorne usam frequentemente T-shirts com a frase “Occupy Mars” [Ocupar Marte]. Perto da secretária de Elon, há duas imagens gémeas de Marte penduradas numa parede: uma mostra o Planeta Vermelho e ressequido de hoje; a outra mostra um Marte azul, “terraformado” por engenheiros, com mares e rios. Este homem pioneiro imagina a colonização de Marte com uma flotilha de Mayflowers interplanetários, cada um transportando cem colonos, como o navio original, com a diferença de que muitos destes peregrinos pagariam 500 mil dólares, ou mais, por uma cama na nave espacial.

Trajando a rigor para Marte, Pablo de León, engenheiro espacial da Universidade do Dakota do Norte, testa um protótipo de fato espacial no “caixote de rególito”, no Centro Espacial Kennedy, da NASA. No interior da câmara, solo fino e ventoinhas simulam as tempestades de poeira que podem atormentar os astronautas em Marte. Fotografia Phillip Toledano.

As primeiras pegadas em Marte poderão pertencer a robots como o Valkyrie, actualmente testado por Taskin Padir (à esquerda) e Velin Dimitrov, engenheiros da Universidade do Nordeste, em Boston. Os robots poderão construir uma base antes da chegada dos seres humanos. Mais tarde, desempenharão tarefas como a limpeza dos painéis solares. Fotografia Max Aguilera-Hellweg, captada no Centro de Validação e Experimentação Robótica de Nova Inglaterra, Universidade de Massachusetts, Lowell.

 Fundada em 2002, a SpaceX ainda não lançou um ser humano para o espaço, mas tem esperanças de o fazer este ano, transportando astronautas da NASA até à estação espacial num Falcon 9. A empresa tem vindo a construir um foguete maior, o Falcon Heavy, mas nem esse será suficientemente grande para levar seres humanos até Marte. Elon prometeu desvendar mais pormenores sobre os seus planos para Marte após a publicação desta reportagem (e escassas semanas depois da explosão de mais um foguete da SpaceX na plataforma de lançamento). Para já, contudo, não há indicações de que a SpaceX tenha desenvolvido, e muito menos testado, as outras tecnologias necessárias para manter seres humanos vivos e saudáveis em Marte ou durante a longa viagem. Mesmo assim, Elon Musk anunciou no passado mês de Junho que a SpaceX pretende enviar os seus primeiros astronautas a Marte em 2024. Pousarão (de forma controlada, espera ele) em 2025.

No passado mês de Maio, uma árvore do estado da Carolina do Sul enquadrou brevemente a segunda fase (à esquerda) e o propulsor de um Falcon 9 no seu trajecto de regresso. “Isto aumenta consideravelmente a minha confiança na possibilidade de vir a haver uma cidade em Marte”, afirmou Elon Musk, fundador da SpaceX, após uma aterragem controlada. Fotografia Zach Grether.

 “Alcançarão a celebridade”, resumiu. “Mas, no contexto histórico mais abrangente, o que interessa, de facto, é conseguirmos enviar um grande número de pessoas – dezenas ou centenas de milhares – e, por fim, milhões de toneladas de carga.” É por isso que ele considera os foguetes reutilizáveis tão importantes.

A NASA, que levou o homem à Lua em 1969 e começou a explorar Marte com sondas robóticas antes disso, já anunciou que também planeia enviar astronautas a Marte, mas só depois da década de 2030 e, mesmo assim, só para orbitar o Planeta Vermelho. O feito perigoso e difícil de pousar uma nave de grandes dimensões sobre a superfície de Marte é um “objectivo distante”, diz a NASA. Talvez só possa ser alcançado numa década posterior. A NASA não faz qualquer referência a colónias marcianas.

Tanques de água revestindo uma nave espacial poderiam proteger os astronautas da radiação e melhorar a sua disposição e dieta, ao permitir-lhes fazer jardinagem. Bob Morrow, da Orbitec, uma empresa financiada pela NASA, mostra uma alface amadurecida num protótipo do sistema. Fotografia Robert Clark.

 Todos parecem concordar num aspecto: se a humanidade tiver um destino em vista no espaço, esse destino é Marte. Depois disso, existem perspectivas contraditórias sobre a viabilidade do projecto. John Grunsfeld, o lendário astronauta da NASA que se reformou do cargo de director científico da agência na Primavera passada, recorda-se de lhe terem dito, em 1992, que estava na turma de astronautas que, um dia, iria a Marte. Este ano, em parte graças ao sucesso de “Perdido em Marte”, filme campeão de vendas nas livrarias e sucesso de bilheteira nas salas de cinema, a NASA recebeu 18.300 candidaturas para o próximo curso: no máximo, existirão 14 vagas. John ainda quer que os seres humanos vão a Marte, mas mantém o conselho que deu ao administrador da NASA e colega astronauta Charles Bolden há alguns anos. Era sobre como falar com os novos recrutas. “Não anunciem a estes rapazes que eles irão a Marte porque não há hipóteses”, disse.

Raios cósmicos e cérebros - Uma vez fora do alcance do escudo magnético da Terra, os astronautas ficariam vulneráveis aos raios cósmicos. Comparado com um cérebro de ratinho saudável (segmento superior a verde), um rato atingido por radiação de “relevância espacial” (em baixo) tem menos ramificações de células nervosas (a verde) e ligações (a vermelho) no seu córtex pré-frontal. Os ratinhos nestas condições são menos exploradores e têm pior memória espacial, um “motivo de preocupação” no que concerne aos exploradores de Marte, nas palavras de Charles Limoli, da Universidade da Califórnia. Imagem: Charles Limoli, Departamento de Radiação Oncológica, Universidade da Califórnia, Irvine.

 

O cosmonauta russo Sergey Volkov é submetido a uma bateria de testes à sua condição física ao regressar de uma missão de seis meses na Estação Espacial Internacional. As longas permanências no espaço podem afectar profundamente o organismo. Fotografia Phillip Toledano.

Para além de desenhar o seu próprio foguete para viajar a Marte, a NASA tem trabalhado arduamente para assegurar o bem-estar dos passageiros. Em Março, por exemplo, o astronauta Scott Kelly e o cosmonauta russo Mikhail Kornienko regressaram à Terra após 340 dias passados na estação espacial. Na sua “Missão de um Ano”, foram cobaias em estudos sobre como as longas permanências no espaço (uma viagem de ida e volta a Marte poderá demorar quase três anos) podem afectar o corpo e a mente humana. Quando reentraram na atmosfera, recorda Mikhail, a sua cápsula Soyuz abanava como um automóvel a andar sobre uma estrada empedrada. Ele e Scott mal conseguiam respirar: após um ano a viver sem gravidade, os seus pulmões e músculos peitorais estavam fracos. E quando aterraram nas estepes do Cazaquistão, mal conseguiam andar. A equipa de terra transportou-os desde a cápsula, com medo que tropeçassem e partissem um osso. 

No slideshow: a evolução das ementas da NASA. Mas os amantes da gastronomia devem pensar duas vezes antes de se inscreverem… Fotografia Phillip Toledano, no Centro Espacial Johnson da NASA.

Os filmes de Hollywood transmitem o aspecto divertido da ausência de gravidade. Entrevistas com Scott e Mikhail a bordo da estação espacial dão indícios sobre o outro lado. Os seus rostos estão inchados, porque os líquidos não são drenados.Os astronautas podem habituar-se à necessidade de se atarem a uma sanita de sucção e até, diz Mikhail, a passarem um ano inteiro lavando-se com um pano molhado, dada a ausência de um duche. Numa viagem muito mais longa e perigosa até Marte, sem a opção de voltar atrás ou desistir, os efeitos exercidos pelo espaço no corpo humano podem representar um enorme problema. “Eles estariam doentes quando lá chegassem”, afirma Jennifer Fogarty, directora científica adjunta do Programa de Investigação Humana no Centro Espacial Johnson, da NASA, em Houston.

O módulo tripulado Orion faz parte do projecto “Viagem a Marte” da NASA, mas é demasiado pequeno para levar os astronautas ao destino. Nesta imagem, um técnico da Lockheed Martin prepara-se para projectar o som de 1.510 altifalantes sobre o Orion de modo a simular o ruído do lançamento. Fotografia Mark Thiessen, na Empresa de Sistemas Espaciais Lockheed Martin, Littleton, Colorado.

1 - ÂNIMO: A disponibilidade de espaço e alimentos contribuiria para o ânimo da tripulação. Culturas obtidas em “paredes verdes” poderiam completar a dieta à base de alimentos espaciais; 

2 - PROTECÇÃO: A radiação cósmica é um perigo para todos os que se encontram fora do alcance do escudo magnético da Terra. Paredes verdes cheias de água ajudariam a proteger os astronautas; 

3 - REPARAÇÕES: Sistemas essenciais para a navegação e para a reciclagem do ar e da água seriam mantidos no centro do módulo do habitat, facilitando a sua reparação e manutenção; 

4 - EXERCÍCIO: A vida em gravidade zero durante longos períodos de tempo tem repercussões sobre a mente e o corpo humano. A prática de exercício seria fundamental para a saúde física e mental.

SOBREVIVER À VIAGEM - Marte fica a 54 milhões de quilómetros, uma distância mais de 140 vezes superior à da Lua. O envio de astronautas exigiria um novo tipo de nave espacial capaz de alojá-los de forma confortável durante meses, protegê-los da radiação cósmica e transportar provisões para garantir a viagem de regresso. Esta ilustração, baseada num estudo da NASA, mostra um dos esquemas possíveis.

Gráfico: Jason Treat; Tony Schick.  Arte: Stephan Martiniere Fontes: James B. Garvin, Centro de Voo Espacial Goddard da NASA; Jason C. Crusan, Directório da NASA para Missões e Operações de Exploração Humana; Bret G. Drake, The Aerospace Corporation; Maria Banks, Instituto de Ciência Planetária.

 Os ossos deterioram-se em condições de gravidade zero. Por norma, perde-se 1% de massa óssea por mês. A prática de exercício físico rigoroso ajuda, mas o equipamento de grandes dimensões utilizado na estação espacial pesa demasiado para uma missão a Marte. Alguns astronautas da estação também sofreram problemas de visão graves, aparentemente porque o líquido retido no cérebro pressiona os seus globos oculares. O pior cenário é os astronautas pousarem em Marte com a visão desfocada e ossos quebradiços e partirem imediatamente uma perna. Teoricamente, o risco poderia ser reduzido fazendo a nave espacial girar depressa, substituindo a gravidade por força centrífuga. Contudo, os engenheiros da NASA defendem que isso acrescenta demasiada complexidade.

Bonecos de teste num modelo do Orion são equipados para um teste de queda numa piscina no Centro de Investigação da NASA em Langley. À semelhança dos módulos Apollo, o Orion amarará no oceano. Um dia poderá levar astronautas novamente até perto da Lua, mas não antes de 2021. Fotografia David C. Bowman, NASA.

 A radiação também representa um perigo. Os astronautas da estação espacial continuam maioritariamente protegidos pelo campo magnético da Terra. Numa viagem a Marte, porém, estariam vulneráveis à radiação proveniente das erupções solares e dos raios cósmicos. Estas últimas podem danificar particularmente o DNA e as células cerebrais, o que significa que os astronautas poderiam chegar a Marte com menos inteligência. Uma possibilidade seria revestir o módulo do habitat com uma camada espessa de água, ou mesmo plantas crescendo em terra, como escudo parcial contra a radiação. 

A simples manutenção do abastecimento de água potável e ar respirável é um desafio. Certo dia, no Centro Espacial Johnson, conheci Kenny Todd, cujo cargo é director de integração das operações da estação espacial.
A manhã ia a meio, mas ele já estava há muitas horas no escritório, tendo trabalhado a noite inteira para supervisionar um dos voos de carga não anunciados, mas de importância crítica. 

Alguma da água da estação espacial é obtida através da filtragem e reciclagem de urina e suor.

Alguma da água da estação espacial é obtida através da filtragem e reciclagem de urina e suor. Mas esses filtros podem entupir com cálcio proveniente da deterioração dos ossos dos astronautas e a água é, por vezes, contaminada por micróbios. “Trabalhar com urina exige muita minúcia”, resumiu Kenny. Os instrumentos que removem o dióxido de carbono da atmosfera da estação também se avariam, como praticamente todos os outros dispositivos a bordo. Na baixa órbita terrestre, isso não é muito grave, pois a NASA pode enviar peças de substituição. Uma nave espacial com destino a Marte só teria as peças suplentes que pudesse transportar. Todo o equipamento de suporte de vida teria de ser muito mais fiável do que é actualmente: basicamente indestrutível.

Isso não significa que ele não queira mandar pessoas a Marte. Nem que critique os sonhadores que estão prontos para partir amanhã de manhã. “Temos de começar por qualquer lado. Temos de começar pelo sonho”, afirmou. “E algures no tempo, as coisas tornar-se-ão reais.” O que implica resolver imensos problemas.

Isso inclui aspectos mais complicados, como a psicologia humana. “Tivemos tão bons resultados com as missões robóticas que pensamos ter tudo resolvido a nível de equipamentos”, comenta Jennifer. “Mas agora temos de considerar os indivíduos com consciência e vontade próprias que fazem parte desta equipa. Será que compreendemos mesmo todos os riscos que isso acarreta e lhes damos as ferramentas necessárias para lidar com eles?

A NASA está a trabalhar nessa questão realizando missões análogas na Terra. Visitei uma no Centro Espacial Johnson. No interior de um enorme armazém sem janelas, estava uma estrutura abobadada com três níveis, igualmente sem janelas, coberta com material à prova de som. Parecia um pedaço da estação espacial cuidadosamente embrulhado para uma viagem longa e perigosa. No interior, havia quatro voluntários fechados durante um mês e fisicamente isolados do mundo exterior. Treze câmaras instaladas no habitat permitiam aos investigadores do “controlo da missão”, a poucos passos de distância, observarem todos os seus movimentos e verem como eles lidavam com o isolamento. 

PRIMEIROS PASSOS - Os primeiros seres humanos a caminhar sobre Marte darão os seus passos num ambiente duro e implacável. A atmosfera rarefeita pode protegê-los parcialmente da radiação solar, mas precisariam de escudar-se dos raios cósmicos. Também teriam de utilizar os parcos recursos de Marte para obter oxigénio e água.

1 - Abrigo temporário: A NASA está a testar uma estrutura de suporte de vida flexível que recicla a sua água, atmosfera e resíduos. Serviria de alojamento aos astronautas enquanto os abrigos definitivos estivessem em montage;.2 - Abrigo de longo prazo: O envio de recursos para Marte pode ser árduo e caro. Uma das opções para a criação de abrigos definitivos implica a utilização do solo de Marte para fabricar materiais de construção; 3 - O fato Z-2: Os astronautas vestiriam e despiriam este fato espacial flexível através de uma “porta para fato” nas traseiras, com ligação directa ao exterior de um abrigo ou de um veículo móvel, ambos pressurizados; 4 - Locomoção: Os veículos móveis, capazes de manter duas pessoas vivas durante quinze dias e percorrer distâncias de 100 quilómetros de cada vez, poderiam ser utilizados no apoio a missões de exploração à superfície.

Imagem Jason Treat e Matthew W. Chwatyk; Tony SchiIck. Arte: Stephan Martiniere. Fontes: James B. Garvin, Centro de Voo Espacial Goddard da NASA; Jason C. Crusan, Directório da NASA para Missões e Operações de Exploração Humana; Bret G. Drake, The Aerospace Corporation; Maria Banks, Instituto de Ciência Planetária; Lindsay E. Hays, NASA/JPL.

 A simulação tem limites. “Como é óbvio, não temos um interruptor para gravidade zero”, afirmou a gestora de projecto Lisa Spence. Estes astronautas podem usar uma retrete com autoclismo e um duche. Mas Lisa e os colegas aspiram à máxima verosimilhança possível. Enquanto observávamos dois voluntários juntos dentro de uma câmara de descompressão obscurecida, usando viseiras de realidade virtual e dando um passeio espacial simulado, fomos conversando em voz baixa para não nos ouvirem. Uma enorme tempestade acabara de se abater sobre nós, com chuvas torrenciais e trovões ensurdecedores. Se alguém do interior do módulo perguntar sobre os trovões, “inventamos uma história qualquer sobre o clima espacial”, disse Lisa.

Segundo os peritos, uma missão a Marte exige determinado tipo de personalidade: alguém capaz de tolerar o isolamento e o tédio durante o longo trânsito e depois entrar em modo hiperactivo em Marte. Alguém mentalmente flexível e com excelentes capacidades de interacção social. Estas características podem ou não correlacionar-se com o facto de essa pessoa poder pagar 500 mil dólares, o valor pedido pela SpaceX. “Escolhemos pessoas pouco dadas a dramas. De outra forma, haverá certamente conflitos”, diz Kim Binsted, da Universidade do Hawai, que dirige outras missões análogas financiadas pela NASA. Na mais recente, seis voluntários foram fechados durante um ano numa cápsula simuladora do habitat marciano e colocados no interior de um vulcão. 

Na verdade, nenhuma experiência realizada na Terra consegue simular a sensação de estar trancado numa pequena lata a milhões de quilómetros de distância. William Gerstenmaier, director de voo espacial humano da NASA, observou algo nos astronautas a bordo da estação espacial. “Publicam imensas fotografias das suas terras natais no Twitter”, disse. “Fotografam os estádios de futebol das suas universidades. Existe um laço muito forte que os liga à Terra.”

Na verdade, nenhuma experiência realizada na Terra consegue simular a sensação de estar trancado numa pequena lata a milhões de quilómetros de distância.

Mikhail Kornienko sentiu-o. “Nem sequer é nostalgia. Isto não é uma viagem de negócios a outra cidade, em que sentimos a falta de casa e da família”, disse, pouco depois de regressar do seu ano em órbita. “É ter saudades da Terra como um todo. É diferente. Sentimos uma falta concreta do verde, como se não houvesse floresta suficiente, Verão, Inverno, neve.”

Em Junho, seis meses depois de a SpaceX fazer aterrar triunfalmente o seu propulsor, a NASA realizou o seu próprio teste a um foguete no Utah. Foi um “teste no terreno” de um propulsor com combustível sólido que integrará o Space Launch System, o foguete que a NASA utilizará um dia para levar seres humanos até ao espaço profundo. Milhares de pessoas reuniram-se a cerca de dois quilómetros, olhando atentamente para o céu limpo do deserto enquanto uma voz fazia a contagem decrescente. Atingido o zero, o propulsor, deitado de lado e bem preso ao solo, acendeu-se furiosamente.
O anunciador recordou aos espectadores que isto fazia parte da “Viagem a Marte” da NASA.
O jacto de chamas rugiu durante mais de dois minutos enquanto um enorme pilar de fumo subia pelo céu e os espectadores aplaudiam.

“Que dia espectacular!”, resumiu William Gerstenmaier na conferência de imprensa, mais tarde. E o teste foi realmente espectacular — tão espectacular quanto possível, tendo em conta que o foguete não voou.

“Estamos mais perto do que alguma vez alguém esteve, em tempo ou lugar algum, de enviar astronautas americanos a Marte”, escreveu o administrador-adjunto da NASA, Dava Newman, num blogue no passado mês de Abril. Para alguns críticos da NASA, as coisas nem sempre parecem ser assim. Certamente não terão parecido a Wernher von Braun, construtor do foguete lunar Saturno V. Em 1969, aproveitando a euforia que se seguiu à primeira alunagem, Von Braun apresentou um plano ao então presidente Richard Nixon para levar homens a pousar em Marte em 1982. Nixon preferiu mandar a NASA construir o vaivém espacial.

Desde então, têm-se sucedido planos grandiosos de viagens além da baixa órbita terrestre.

Desde então, têm-se sucedido planos grandiosos de viagens além da baixa órbita terrestre. William Gerstenmaier, que trabalha há décadas na NASA, sobreviveu aos solavancos estratégicos impostos pelas agendas políticas. Mandaram-no enviar novamente astronautas à Lua, depois mudaram de ideias, escolhendo um asteróide como destino, e depois o plano passou a ser capturar um asteróide para ser visitado pelos astronautas na órbita lunar. 

William permanece imperturbável. É um engenheiro discreto que não quer fazer promessas que não possa cumprir. Quer ir a Marte devagar, de forma metódica e sustentável. Isso significa a uma velocidade glaciar. “A afirmação de que a NASA tem uma estratégia [para ir a Marte] é um insulto à palavra ‘estratégia’”, declara Robert Zubrin, fundador da Mars Society, para quem a colonização de Marte é “a causa mais importante da nossa geração”. Michael Griffin, administrador da NASA durante o mandato de George W. Bush, defende que uma missão a Marte seria difícil, mas não mais difícil do que o Projecto Manhattan ou o programa Apollo: “Estamos mais perto de Marte, no que se refere à tecnologia necessária, do que estávamos da Lua quando Kennedy definiu esse objectivo em 1961.”

O veículo móvel Curiosity, da NASA, procura desde 2012 provas químicas da possibilidade de Marte ter, em tempos, suportado água. “O robot mais sofisticado alguma vez enviado para outro planeta”, segundo o antigo cientista-chefe John Grotzinger, não precisa de alimento ou água e nunca se sente só. E até tira selfies. Fotografia: NASA/JPL/Sistemas Malin de Ciências Espaciais; Imagem Composta Por 58 fotografias.

 No entanto, não estamos mais perto de conseguir pagar uma viagem até Marte e foram os custos que deitaram por terra os planos do passado. As alunagens da Apollo custaram cerca de 140 mil milhões de dólares em valores actuais. Os especialistas presumem que uma viagem a Marte custe pelo menos isso. E o orçamento anual da NASA para todos os voos espaciais tripulados por seres humanos é cerca de nove mil milhões de dólares. Chegar a Marte antes da década de 2040 exigiria muito mais dinheiro. No decorrer da corrida à Lua contra a União Soviética, a NASA recebeu mais de 4% do orçamento federal. Actualmente, recebe cerca de 0,5%. A competição contra a China numa “corrida a Marte” poderia ajudar, mas os chineses não parecem ter pressa de lá chegar.

Se e quando iremos a Marte não depende apenas de tecnologia e dinheiro. Depende também do nível de risco que considerarmos aceitável. Os defensores de uma viagem antecipada dizem que a NASA é demasiado adversa a riscos, que os verdadeiros exploradores aceitam a possibilidade do fracasso ou de morte. A NASA poderia enviar pessoas a Marte mais cedo…

No final da conferência de William Gerstenmaier no Utah, um repórter levantou-se. Tinha 49 anos, disse. E queria saber se veria um homem em Marte no seu tempo de vida.

Se e quando iremos a Marte não depende apenas de tecnologia e dinheiro. Depende também do nível de risco que considerarmos aceitável.

“Sim”, respondeu William. Hesitou por um instante e acrescentou: “‘Homem’ pode ser a palavra errada. Vai ver um ser humano.”

Após os aplausos, William Gerstenmaier explicou por que razão isso iria demorar até à década de 2040. A NASA precisava de iniciar o seu regresso ao espaço profundo com missões ao “Campo de Teste”, disse, ou seja, em volta da Lua e outros locais próximos no espaço. Isso conduziria à colocação de astronautas na órbita de Marte na década de 2030. “Quando penso nos desafios que implica pôr uma tripulação na superfície, isso acrescenta outra ordem de magnitude em termos de complexidade”, dissera-me ele previamente. “É isso que me empurra para lá da baliza temporal de 2030.”

É nesse aspecto que a SpaceX pode ajudar. É mais difícil conseguir um desembarque controlado em Marte do que na Lua. A sua gravidade é mais forte e a sua atmosfera é suficientemente densa para provocar sobreaquecimento. Várias sondas não-tripuladas já se despenharam em Marte. A NASA já conseguiu pousar um veículo móvel com quase uma tonelada, o Curiosity, mas uma nave suficientemente grande para transportar seres humanos e mantê-los abastecidos teria de ser do tamanho de uma casa e pesar, no mínimo, 20 toneladas.

De momento, a solução mais promissora é a tecnologia desenvolvida pela SpaceX: a retropropulsão sónica. Quando o propulsor Falcon 9 desce a velocidade supersónica através da camada superior da atmosfera, as condições assemelham-se às de Marte. O sucesso alcançado em Cape Canaveral em Dezembro e as subsequentes aterragens num navio em alto-mar, são as razões pelas quais tantas pessoas afirmam ser plausível enviar seres humanos para Marte, embora isso esteja longe de estar garantido.

No Centro Espacial Kennedy, a SpaceX arrendou a Plataforma de Lançamento 39A, a mesma de onde os astronautas da Apollo 11 partiram para a Lua. A empresa é jovem, ágil e ousada, como a NASA era em tempos. Mas as duas não são concorrentes. São parceiras. A SpaceX já fornece provisões à estação espacial numa cápsula Dragon transportada por um Falcon 9. Em Abril, Elon Musk anunciou que a SpaceX pretende enviar uma cápsula não-ocupada para Marte já em 2018. Para tal, precisará do apoio técnico da NASA, especialmente das suas antenas de rádio, que permitem comunicar com a Terra.

“Nunca existiu causa mais nobre”, declararam os fundadores da Mars Society em 1998. A organização defendia o envio de seres humanos para Marte “no espaço de uma década”. Hoje, gere um posto de investigação no Utah, onde as tripulações treinam numa paisagem que se assemelha a Marte, mas com uma atmosfera respirável. Fotografia Phillip Toledano.

 A SpaceX precisaria de muito mais para levar pessoas a Marte: os bilhetes de 500 mil dólares não cobrem grande parte dos custos e seria necessário o conhecimento da NASA para manter os viajantes vivos. Em contrapartida, a NASA poderia beneficiar dos foguetes, das cápsulas e do entusiasmo da SpaceX. Se algum dia forem a Marte, é provável que vão juntas. 

E quando irão? Se é uma parceria, é mais provável que sigam o calendário cauteloso da NASA. É muito mais fácil imaginar alguns cientistas a passarem um ano ou dois num pequeno posto de investigação marciano, como os existentes na Antárctida, do que imaginar milhares de pessoas a emigrarem para uma colónia em Marte a título definitivo. 

“A essas pessoas que acham que querem viver em Marte… gostaria de aconselhá-las a passarem um Verão numa estação do Pólo Sul”, sugere Chris McKay, especialista em Marte que já trabalhou na Antárctida. A sugestão de que os seres humanos podem encontrar refúgio em Marte depois de estragarem a Terra é “ética e tecnicamente absurda”, afirma. “Acho que precisamos de perceber que o fracasso não é uma opção. A noção de Marte como barco salva-vidas faz o final do Titanic parecer feliz.”

Mikhail Kornienko recomenda uma permanência de longa duração a bordo da estação espacial para refrear entusiasmos. Pouco depois de regressar do espaço este ano, recordou o momento em que a equipa terrestre abriu a escotilha da cápsula Soyuz. “O ar da estepe entra na cabina depois da descida atribulada e percebemos que aquilo tudo acabou”, disse. “E não conseguimos fartar-nos deste ar. É possível cortá-lo com uma faca e barrá-lo no pão.”

 HiRise, o nosso olho em Marte 

Uma câmara de alta resolução revela a verdadeira face do Planeta Vermelho

Texto Shigeo Otsuka   Fotografia NASA/JPL/Universidade do Arizona

Estranhas ravinas sinuosas parecem ter sido esculpidas manualmente e o padrão de listas negras e castanhas faz lembrar madeira queimada. Pinceladas rápidas e leves, elevações semelhantes a fendas das zonas costeiras, arcos brilhantes disseminados pelo solo fracturado... Todas estas imagens provêm da superfície de Marte, planeta onde talvez possamos estabelecer o nosso novo lar no espaço.

Estas imagens foram recolhidas por uma câmara de alta resolução, denominada HiRISE (Experiência Científica de Imagens de Alta Resolução). Instalada a bordo da Mars Reconnaissance Orbiter da NASA, a nave espacial lançada em 2005 para aprofundar o conhecimento de Marte através da observação minuciosa e para examinar possíveis zonas de desembarque, a HiRISE conta com um telescópio reflector de 50 centímetros (o maior lançado no espaço até à data) e uma resolução extraordinária de 0,3 metros por pixel, o que lhe permite captar imagens de objectos de uma dimensão inferior a um metro de diâmetro.

A HiRISE, o nosso olho em Marte, começou a funcionar há dez anos. Percorreu a chamada órbita polar (que passa por cima dos pólos Norte e Sul  marcianos) mais de 47 mil vezes e capturou mais de 250 mil imagens: até ao momento, cobriu mais de 2,4% da superfície de Marte.

Esta conquista tecnológica documenta os mesmos pontos repetidamente, permitindo detectar alterações específicas no solo em determinado momento ou estação. Graças às imagens de alta resolução, já conseguimos detectar importantes alterações na superfície do planeta que, de outro modo, jamais teríamos observado. Neste momento, a HiRISE continua a fotografar crateras e outras formações vulcânicas, vales e cordilheiras que, num passado remoto, poderão ter sido lagos e oceanos. Esta diversidade de paisagens ajuda a revelar a verdadeira face do Planeta Vermelho.

 

Olympus Mons

Ladeira norte de Olympus Mons. O diâmetro do maior vulcão do Sistema Solar mede mais de 620 quilómetros. Possui também uma enorme caldeira com cerca de três quilómetros de profundidade. Imagem NASA/JPL/Universidade do Arizona.

 

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