rocha china

Emily Harrington opta pela via mais difícil na escalada da Moon Hill, no Sul da China, um arco resultante de uma gruta que colapsou.

Uma galeria de grandes dimensões apresenta visibilidade máxima de cerca de cinquenta metros para a frente ou para cima. A neblina, ou o vazio, encobre o feixe mais luminoso. É natural que queiramos ver mais.

Texto de McKenzie Funk
Fotografias de Carsten Peter

Acocorados sobre o solo lamacento de uma das maiores galerias espeleológicas do mundo, não conseguimos ouvir nada para lá da nossa respiração e dos pingos da água ao longe. Não conseguimos ver para lá do vazio. Voltamos assim a atenção para o ecrã de um computador portátil ligado a um digitalizador a laser. A galeria de Hong Meigui revela-se. Flutuamos até ao seu tecto, que forma um arco 290 metros acima da lama rachada, no local onde nos acocorávamos para evitar o feixe do digitalizador. Pairamos sobre um lago. Aterramos sobre uma praia no lado oposto.

“Parece o Google Earth”, exclamo.

“É mais parecido com o filme ‘Matrix’”, rebate Daniela Pani, a geóloga da Sardenha que manuseia o computador.

A versão digital da gruta é mais real do que a realidade. As grutas verdadeiras são escuras. Extremamente escuras. Mesmo equipados com modernas lanternas LED várias vezes mais luminosas do que as antigas, uma galeria de grandes dimensões apresenta visibilidade máxima de cerca de cinquenta metros para a frente ou para cima. A neblina, ou o vazio, encobre o feixe mais luminoso. É natural que queiramos ver mais.

Andy Eavis quis ver mais e por isso veio para a região meridional da China há mais de trinta anos. Aqui, no país então ainda enclausurado, situava-se a maior concentração da topografia cársica: dolinas, torres de pedra, pináculos florestados e rios que foram desaparecendo ao longo dos séculos, à medida que a água da chuva dissolvia um leito rochoso geralmente de calcário. Escondida no interior e por baixo desta paisagem montanhosa verdejante (o mesmo cenário emblemático que vemos nas pinturas tradicionais chinesas), localizava-se a maior concentração de grutas do planeta ainda por documentar.

Foi por esse motivo que Andy regressou mais uma vez à China, desta feita carregando sacos de espeleologia envelhecidos pelo uso, repletos de computadores, baterias e um digitalizador 3D a laser. Dentro de uma gruta, a tecnologia consegue captar informação indisponível para o olho humano. O plano de Andy era passar um mês em pelo menos duas das maiores galerias do mundo, ligar o digitalizador e cartografá-las com exactidão pela primeira vez. Este inglês com quase 70 anos de idade é frequentemente reconhecido como a pessoa viva que descobriu mais quilómetros de território. As expedições que liderou documentaram 530 quilómetros de passagens novas. “É por isso que pratico espeleologia”, diz. “Para explorar. Na espeleologia, podemos ser os primeiros. Se ainda existissem países ou continentes por explorar, eu exploraria.”

Actualmente, Andy preside à Associação Britânica de Espeleologia. Em 1982, visitou pela primeira vez a China. Deteve-se então em Guilin, a capital chinesa do carso, no Sudeste distante do país, mas não dispunha de muito tempo antes de iniciar o regresso a casa, após uma expedição à Indonésia. A cidade rodeada de cumes e a região adjacente de Guangxi eram então muito diferentes: havia bicicletas, mas poucos automóveis, camponeses, acompanhantes oficiais para os estrangeiros. Andy e o seu colega conseguiram evitar o programa turístico e conversaram com funcionários do Instituto de Geologia Cársica, marcando o início de uma relação que levaria espeleólogos britânicos e chineses a explorar o calcário nas três décadas seguintes. O ritmo das descobertas foi fenomenal.

Desta vez, Andy encontra-se em Guilin acompanhado por dez espeleólogos internacionais. Quando chegamos, somos recebidos por um zunido de táxis e motorizadas numa cidade a transbordar, com quase um milhão de habitantes. A nova China é surpreendente, sobretudo para dois membros da equipa. Richard Walters e Peter Smart visitaram Guilin com Andy em 1985 e 1986, nas primeiras de duas dezenas de expedições que viriam a transformar-se no pioneiro Projecto das Grutas da China. Nenhum deles regressara aqui desde então.

Richard é empresário de telecomunicações e tem a missão de ajudar a manusear o digitalizador com Daniela Pani, que em missões anteriores descobriu destroços de navios da Segunda Guerra Mundial no Mediterrâneo e colaborou na formação de astronautas nas grutas da sua Sardenha natal. Peter é um cientista de renome, um especialista em carso que se reformou da Universidade de Bristol em 2009. Usa uma barba profissional e tem óculos perpetuamente tortos. Nesta campanha, mostra-se entusiasmado com a inovação da digitalização a laser, porque de outra forma “a espeleologia é como olhar através de um vidro escuro”. Apesar de todas as mudanças acontecidas na China, à medida que avançamos para oeste de Guilin, em direcção às maiores galerias, descobrimos que a descrição da paisagem feita por Peter Smart ainda se mantém adequada: “Vista de cima, parece uma caixa de ovos”, diz.

Matt, Cedar e Emily equilibram-se num pináculo na Floresta de Pedra. Depositado num mar de baixa profundidade há 270 milhões de anos, o calcário foi desgastado por fortes chuvadas tropicais.

Especulamos que a galeria de Hong Meigui, a primeira que tencionamos digitalizar, terá o tamanho aproximado de oito campos de futebol. É a oitava maior galeria conhecida do mundo, numa lista elaborada em 2012, e esperamos resolver a sua classificação em termos de volume com a nossa campanha. A base para a primeira fase da expedição não é um acampamento subterrâneo, mas um hotel antigo de tamanho industrial na cidade de Leye, que tinha cinco mil habitantes aquando da primeira incursão do Projecto das Grutas da China. A população actual é várias vezes superior. Agora, chegam mais de 160 mil turistas por ano para visitar a vizinha Dashiwei Tiankeng, uma dolina com 610 metros de largura e 610 metros de profundidade, descoberta pelos cientistas do Instituto Cársico em 1998 e explorada pelo Projecto dois anos depois. O museu local mostra uma fotografia de Andy Eavis.

Todos os dias viajamos de automóvel até Hong Meigui, deixando os carros num parque de estacionamento não muito longe da cidade, onde nos vestimos e nos equipamos com arneses, capacetes e lanternas de capacete. Caminhamos durante um ou dois minutos até uma abertura de aspecto banal na encosta florestada. Depois de passarmos por uma cisterna de betão, utilizada pelos agricultores para armazenar a água que pingava de um tecto saliente no alto, a gruta torna-se subitamente mais fria, mais íngreme e mais escura. Em pouco tempo, estamos noutro mundo.

Duas curtas descidas em rappel foram previamente preparadas por Tim Allen e Mark Richardson. O resto do percurso faz-se a pé. Durante quase uma hora na primeira descida, sigo a mulher de Tim, Jane Allen, outra espeleóloga experiente, por uma escadaria de lagos que reluzem sob a luz das lanternas e por uma passagem semelhante a um tubo onde a superfície parece – e por vezes certamente é – um rio de lama.

Sentimos vertigens e familiaridade ao entrar em Hong Meigui. Consigo ver que é grande simplesmente por não conseguir ver muito; a minha luz já não é reflectida pelo tecto ou pelas paredes. Partículas flutuam no ar, pois nem o vento consegue aqui chegar. Um rochedo do tamanho de um camião despenhou-se aqui, caído de um local dramaticamente alto, e a sua cratera encontra-se debruada por uma onda de choque de lama. A equipa chama-lhe “o meteorito”. Algures do outro lado da câmara, vê-se balouçar o feixe de luz da lanterna de outro colega. Só quando começo a subir uma encosta de cascalho identifico o solo. Atendendo ao tamanho da encosta, à lentidão a que avançamos e aos acidentes do terreno, parece que estou a escalar uma montanha numa noite sem estrelas.

Devido à forma irregular das grutas, torna-se difícil decidir onde acaba cada galeria e onde se traçam as fronteiras. O que é uma galeria e o que é uma mera passagem? Esta questão semântica é um tema de discussão constante entre os membros da expedição, pois um dos eventuais objectivos da digitalização 3D (a classificação das maiores galerias do mundo em termos de volume) é impossível se os exploradores das grutas não concordarem sobre uma definição técnica.

A maior câmara conhecida é a de Sarawak, na Malásia, que Andy Eavis e dois colegas descobriram em 1980 e ajudaram a digitalizar em 2011. O seu volume é de 9,57 milhões de metros cúbicos.

Quando volto a apanhar a equipa de digitalização, o grupo está na lama rachada junto ao “meteorito”, não muito longe da margem do lago e de uma parede escarpada de calcário que conduz ao telhado oculto da câmara. Esta é uma das 17 estações de digitalização de Hong Meigui. O digitalizador emite pulsações de laser e mede o tempo que demoram a ser reflectidas. As distâncias são facilmente determinadas com base na velocidade da luz. O nosso modelo é um Riegl VZ-400, utilizado em arquitectura, engenharia e extracção mineira e agora, pela primeira vez, em espeleologia. É um cilindro metálico com a dimensão aproximada de uma cabeça humana e pesa 9,5 quilogramas, excluindo as duas baterias de quatro quilogramas, o tripé, o computador e os cabos. Em modo operacional, coloca-se aproximadamente ao nível dos olhos e roda 360 graus, realizando 122 mil medições por segundo de tudo o que se encontra num raio de 610 metros.

Para montar a estação de digitalização, Richard Walters utiliza um prumo de bolso para assegurar a nivelação do tripé, orienta o digitalizador com uma bússola e depois retira um computador portátil de uma mala impermeável e entrega-o a Daniela Pani, que se senta sobre a lama com o computador ao colo. Andy Eavis encontra-se por perto, tentando acelerar o processo. Ligam um cabo azul-esverdeado ao computador portátil e carregam num botão do digitalizador a laser, que ganha subitamente vida, rodando silenciosamente a cabeça enquanto a equipa parece suster o fôlego.

Três minutos depois, os resultados surgem no computador portátil. A reprodução é a preto e branco e de baixa resolução. Mas é deslumbrante. Acocoramo-nos na lama, na escuridão, olhando para o ecrã luminoso e Daniela conduz-nos através da gruta virtual. Consigo finalmente ver onde estou. Vivo uma experiência extra-sensorial.

À medida que a expedição avança para duas outras grandes galerias, Miao e Titan, somos recordados de que Hong Meigui é uma raridade na China por razões que ultrapassam a sua própria escala. Explorada pela primeira vez em 2001 por espeleólogos estrangeiros, a galeria não tinha uma única pegada humana antes da sua chegada, talvez porque os dois penhascos da entrada desencorajavam os autóctones. Muitas grutas do Sul da China têm uma história humana que remonta, no mínimo, às dinastias Qin e Han, há dois milénios. As explorações dessa época procuravam o chi, ou energia vital, que se acredita existir em grande abundância nas regiões cársicas. As estalagmites e os lagos formados por depósitos calcários também forneciam ingredientes para afrodisíacos e remédios antigos; as galerias das grutas tornaram-se locais de oração. Ainda hoje, as entradas das grutas são utilizadas pelos agricultores para armazenar e secar cereais.

No caminho para Hong Meigui, tínhamos parado em Fengshan, oito horas a oeste de Guilin, uma cidade integrada nos 930 quilómetros quadrados do novo Geopark Leye-Fengshan. Ali encontrámos uma grande gruta municipal, Chuanlongyan, com uma estrada com duas faixas, um museu ao ar livre e um anfiteatro público. Certa tarde, enquanto descia a estrada vi um jovem casal que parara a moto num canto isolado do parque de estacionamento do museu e se beijava na escuridão. “É o melhor uso que se pode dar a uma gruta”, admitiu o espeleólogo francês Jean Bottazzi.

Jean, Andy e Peter mostraram digitalizações em bruto de grutas locais a um funcionário público de Fengshan. Ele perguntou imediatamente se eles seriam capazes de identificar as secções instáveis de determinada gruta. Andy aproveitou a dica utilitária e anuiu. Peter acrescentou: “Poderiam isolar as zonas perigosas com cordas para manter os turistas em trilhos seguros.” Como se depreende, o florescimento do turismo da região cársica, alimentado pela crescente classe média chinesa e por uma nostalgia de paisagens icónicas, está presente na mente de todos.

Em Fengshan, também vimos famílias com coletes salva-vidas cor de laranja transportadas rio abaixo por barqueiros, ululando ao passarem por estalactites em grutas de tecto baixo. Dez horas a norte, o Parque Nacional de Ziyun Getu He Chuandong já atrai escaladores. Quando regressamos de Leye e Hong Meigui, há operários a escavar um trilho turístico nas paredes altas da gruta de Yanzi, assim denominada devido às andorinhas que nidificam nessas mesmas paredes. O trilho conduz a um elevador novo. Em Getu, digitalizamos aquela que é considerada a segunda maior galeria do planeta em área: Miao, de tamanho equivalente a 22 campos de futebol.

Matt e Cedar descem do Grande Arco, no Parque Nacional de Ziyun Getu He Chuandong, ao pôr do Sol. Um elevador de vidro leva os visitantes até à base do arco. “A China tem uma maneira diferente de abordar as coisas”, explica Cedar.

Certo dia, desloco-me com Andy e Daniela a uma aldeia aninhada no interior de uma gruta. Vinte e uma famílias habitam casas de bambu sem telhado mas com um campo de basquetebol. Segundo nos disseram, o número de turistas recebido todas as semanas já é suficiente para que os habitantes da gruta sejam pagos pelo Estado para lá permanecerem, em vez de se mudarem para casas modernas noutro local.

Antes de partirmos de Getu, viajando de automóvel rumo a sul até ao nosso objectivo de digitalização final, a galeria Titan, o norte-americano Michael Warner, membro da equipa, tenta determinar o sentido da nossa presença no local. Todas as galerias em que estivemos já tinham sido visitadas antes por espeleólogos ou por agricultores, observa. Por isso, não se tratou de uma descoberta. “A exploração implica documentar algo pela primeira vez”, decide Michael. “A digitalização a laser é a melhor forma até hoje concebida de documentar uma gruta.”

Titan é a gruta perfeita para a digitalização a laser. No centro da sua galeria, vertentes cobertas de detritos e sarapintadas de charcos elevam-se até duas estalagmites gémeas com 15 metros de altura. Se instalarmos o digitalizador em cima da estalagmite grande do lado direito, é possível captar Titan quase na totalidade. Num único movimento de 360 graus, abrangemos cerca de cinco hectares, uma área ligeiramente maior do que Hong Meigui. Depois do ponto alto, havia mais estalagmites, uma formação assombrosamente parecida com a cabeça de um crocodilo e um lago subterrâneo que seca e se transforma num leito de lama enquanto por lá andamos.

Quando regressamos à superfície, sujos e exaustos, pensamos que a expedição chegou ao fim, mas Andy reserva-nos uma surpresa final: um cruzeiro pela paisagem cársica, descendo o rio Li, a principal atracção turística de Guilin, com paragem numa gruta cujo primeiro levantamento foi realizado pela sua equipa em 1985. Ele fez o cruzeiro em 1982, quando existia meia dúzia de navios. Agora há algumas centenas por dia, cada um com cem turistas a bordo. Milhares de pessoas enchem a galeria Crown.

O rio Li ainda é belo, mas depois de Titan, a galeria Crown é desconcertante. Somos conduzidos até à entrada em grupos de 20 elementos, cada um seguindo uma guia com um microfone e um megafone que grita para se fazer ouvir sobre a cacofonia. No interior, as estalagmites e lagos estão iluminados com luzes garridas. Há trilhos e corrimãos e, em algumas galerias, pequenas lojas de recordações. A meio da galeria existe um elevador de vidro. A guia apressa-nos para formarmos fila e embarcarmos no comboio subterrâneo, que nos levará até à fila para a viagem de barco subterrânea, durante a qual passaremos por uma montanha russa e atravessaremos pontes sobre o rio.

Andy fica para trás, fotografando. Já esteve sozinho na galeria Crown, cartografando-a. Agora, encontra “isto”. “Isto desorienta-o?”, pergunto-lhe. “Não”, diz. Os turistas usam agora as suas próprias máquinas fotográficas, documentando cada canto da gruta tornado visível pela luz artificial. Para os turistas, é uma espécie de exploração. Para Andy Eavis, é o acto mais natural do mundo.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar