cientistas

ASTROFÍSICA. Rebecca Oppenheimer criou um dispositivo de imagem que procura planetas fora do Sistema Solar no Telescópio Hale. 

A grande maioria dos cientistas famosos são homens. Desde 1901, 96,7% dos laureados com o Prémio Nobel foram homens. Ainda hoje, menos de 30% das investigadoras científicas do mundo são mulheres, segundo um relatório da ONU. A sua conclusão: “Cada degrau da escada do sistema de investigação científica assinala um decréscimo da participação feminina até poucas mulheres restarem nos mais altos escalões da investigação e da tomada de decisão do mundo científico.” 

Texto: Angela Saini

Ilustrações: Lauren Brevner

“Tenho algo para lhe dizer.”

Estava pronta para voltar para casa, após uma palestra sobre o “Inferior”, o meu livro [sem tradução portuguesa] que documenta a história do sexismo no mundo científico e as suas repercussões na actualidade. Uma mulher de voz suave abordou-me então. Disse-me que estava a fazer o doutoramento em ciências da computação numa universidade britânica e que era a única mulher do seu grupo. O seu orientador estava constantemente a fazer piadas sexistas. Nunca a escolhia para participar em workshops ou conferências.

Elas sempre estiveram cá. “Tive de ligar o modo ‘mandona’ algumas vezes”, disse Joann Morgan sobre a sua carreira de 45 anos na NASA. Joann era a única mulher da sala de controlo no Centro Espacial Kennedy durante o lançamento da Apollo 11, em Julho de 1969. Meio século mais tarde, ainda há muitos obstáculos para as mulheres no mundo científico. No entanto, as mulheres aqui representadas e o trabalho que desenvolveram no último século continuam a impressionar e a inspirar. Algumas não receberam os devidos créditos em tempo real, mas felizmente a história está a lembrar-se delas agora. Nas palavras de Marie Curie, “a vida não é fácil para ninguém. E então?”

“Todas as interacções são desconfortáveis para mim. Sinto-me intimidada”, disse-me. “Na maior parte das vezes, dou por mim a contar os minutos.” O seu plano era concluir os últimos anos do doutoramento, sair da universidade e nunca mais olhar para trás.

Já tive centenas destes encontros fugazes com mulheres cientistas e engenheiras por todo o mundo, nos dois anos que passaram desde a publicação do meu livro. Descobri que, quando me abordam em eventos para partilhar discretamente as suas histórias, estas interlocutoras querem sobretudo empatia. Desejam que lhes diga que não estão a imaginar o seu sofrimento. Os seus relatos sobre discriminação, marginalização, assédio e abusos reforçam esta realidade, sublinhando que, apesar dos progressos, ainda há muito por fazer.

84% das mulheres cientistas juniores relataram episódios de assédio durante sessões de trabalho de campo e 86% relataram agressões num inquérito conduzido junto de mais de 660 pessoas que trabalham em 32 disciplinas das ciências da vida, físicas e sociais.

Há muito que a comunidade científica apresenta um historial lamentável no que diz respeito às mulheres. O próprio Charles Darwin descreveu as mulheres como seres intelectualmente inferiores ao homem. No Iluminismo europeu, no final do século XVIII, presumia-se que não havia lugar para as mulheres no meio académico. Muitas universidades recusaram-se mesmo a conceder graus a mulheres até ao século XX. A minha Universidade de Oxford esperou até 1920. Foi preciso esperar até 1945 para que a Royal Society de Londres – a mais antiga academia de ciências ainda em funcionamento – admitisse mulheres como membros. Como comenta a historiadora Londa Schiebinger, “durante quase trezentos anos, a única presença feminina permanente na Royal Society foi um esqueleto preservado na colecção anatómica da Sociedade”.

A norma em todo o mundo científico tem sido a seguinte: os homens assumem o mérito de investigação feita por mulheres que trabalham a seu lado – não apenas colegas, mas por vezes esposas e irmãs. Foi por isso que, numa data tão recente como 1974, a astrofísica pioneira Jocelyn Bell Burnell perdeu um Prémio Nobel pelo seu trabalho na descoberta dos pulsares, que viria a ser atribuído ao seu supervisor, Antony Hewish. No ano passado, num extraordinário gesto de grandiosidade, ao receber o Special Breakthrough Prize in Fundamental Physics, Bell Burnell doou a totalidade dos 2,7 milhões de euros recebidos para criar bolsas de estudo para mulheres e outros grupos sub-representados na física.

Mesmo em sectores científicos onde as portas se abriram, a vida para as mulheres não costuma ser fácil. O sexismo e a misoginia permanecem abertamente ou de forma subtil. Uma análise recente à autoria de quase sete mil ensaios em publicações com revisão de pares concluiu que, quando o co-autor que supervisionava o estudo era uma mulher, cerca de 63% dos co-autores eram mulheres, em média, enquanto com um co-autor supervisor homem, cerca de 18% dos co-autores eram mulheres.

Não é, portanto, de admirar que as mulheres se mostrem exasperadas com a situação e desejem que o cenário mude. No ano passado, a física Jess Wade, do Imperial College de Londres, e a investigadora Claire Murray lideraram uma campanha de crowdfunding para levar um exemplar do “Inferior” a cada escola pública do Reino Unido. Atingiram o alvo em duas semanas. Campanhas semelhantes foram conduzidas em Nova Iorque, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. À semelhança de Bell Burnell, outras mulheres doaram o seu próprio dinheiro para mudar um sistema que não parece regenerar-se por si.

Por que razão é tão difícil para as mulheres cientistas melhorarem este historial? Como podemos constatar pelas histórias que ouvi, pelo menos parte do problema reside em certos homens e nas instituições que permitem o sexismo. É sabido que há mais raparigas e jovens mulheres a escolherem cursos na área da ciência e da tecnologia, mas os números vão diminuindo acentuadamente à medida que se avança no percurso académico. A gravidez e a educação dos filhos desempenham um papel nesta tendência, mas não são os únicos factores. Um estudo realizado este ano pela Universidade de Cardiff revelou que, mesmo tendo em consideração as responsabilidades familiares, os homens continuam a alcançar patamares elevados na academia britânica mais depressa do que as mulheres.

Um físico meu conhecido, militante dos direitos das mulheres, descobriu recentemente um bilhete dactilografado no seu cacifo do local de trabalho. O autor chamava-lhe palerma por presumir que as mulheres possuem o mesmo “equipamento mental” que os homens e afirmava que “as mulheres não conseguem pensar em termos abstractos como os homens”. Estas afirmações fazem as mulheres sentir-se indesejadas no mundo científico. No entanto, quando as mulheres se afastam destes campos, reduzimos o problema a frase ocas e não fundamentadas.

O sexismo do quotidiano é óbvio.

A outra nuvem, ainda mais negra, que paira sobre a comunidade científica e o mundo académico é o assédio sexual. O fenómeno global do #MeToo chamou a nossa atenção para sobreviventes de agressões sexuais e colocou os maus-tratos e o bullying na linha da frente. Há razões para crer que estas situações são mais generalizadas do que parecem. Os dados que sustentam as experiências contadas informalmente por mulheres têm vindo a aumentar. Quando Kathryn Clancy, da Universidade de Illinois, e os seus colegas inquiriram mais de 660 cientistas sobre as suas experiências de trabalho de campo, 84% das mulheres cientistas juniores relataram episódios de assédio e 86% relataram agressões. Este inquérito foi um dos primeiros a expor a possível profundidade do problema.

A física Emma Chapman, vencedora de uma bolsa Dorothy Hodgkin da Royal Society, sediada no Imperial College de Londres, foi de tal forma afectada pela sua experiência de assédio por um colega sénior quando estava no University College de Londres que se tornou uma defensora assumida de mulheres na mesma situação. “Dei por mim no meio de uma cultura muito desconfortável”, diz. A informalidade facilmente passava dos limites, com abraços indesejados e intromissões na vida pessoal.

Um processo de investigação acabou por resultar numa providência cautelar restritiva da proximidade desse homem durante dois anos. Emma Chapman teve de assinar um acordo de confidencialidade e o seu agressor manteve o emprego. “Os despedimentos são cada vez mais raros”, diz-me. No entanto, ela acha que teve sorte porque, em quase todos os casos que conhece, as carreiras das mulheres acabam quando elas se atrevem a abrir a boca.

Segundo cálculos de Emma Chapman, cerca de cem mulheres abordaram-na desde que começou a trabalhar com o Grupo 1752, uma pequena organização britânica que quer pôr fim à má conduta sexual no meio académico. A sua maior batalha é convencer as universidades a apoiarem as vítimas em vez de encobrirem os perpetradores. 

Este sentimento é confirmado pela investigadora australiana de microbiologia Melanie Thomson, ela própria vítima de assédio sexual. Em 2016, Melanie diz ter visto o astrofísico Lawrence Krauss, na altura na Universidade Estadual do Arizona, apalpar uma mulher numa conferência. “Ela deu-lhe uma cotovelada na barriga”, recorda. Melanie apresentou queixa formal e, em 2018, a Universidade de Krauss confirmou que ele infringira a política de assédio sexual da instituição.

O problema não está circunscrito a estes escassos homens, diz Emma Thomson. “É colossal. É particularmente insidioso no mundo científico.”

O jornalista especializado em ciência Michael Balter, que escreve sobre casos de assédio sexual, diz que o comportamento persiste parcialmente porque “o mundo científico é muito hierárquico. Temos o chefe do laboratório ou do instituto e eles têm imenso poder”, comenta. “A democratização da ciência e uma diminuição dos diferenciais de poder poderá exercer grande peso na resolução de muitas situações erradas.”

Michael Balter diz que é delicado do ponto de vista legal investigar alegações de assédio, o que leva a que muitos casos de má conduta sejam difíceis de documentar. Azeen Ghorayshi, uma jornalista do “BuzzFeed News”, passou por isso em 2015, ao publicar um relatório sobre acusações de assédio sexual contra o proeminente astrónomo Geoff Marcy, nessa época colaborador da Universidade da Califórnia. A “fama” de Marcy era tão ampla que as mulheres da instituição desencorajavam outras mulheres de trabalharem com ele. No entanto, é tão difícil as mulheres verem reconhecidas as suas alegações de má conduta que, quando Geoff Marcy foi, finalmente, investigado e punido, descobriu-se que infringia as políticas de assédio sexual da universidade há quase uma década.

Azeen Ghorayshi diz-me que, desde que escreveu sobre Geoff Marcy, foi abordada por dezenas de outras mulheres, um indício de que o problema é “comum nas principais instituições dos Estados Unidos e de outros países”. Em muitos casos, as mulheres envolvidas abandonaram a área. “É uma questão de vulnerabilidade, de quem é vulnerável e de quem é intocável”, resume. Segundo Emma Chapman, as universidades precisam de pensar mais cuidadosamente no seu compromisso com a igualdade. 

No mundo científico moderno, continua a existir um pressuposto implícito de que as carreiras das jovens mulheres são descartáveis e que os homens mais velhos têm de ser protegidos a todo o custo, mesmo que isso signifique encobrir comportamentos inaceitáveis e pôr mais pessoas em perigo. Enquanto tolerarmos esta situação, o preço a pagar será elevado.

O prejuízo, já de si terrível, não afecta apenas os indivíduos. A comunidade científica também é lesada.

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