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A busca terminara e começava nova etapa. O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) aproveitou o Dia do Investigador para juntar todos os fragmentos desta narrativa, convidando especialistas para partilharem o seu quinhão de conhecimento. «Parecia uma sessão encenada durante muito tempo», brincou António Carvalho, o director. «Fiquei agradavelmente surpreendido pelo facto de a ‘estreia’ ter corrido tão bem, quando o ‘elenco’ nunca tinha ensaiado em conjunto. Só o conhecimento profundo do tema por parte dos participantes e uma noção clara das capacidades e do trabalho de cada um deles, permitiu uma boa ‘arrumação’ dos ‘actores’.»

Teresa Caetano partilhou os passos percorridos nos arquivos distritais de Beja e Setúbal em busca das origens da Sociedade Archeologica Lusitana, Maria de Jesus Monge e Marta Páscoa contaram as vicissitudes reveladas pelo arquivo documental de Dom Fernando e Hugo Xavier deu conta da informação recolhida em Sintra e na Ajuda. Outros especialistas nacionais acrescentaram informação de contexto. O arqueólogo Virgílio Hipólito Correia acrescentou informação de contexto: tratar-se-ia de uma representação de xenia, cena de hospitalidade e cortesia.  Na figuração, existem duas cestas simétricas rodeadas de alimentos: uma com alimentos marinhos e outra com alimentos da terra e aves. O polvo está trespassado pelo tridente, indício claro de que está morto. As pequenas aves que figuram igualmente na decoração estão presas num arco pelas cabeças, prontas a serem consumidas. Seria certamente uma representação de disponibilidade de alimento e de acolhimento ao visitante.

Ontem, o antigo director do Museu de Conímbriga aproveitou para explicar ao Presidente da República a raridade do artefacto. «Haverá meia dúzia como esta no mundo», disse Virgílio Correia. «Dom Fernando tinha razão, mesmo não dispondo de toda a informação que hoje conhecemos: a taça era de facto raríssima.» O especialista aliás não tem dúvidas. «A taça revela que os motivos artísticos no mundo romano atravessam regiões e suportes e podem ser encontrados em pintura, em mosaico e também na decoração de um artefacto desta natureza.»

Após confirmação da autenticidade do artefacto, iniciou-se uma nova fase. O Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares do Instituto Superior Técnico promoveu um estudo pormenorizado da taça, recorrendo a microscopia óptica e a espectroscopia de raios X por dispersão em energia (EDXRF). A análise química permitiu concluir que «a taça foi produzida com uma liga de prata com apenas 3% de cobre e uma lâmina de ouro relativamente puro», explicou o investigador Pedro Valério.

A peça foi entretanto restaurada pela empresa Archeofactu. Está exposta a partir de agora numa vitrine especial do Museu Nacional de Arqueologia e, no dia 14 de Março, será transferida para o Castelo de Vila Viçosa, onde está instalada a colecção de arqueologia do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.

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Marcelo Rebelo de Sousa, ele próprio antigo Presidente da Fundação Casa de Bragança, saudou «a colaboração e solidariedade registadas pelo clã da arqueologia portuguesa que, chegado o momento de unidade nos momentos cruciais, não se recusa a colaborar».

O Presidente da República registou ainda uma particularidade esquecida deste artefacto há muito procurado pelos historiadores. «Ao contrário de exemplares contemporâneos, agrada-me muito que taça não tenha sido decorada com representações bélicas. É uma manifestação de solidariedade ao estrangeiro, de acolhimento àquele que chega. Melhor lembrança não nos poderia ser dada pela história passada para o tempo presente.»

 

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