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Texto: Gonçalo Pereira Rosa

No mês em que se comemoram os 125 anos do Museu Nacional de Arqueologia, a comunidade arqueológica apresenta ao Presidente da República os resultados da cooperação que permitiu a descoberta de uma taça muito especial.

«A taça passou de mito a realidade», resumiu António Carvalho, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), na sessão conduzida nas instalações da instituição. Na presença do Presidente da República e da ministra da Cultura, um dos artefactos mais desejados da história da arqueologia portuguesa foi apresentado publicamente, adquirindo especial simbolismo porque se comemora este mês o 125.º aniversário do MNA.

Nas suas novelas, Sir Arthur Conan Doyle punha em prática o célebre axioma da navalha de Occam: a explicação mais simples para um problema é normalmente a correcta. Há cerca de dois anos, Maria Teresa Caetano, investigadora do Instituto de História da Arte da Universidade de Lisboa, foi desafiada a escrever um artigo para a revista «Al Madan» sobre o contributo do rei Dom Fernando II (1816-1885) para a arqueologia portuguesa. 

Em 1850, o rei aceitara o repto de um grupo de entusiastas setubalenses e ajudara a financiar, juntamente com o primeiro duque de Palmela, a Sociedade Archeologica Lusitana (SAL), uma associação de benemerência cívica constituída por comerciantes, proprietários e funcionários de Setúbal que se propunha realizar desaterros em Tróia, pondo as ruínas à vista, na expectativa de fazer do local a Pompeia portuguesa.

Tróia tinha então grande simbolismo. O próprio duque de Palmela, italiano de nascença, assistira às escavações de Herculano e Pompeia, em Itália. «Acreditava-se que Tróia poderia ser a Cetóbriga mencionada no Itinerário Antonino e que as suas ruínas romanas poderiam aspirar à grandeza das de Pompeia», contou a historiadora.

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Em 1814, o colapso de uma falésia pusera a descoberto um cofre de chumbo em Tróia. No interior, entre outras peças, encontrou-se uma bela taça ornamentada. A história remete-nos para o imaginário sherlockiano. O artefacto foi certamente vendido pelo achador ao governador de Setúbal. À morte deste, deverá ter sido adquirido pelo duque de Palmela aos herdeiros e, em 1850, figurou com proeminência nos «Anaes» da nova sociedade científica. Com espírito coleccionista, Dom Fernando II acompanhou as peripécias. Foram mandados fazer moldes de gesso para pedir opiniões à comunidade académica europeia. O prestigiado arqueólogo eslovaco Shimko, amigo pessoal do rei, foi consultado. «Não custa especular que o duque terá então oferecido a taça ao rei, que se mostrara tão interessado pelo objecto», sugeriu Maria de Jesus Monge, directora do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança, conservadora de muito do espólio museológico e documental da última dinastia real portuguesa.

Já na posse de Dom Fernando, foram encomendadas peritagens (algumas das quais descuidadas). Em 1865, um fotógrafo do South Kensington Museum, num périplo pelas melhores colecções da Península, fotografou o artefacto – como o comprova uma imagem descoberta pelo investigador Hugo Xavier nas colecções do Museu Victoria e Albert. Hugo Xavier, conservador do Palácio Nacional da Pena, está a realizar o levantamento das colecções artísticas do rei e encontrou documentação de Dom Fernando referindo-se ao objecto como «raríssimo e precioso». «Não há dúvida de que Dom Fernando sabia bem o que ali tinha, mas o mesmo não se pode dizer dos autores dos arrolamentos posteriores dos bens reais», continuou Maria de Jesus Monge.

A partir deste ponto, o conhecimento disponível esbarrava num beco sem saída. A peça pura e simplesmente não se encontrava nas colecções conhecidas. Temia-se que pudesse ter sido dispersada para o estrangeiro ou desviada para uma colecção particular. À data da Implantação da República, em 1910, o acervo sobrevivente dos últimos reis da Casa da Bragança foi arrolado com displicência. Na descrição sumária do artefacto, foi então registado que se tratava de uma peça antiga, ornamentada, mas com defeito. O rasto da taça esfumava-se aí.

«Tornou-se uma peça arrumada na prateleira, tão esquecida como o inventário dos bens da família real», disse ontem Maria de Jesus Monge à plateia. 

Maria Teresa Caetano acreditava que a solução mais simples poderia passar por um erro de catalogação. Não se sabia o destino da peça desde que ela estivera nas mãos da Casa de Palmela e os descendentes contemporâneos ignoravam por completo as desventuras do artefacto. «Fiz um cálculo razoável: imaginei que o duque, conhecedor do gosto clássico de Dom Fernando, poderia ter tido a amabilidade de oferecer a taça ao amigo», disse. A Fundação da Casa de Bragança foi contactada em busca de mais informação sobre a Sociedade Arqueológica Lusitana. Poderia a taça permanecer nas reservas da Fundação da Casa de Bragança?

A arquivista Marta Páscoa localizou no Arquivo Histórico da Casa de Bragança documentação comprovativa do envolvimento de Dom Fernando como mecenas da Sociedade Archeologica Lusitana, mas da peça parecia não haver rasto. Teresa Caetano encontrou os magníficos desenhos de 1850, que representam a peça votiva no seu máximo esplendor, e publicou-os na «Al Madan». «Quando vi as imagens que acompanhavam esse texto, fez-se um clic na minha mente», disse Maria de Jesus Monge. «Já tinha visto aquelas figurações.»

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Desenhada magistralmente para um volume dos “Anaes” da Sociedade Arqueológica Lusitana em 1850, a taça foi reconhecida como um artefacto de grande significado histórico. Os desenhos, aliás, testemunham (à esquerda e em cima) que a degradação do objecto foi produzida nos últimos 150 anos. Desenhos: “Anaes da Sociedade Arqueológica Lusitana”, composição de duas imagens, desenhos do Padre Gama Xaro.

Nas reservas do Museu de Vila Viçosa, encontrava-se uma velha taça. A descrição do inventário referia apenas «uma tigela de metal antiga, com ornamentação em relevo. Com defeito.»  Perdera-se a referência a Tróia ou ao percurso atribulado do objecto. «Pensei primeiro que seria uma cópia», reconheceu ontem Maria de Jesus Monge. «Percebemos que remontava às colecções reais porque ainda tinha (e tem) apostos os selos do Arrolamento Judicial do Paço das Necessidades de 1910, mas a informação de contexto era inexistente.»

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