À esquerda, uma muralha verde dissolve-se no cinzento carregado do céu. O casco da piroga escavada a golpes toscos de machado desliza na água morna do oceano. O timoneiro de ascendência cabo-verdiana usa a mão direita para dirigir o motor de 15 cavalos e a esquerda para controlar a linha de pesca. A piroga negoceia a cava da onda e eleva-se na crista batendo com o casco e produzindo um som seco. A linha do equador define o horizonte. Uma hora e meia de viagem separa Santa Catarina de São Miguel na costa sudoeste da ilha de São Tomé.

Texto de Alexandre Vaz Publicado em fevereiro de 2012

MartimMelo

Essa área da ilha não é servida por estradas ou caminhos e a pé seria preciso, no mínimo, um dia de marcha para lá chegar. Na primeira metade do século XX, os portugueses mantinham aqui uma fortificação e abriram caminhos que possibilitavam o acesso a partir de Porto Alegre, mas há muito que a floresta engoliu esses vestígios. Das muitas casas abandonadas a partir da crise do cacau na década de 1950, restam agora ruínas quase imperceptíveis. Toda esta região fica actualmente dentro do Parque Natural do Obô, que cobre cerca de um terço da ilha.

Estamos em plena gravana (estação seca), mas aqui a precipitação anual pode atingir 7.000mm e vamos percebendo que a estação seca é, na realidade, um eufemismo para “estação menos húmida”. Localmente, as diferentes manifestações climáticas têm uma nomenclatura peculiar: há a “chuva-tubarão”, que ataca de surpresa e com grande violência, e a “chuva-mulher”, que é persistente e aborrecida.

À passagem da Ponta Furada, o mar torna-se mais alteroso. As três pirogas que transportam nove passageiros navegam com prudência, mas a água que embate no casco projecta-se no ar e ensopa os que seguem à proa. Ao entrar na baía de São Miguel, o mar acalma. Ao longe, alinhadas na praia, vêem-se rudimentares cabanas dos vinhateiros que aqui recolhem vinho de palma para ser vendido em Santa Catarina. Foi perto daqui que o então jovem naturalista português Francisco Newton capturou em 1890 os dois exemplares de bigo-grossudo de São Tomé que viriam a ser destruídos no incêndio do Museu Bocage de 1975. Sobrou um exemplar, capturado dois anos antes na costa leste e que permanece ainda hoje no Museu de História Natural Britânico. Passaram entretanto cem anos até a espécie voltar a ser avistada na década de 1990. E em 2003 o ornitólogo Martim Melo, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), conseguiu por fim capturar um indivíduo.

O bico-grossudo é uma ave discreta e difícil de distinguir de outra espécie que localmente é apelidada de pardal mas que, na realidade, é um fringilídeo da família do chamariz e do verdilhão. O processo de especiação do bico-grossudo configura um exemplo raro de especiação simpátrica. A pressão evolutiva é, na maioria dos casos, ditada pelo isolamento geográfico que acontece nas ilhas ou com o avanço e recuo de habitats favoráveis em consequência de alterações climáticas. Aqui, porém, aparentemente uma população divergiu dos seus antepassados por simples pressão ecológica. É precisamente para compreender esses factores que investigadores da Universidade do Porto e da Universidade de Lund, na Suécia, aqui vêm, com o apoio da National Geographic. Esta espécie em particular está entre as menos conhecidas e mais raras do mundo.

Desde finais da década de 1990 que Martim Melo vem aqui regularmente. Nesta ilha, o trabalho de campo coloca desafios particulares. Em 1928, José Correia, um ex-pescador de bacalhau nos mares do Norte convertido em colector do Museu de História Natural Americano, desembarcou na ilha. Correia escreveu um diário de que transportamos uma cópia. Escrito em inglês rudimentar, dá conta das agruras destas paragens vividas por aquele homem teoricamente habituado a climas adversos. A descrição é dantesca e envolve tubarões, tarântulas e cobras venenosas cuja mordedura é fatal, a chuva incessante e o equipamento permanentemente molhado, o nevoeiro cerrado, a lama escorregadia, as veredas e precipícios traiçoeiros e as doenças tropicais.

No passado, Martim capturou três bicos-grossudos que permitiram estabelecer o parentesco entre esta espécie e a congénere de menores dimensões, mas o desenvolvimento da genética permite agora uma análise com maior resolução, pelo que é importante recolher mais amostras. Percorremos durante cinco dias o vale do rio Iô Grande e as encostas vizinhas, avistando dois bicos-grossudos mas sem hipótese de os capturarmos. As montanhas sobranceiras à baía de São Miguel são um dos locais em que as observações são mais prováveis.

O desembarque faz-se a meio do dia. Reorganiza-se a bagagem e começa-se a caminhada em direcção ao interior. Pelo caminho, os guias deitam a mão a cocos verdes para matar a sede e a maduros para enganar a fome. Apanham pau-pimenta para temperar o jantar, fruta-pão para assar na fogueira e sobretudo búzio-do-mato. Da copa de uma árvore, ouve-se de repente o piar de um bico-grossudo que não se deixa ver.

O rápido crepúsculo por volta das 17 horas trava a nossa progressão. Não conseguimos chegar à cumeada desejada e acampamos a meio caminho. À noite, a escuridão é total e, se não fosse a gravidade, teríamos dificuldade em distinguir o solo do céu. No entanto, quando os olhos se habituam, emergem pontos luminosos do chão da floresta. Bolores microscópicos e pequenos cogumelos luminescentes crescem na madeira em decomposição.

Na manhã seguinte, duas equipas partem em direcções opostas, fazendo pontos de escuta e observação. Levanta-se o acampamento e prossegue-se viagem. Se durante a marcha paramos para apertar um atacador, em poucos segundos perdemos o resto do grupo, pois os guias avançam sem se deter. A maior parte do caminho é feito a tagarelar, mas, quando o caminho se torna incerto, desce o silêncio. Concentrados, os guias encontram rastos imperceptíveis ao nosso olhar destreinado. O destino faz jus à sua reputação e à chegada somos brindados com algumas observações de bico-grossudo. Montam-se redes que durante dois dias capturam mais de cem aves, mas apesar de todo o esforço, apenas um bico-grossudo cai na rede. Nem só desta espécie é feito este trabalho. Para compreender a lógica deste sistema é preciso estudar as diferentes populações do pardal de São Tomé, que constituem também um modelo evolutivo interessante. Ao contrário do seu parente mais raro, o pardal de São Tomé está presente não só aqui mas também na ilha do Príncipe e no Boné do Jóquei que é um pequeno ilhéu de 30 hectares a dois quilómetros e meio ao largo desta última. A genética mostrou que, apesar de o bico-grossudo ser morfologicamente diferente do seu parente, filogeneticamente encontra-se mais próximo dos pardais com que divide a ilha do que os pardais das diferentes ilhas entre si. Mais uma vez, os avanços das técnicas genéticas prometem agora ajudar a compreender melhor o que realmente se está a passar e por isso a equipa embarca com destino à ilha do Príncipe.

Com um comprimento máximo de 16 quilómetros e pouco mais de três mil habitantes, a ilha tem quase metade da sua área protegida. Os investigadores começam pelo Boné do Jóquei ou ilhéu Caroço, assim baptizado devido à sua peculiar forma. O ilhéu é inabitado e o desembarque faz-se lentamente, esperando que a vaga permita que cada um de nós salte à vez para as rochas da margem. Monta-se o acampamento e as redes de anilhagem. Os pardais saltitam, curiosos, pelas rochas à beira-mar e caem nas redes em abundância. Minúsculas amostras de sangue são recolhidas. Ao cair da noite, milhares de caranguejos terrestres saem das tocas e somos obrigados a pendurar a bagagem nas árvores para ficar a salvo das suas afiadas tenazes.

O Sol nasce sob um raro céu azul, mas para leste a ilha do Príncipe permanece coberta por um pesado manto de nuvens. O barco volta para nos levar para Praia Cará, que tem uma enseada protegida por rochas que permite o desembarque. Mesmo assim, com a maré baixa, somos forçados a completar os últimos metros a nado. Por sorte, uma piroga de pequenas dimensões está na praia e com ela fazemos o transbordo das bagagens. Depois de obtidas as biometrias e um conjunto satisfatório de amostras de pardais em São Tomé, no Boné e agora no Príncipe e de cruzar essa informação com as diferenças de habitat, vai ser possível compreender melhor os factores que contribuem para a divergência dessas populações.

O interesse ornitológico deste arquipélago não se esgota nestas espécies. Apesar do número relativamente reduzido de espécies de aves no país (cerca de 140), a sua taxa de endemismo é admirável: 28 não existem em mais nenhum lugar do mundo. Estes dados não são irrelevantes porque, das cerca de dez mil espécies de aves no mundo, um quarto são endémicas de regiões bastante restritas (com menos de 50.000km2) que, agregadas, cobrem cerca de 5% da superfície terrestre. Das 218 áreas de aves endémicas classificadas internacionalmente, 77% localizam-se nas regiões tropicais ou subtropicais e cerca de metade corresponde a territórios insulares. São Tomé e Príncipe concorre assim com o maior número de espécies por unidade de superfície.

Ricardo Lima, um ornitólogo português actualmente a concluir um doutoramento na Universidade de Lenkaster sobre o impacte que as práticas agrícolas e florestais têm nas aves de São Tomé, cruzou o número de espécies endémicas de ilhas oceânicas com o número de estudos publicados sobre elas. É por isso com propriedade que comenta: “As aves deste país não têm tido a atenção que mereciam.” No arquipélago das Galápagos, que conta com 13 ilhas e uma área total cerca de oito vezes maior, as espécies de aves endémicas são apenas 22, sobre as quais foram encontrados 193 estudos publicados que contrastam com apenas seis sobre as aves de São Tomé e Príncipe. Ao financiar esta expedição, a National Geographic está assim a contribuir para corrigir a assimetria.

A meio dia de marcha para leste, fica o rio Porco. Nesta região, não se vê vivalma. Subimos em direcção ao interior até aos 300 metros de altitude. Aqui, os papagaios-cinzentos são numerosos e vocalizam energicamente do alto das copas. Martim Melo não persegue agora bicos-grossudos ou pardais. Desde 1998, ano em que trabalhou na tese de mestrado sobre papagaios, o biólogo regressa ciclicamente a este local. Vem aqui com a forte suspeita de que a vigésima nona espécie endémica do arquipélago pode estar escondida nesta floresta. Em 1928, José Correia escreveu numa carta aos seus colegas do Museu que, apesar de não ter visto nenhum mocho, os locais referem a presença de um na ilha. Correia suspeitava que poderiam ser precisos dez anos até o encontrar.

Na verdade, este prognóstico revelou-se bastante optimista, já que a procura continua 83 anos mais tarde. Os relatos da existência de uma ave cuja descrição corresponde a um mocho não abundam, mas são persistentes. Por si, isso não seria extraordinário. Em São Tomé e no continente, existe um mocho endémico do género Otus e ele é conhecido por voar longas distâncias e colonizar ilhas longínquas. Não seria portanto surpreendente que alguns indivíduos viessem cá parar, explicando assim os testemunhos recorrentes. O problema é que à noite, nesta zona da ilha, Martim tem ouvido repetidamente uma vocalização vinda das copas no timbre em tudo idêntica à dos mochos mas cuja estrutura do canto em nada se assemelha à das espécies conhecidas. A comparação dos sonogramas com os de outros mochos idênticos revela isso mesmo, e inclusivamente foi feita a comparação com as vocalizações de rãs florestais, já que na Europa, por exemplo, existem anuros (rãs, relas e sapos), que vocalizam numa gama de frequências idênticas à de alguns mochos. Os resultados parecem sugerir a existência de uma espécie inédita. Desta vez, munida de poderosas lanternas e de gravações efectuadas em visitas anteriores a equipa espera ansiosamente pelo cair da noite. Primeiro distante, depois mais próximo e cantando em uníssono, as vocalizações ressoam do alto da copa. Durante duas noites, as lanternas percorrem a folhagem que se eleva a mais de trinta metros de altura em busca de um par de olhos. Mas a ilha não está ainda pronta para revelar este segredo e assim a equipa regressa a São Tomé. O desafio de José Correia continuará válido durante mais algum tempo.

Num derradeiro esforço para aumentar o número de amostras, Martim Melo ruma a outro ponto, a meio caminho do Pico de São Tomé, que se eleva a 2.024 metros de altitude. Um bico-grossudo é avistado no local exacto onde fora recentemente observado. Durante dois dias, ronda as redes sem se deixar capturar. O biólogo português acusa alguma frustração ao constatar o investimento na deslocação e permanência de uma esquipa de investigadores, mas é forçado a aceitar que “o trabalho em regiões pouco estudadas com terreno adverso e espécies raras é feito de pequenos progressos”. Este arquipélago guarda ainda muitos segredos por revelar e, no momento da partida, fazem-se planos para a próxima expedição.

As baleias-de-bossa começam entretanto a passar a curta distância da costa e, de manhã, encontram-se nas praias os primeiros rastos das tartarugas-marinhas que aí vêm depositar os seus ovos. A gravana está a chegar ao fim e, em breve, chegará a chuva-tubarão.

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