“Todos temos a ideia de que o clima está a mudar. Existe a convicção, provada por dados climáticos, dessa mudança, caracterizada fundamentalmente por um aquecimento que devia levar ao recuo dos glaciares. O curioso é que no College Fjord, no Alasca, há um glaciar que avança. Aliás, é extremamente curioso, porque lado a lado, há dois glaciares com comportamentos diversos”. Foi para tentar compreender o comportamento dos dois principais glaciares deste fiorde, um dos muitos do estreito do príncipe Guilherme, na costa sul do Alasca, que o geógrafo Lúcio Cunha, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Coimbra e bolseiro da National Geographic-Portugal, passou nove dias, em Julho de 2005, na região.

Texto de Margarida Pinto Publicado em dezembro de 2006

LucioCunha

A expedição integrou sete investigadores portugueses e americanos e foi coordenada por três elementos: ao geomorfologista Lúcio Cunha, juntaram-se João Santos, estudante de mestrado em glaciologia da Universidade de Coimbra, e Greg Wiles, dendrocronologista (estabelece a cronologia de uma paisagem com base no estudo e datação dos anéis dos troncos das árvores vivas e mortas), do College of Wooster, Ohio. Este cocktail de contributos permitiu à equipa recolher dados que estão agora em fase de análise laboratorial. Com eles, os investigadores pensam poder explicar o comportamento antagónico dos glaciares do College Fjord: o Yale (que, como a maioria dos glaciares do mundo, está em regressão) e o Harvard (em progressão). Além disso, poderão compreender a história glaciar recente do fiorde e estabelecer algumas etapas da evolução que se seguiu à desglaciação, iniciada há 10.000 anos, e, mais especificamente, das transformações ocorridas nos últimos 300 a 400 anos.

“Para qualquer geomorfologista, o estudo dos glaciares é importantíssimo”, diz Lúcio Cunha. “E para mim, que trabalho muito na serra da Estrela, a compreensão da paisagem actual da serra, em especial o sector superior, passa pelo estudo dos glaciares [que ali existiram há milhares de anos]: ver como evolui uma paisagem depois da desglaciação, a marca que deixam os glaciares e os seus depósitos, como e quando se inicia a colonização pela vegetação. Neste contexto, o Alasca é um laboratório interessantíssimo, que permite observar os mecanismos associados à transformação climática global”.

As análises laboratoriais e os trabalhos em curso passam pela elaboração da cartografia geomorfológica do fiorde, pelo estudo sedimentológico das amostras de depósitos glaciares e lacustres, pela análise dendrológica e palinológica (da constituição e dispersão do pólen e dos esporos, incluindo os fossilizados) e por datações com carbono 14. Os resultados preliminares confirmam o avanço do glaciar Harvard, um dos dois braços em que se abre a cabeceira do fiorde. O outro é o glaciar Yale. Os dois terminam directamente no mar.

Se o recuo rápido do Yale (5 a 6km em 40 anos) é explicado pelo processo de aquecimento climático, o avanço do de Harvard (cerca de 2km nos mesmos 40 anos) parece resultar da elevada alimentação que recebe de um afluente, o glaciar Radcliffe, e por existir uma moreia submersa (uma acumulação de detritos transportados e depositados pelo glaciar) que impede o seu contacto com a água e que dificulta a fusão do gelo.

“O avanço resulta do comportamento natural do glaciar. Há naturalmente um ‘vai e vem’, que não tem de ser síncrono em todos os glaciares. Neste caso, digamos que há um em fase de ‘vai’ e outro em fase de ‘vem’”, explica Lúcio Cunha. Assim, o próprio recuo do Harvard pode ser resultado de um aquecimento natural e não induzido pelo aquecimento global que decorre do aumento do efeito de estufa. Isto porque o Holocénico, o período de desglaciação iniciado há 10.000 anos e no qual nos encontramos, é considerado um tempo interglaciar. Aqui reside a “última réstia de controvérsia” entre os investigadores do aquecimento do planeta. Algo que “todos os cientistas da terra” estão interessados em esclarecer, conclui o bolseiro da National Geographic-Portugal.

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