É o maior sítio arqueológico do Paleolítico Superior em Portugal. Regista ocupações regulares entre 25 mil e 6 mil anos antes da nossa era. Neste intervalo, um abrigo rochoso em Vale Boi, a poucos quilómetros de Vila do Bispo, no Algarve, foi escolhido por caçadores-recolectores provavelmente porque, a poucas centenas de metros, teria existido uma lagoa de ligação ao mar, que teria alterado o teor salino da água e que funcionou certamente como pólo de atracção para os animais. Do abrigo, num ponto mais elevado da serra, seria possível visualizar e caçar os animais que ali iam beber.

Texto de Gonçalo Pereira Publicado em abril de 2007

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Em Portugal, escavam-se mais sítios arqueológicos em grutas do que em abrigos ao ar livre. Este abrigo de rocha, porém, contém pistas inéditas sobre as trocas culturais a que estas comunidades se dedicavam. Actualmente, a estrutura só pode ser reconstituída digitalmente, uma vez que a pala semicircular, que fornecia protecção ao local, tombou há vários milhares de anos.

À entrada do abrigo rochoso, uma lareira permitiria não só o aquecimento como a assadura de carne. Não seria uma estrutura muito ampla: partindo do princípio de que seria circular ou oval, teria aproximadamente 50cm de diâmetro.

As campanhas arqueológicas descobriram também diversas ferramentas de caça e adornos improvisados, construídos sobretudo em osso ou em concha de molusco.

Toda esta informação, recolhida pela equipa do arqueólogo Nuno Bicho, permitiu a reconstituição rigorosa do sítio arqueológico de Vale Boi, tal como ele terá sido há cerca de 20 mil anos.

Não é necessária muita imaginação para especular sobre os motivos que terão levado comunidades sucessivas de caçadores-recolectores a instalarem-se nesta elevação. Do topo do abrigo, perscrutam-se quilómetros em todas as direcções. O mar dista algumas centenas de metros, e os registos geológicos revelam que, no Paleolítico Superior, existiria uma lagoa nas proximidades, pelo que qualquer animal que se dirigisse à fonte de água potável teria de caminhar pelo canhão de acesso, a algumas dezenas de metros do abrigo.

Nuno Bicho, arqueólogo da Universidade do Algarve e bolseiro da NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY, descobriu o sítio arqueológico, juntamente com outros colegas, numa campanha de prospecção de 1998. Como este, identificou outros sítios promissores na zona costeira do Algarve, mas provavelmente não adivinharia que dedicaria boa parte dos nove anos seguintes a Vale Boi.

Com quase cem metros de comprimento, num declive com 20 metros de variação, o sítio arqueológico é maior do que o tradicional (13 mil metros quadrados). “Mais importante do que a dimensão do sítio é a preservação orgânica, que neste caso foi muito razoável. É raro em Portugal escavar um sítio arqueológico de ar livre com esta capacidade de preservação orgânica e de ossos”, diz o investigador. No local, poderão ter convivido mais de uma dezena de indivíduos. Na zona superior, mais plana e sob a cobertura da pala de calcário, a escavação identificou ocupações quase contínuas. Nas zonas menos elevadas, no declive, já se identificaram três áreas de despejo de lixo, zonas onde se acumulam materiais orgânicos e não orgânicos abandonados pelos residentes e que contêm uma torrente de informação.

“Sabemos hoje que, há cerca de 25 mil anos, boa parte da dieta desta comunidade era à base de recursos marinhos, o que não é frequente em nenhum sítio arqueológico do mundo deste período”, diz Nuno Bicho. “Lapa, berbigão, amêijoa e mexilhão. A proximidade do mar tornava abundantes estes recursos.”

No contexto da arqueologia da pré-história em Portugal, a descoberta de grandes quantidades de artefactos de osso – sobretudo anzóis e outros materiais de pesca ou caça – não é muito invulgar. Mas a equipa de Nuno Bicho pasmou com a descoberta de pontas de flecha do Solutrense (cerca de 20 mil anos) com claras afinidades culturais com as dos grupos do mesmo período que viviam entre Gibraltar e Valência. “Esperávamos que estas comunidades partilhassem tecnologias com grupos que viviam na actual Estremadura portuguesa, mas temos agora bons motivos para acreditar que estes grupos do Algarve tinham mais relações sociais com regiões ocidentais do que com grupos geograficamente mais próximos, a norte”, explica o arqueólogo. A semelhança dos materiais e das técnicas de criação parece suportar a tese da agregação de determinadas comunidades no contexto paleolítico, unidas por laços culturais e que pontualmente se reuniriam. Pela sua dimensão, Vale Boi poderia ser um desses locais de agregação.

Sistematicamente, os arqueólogos experimentados preferem refrear as expectativas dos jornalistas quando se fala em achados espectaculares. Em Vale Boi, porém, é o próprio Nuno Bicho que admite que há um achado que se destaca dos demais. Uma pequena placa gravada, com menos de vinte centímetros de largura, é o motivo do alvoroço. Foi descoberta praticamente sem fragmentos e apresenta, pelo menos, três desenhos sobrepostos de herbívoros com os quais estes caçadores-recolectores conviviam regularmente. Os desenhos foram cuidadosamente reproduzidos por uma equipa de investigadores espanhóis (à esquerda). “No contexto da arte móvel do Paleolítico, a placa conta uma história que não conseguimos escutar”, explica Nuno Bicho. Para que serviria? É difícil dizer. Talvez para anotar boas caçadas. Talvez tivesse uma função ritual. Para já, é mais um elemento de um puzzle com largos milhares de anos e cuja investigação terá novo capítulo no próximo Verão.

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