Pecados do mar de Aral

Texto  Mark Synnott   Fotografias  Carolyn Drake

Mar de Aral 1977
Mar de Aral 1987
Mar de Aral 1998
Mar de Aral 2006
Mar de Aral 2010
Mar de Aral 2014
Um homem poda um ulmeiro, árvores resistentes à seca, em Kazanketken, Usbequistão.
Na aldeia usbeque de Kubla-Ustyurt, onde o mar quase desapareceu, os aldeãos dependem agora da caça.
Os pastores vão conduzindo as ovelhas pelas terras ressequidas do Karakalpakstão.
No Cazaquistão, um sector do antigo leito marinho transformou-se numa depressão salgada.
Um pescador cazaque é carregado para um barco em Tastubek onde, graças à barragem, ainda é possível pescar.
Em Aqbasty, no Cazaquistão, um aldeão banha-se numa nascente de águas termais.
Em Muynoq, no Usbequistão, o mar recuou, a vegetação não tetéu o solo e as tempestades de areia são vulgares.
No Museu Histórico de Aral, no Cazaquistão, está exposta uma carpa, uma das espécies desaparecidas na década de 1980.
Aldeãos celebram um casamento em Tastubek, onde as condições de vida estão a melhorar devido à barragem.
Cada um destes barcos costumava capturar toneladas de peixe todos os anos.

É com isto que o fim do mundo se parece”, diz Yusup Kamalov, varrendo num gesto a paisagem coberta de arbustos que se espraia diante dos nossos olhos. “Se alguma vez acontecer o Armagedão, o povo do Karakalpakstão será o único a prevalecer, porque já está a vivê-lo.”

Do alto de uma falésia arenosa nesta região do Norte do Usbequistão, com um nome tão provável que poderia provir de uma banda desenhada de Hergé, o panorama poderia ser o de quase qualquer deserto, excepto pelos montes de conchas marinhas e barcos de pesca em seco, encalhados, enferrujando sobre a areia. Este lugar foi, antigamente, a ponta de uma península que entrava pelo mar de Aral. Até à década de 1960, era a quarta maior superfície de água do mundo, abrangendo cerca de 67 mil quilómetros quadrados. Atrás de nós, situa-se a vila de Muynoq, uma antiga aldeia piscatória próspera com uma grande indústria conserveira que, na década de 1980, enlatava milhares de toneladas de peixe por ano. Há 50 anos, a costa meridional do mar de Aral localizava-se exactamente onde hoje pomos os pés: agora, fica 90 quilómetros para noroeste.

O mar de Aral está implantado entre o Cazaquistão e o Usbequistão e, durante milhares de anos, foi alimentado por dois rios – o Amu Darya e o Syr Darya. Sem escoamento, o nível das águas do mar era mantido graças a um equilíbrio natural entre o afluxo de água e a sua evaporação.

Yusup trouxe-me aqui para eu ver o que restava de um mar outrora rico. Este investigador especialista em energia eólica da Academia das Ciências do Usbequistão é, aos 64 anos, um ambientalista militante. Preside à União para a Defesa do Mar de Aral e do Amu Darya e descende de uma influente família usbeque: o seu pai foi um historiador famoso na era soviética e o avô foi o último khan (chefe) eleito da república semiautónoma do Karakalpakstão, antes de esta ser integrada na República Soviética Socialista do Usbequistão durante a década de 1930.

O seu país ainda não possui um único parque eólico, mas isso não fez esmorecer o entusiasmo de Yusup pela sua área profissional de eleição. A obsessão pelo vento levou-o a construir duas asas-delta, com as quais costuma voar para melhor compreender as correntes atmosféricas.

“Quero conhecer o vento tão bem como uma ave”, afirma. Mas os seus interesses abrangem todas as componentes do ambiente: por isso, Yusup pôs de lado a sua investigação para me mostrar o que resta hoje de uma antiga massa de água cheia de vida e sobretudo o rasto que as águas em retrocesso deixaram para trás.

O mar de Aral está implantado entre o Cazaquistão e o Usbequistão e, durante milhares de anos, foi alimentado por dois rios – o Amu Darya e o Syr Darya. Sem escoamento, o nível das águas do mar era mantido graças a um equilíbrio natural entre o afluxo de água e a sua evaporação.

Durante séculos, o mar de Aral e os seus deltas asseguraram o sustento de uma miríade de povoados distribuídos ao longo da Rota da Seda, que unia a China à Europa. Estas antigas populações de tajiques, usbeques e cazaques e outros grupos étnicos prosperaram como agricultores, pescadores, pastores, mercadores e artesãos.

A situação alterou-se quando a República Soviética Socialista dos Usbeques passou a fazer parte do então frágil império soviético, na década de 1920, e Estaline decidiu transformar estas repúblicas da Ásia Central em gigantescas plantações de algodão. O clima árido desta zona do planeta está mal talhado para acolher uma cultura tão sedenta de água e os soviéticos desenvolveram um dos mais ambiciosos projectos de engenharia da história mundial, escavando à mão milhares de quilómetros de canais de irrigação para transvasar as águas do Amu Darya e do Syr Darya para o deserto circundante.

“Até ao início da década de 1960, o sistema manteve-se estável”, explicou Philip Micklin, quando o contactei por telefone. Professor de geografia na Universidade de Western Michigan, Philip passou a sua carreira a estudar questões associadas à gestão dos recursos hídricos na antiga União Soviética. Realizou cerca de 25 viagens à Ásia Central. Ao longo dos anos, foi assistindo, em primeira mão, à destruição do mar de Aral. “Quando, na década de 1960, acrescentaram ainda mais canais, aconteceu a proverbial gota de água que fez transbordar o copo”, afirmou. “De repente, o sistema deixou de ser sustentável. Os engenheiros sabiam bem o que faziam, mas não tinham consciência das consequências ecológicas em toda a sua amplitude, nem da rapidez com que o mar desapareceria.”

Os cazaques e os usbeques seguiram rumos divergentes a partir de 1987, quando o mar de Aarl se dividiu em duas metades. A finalização da barragem de Kokral, no Cazaquistaão, em 2005, agravou a separação, revitalizando o mar setentrional mas isolando o mar meridional do rio Syr Darya.

Em 1987, o nível das águas baixou drasticamente, dividindo o mar em dois: um mar setentrional, localizado no Cazaquistão, e um mar meridional, nas fronteiras do Karakalpakstão. Em 2002, o mar meridional ficou tão baixo que se dividiu em mares oriental e ocidental. No passado mês de Julho, o mar oriental secou por completo.

A única luz brilhante nesta triste saga é a recuperação recente do mar setentrional. Em 2005, após financiamento do Banco Mundial, os cazaques finalizaram a construção de uma barragem de 13 quilómetros na margem sul do mar setentrional, criando assim uma superfície de água totalmente distinta, alimentada pelo Syr Darya. Desde a construção da barragem que o mar setentrional tem recuperado mais depressa do que se previa. Mas a barragem separou o mar meridional das suas fontes de abastecimento de água, tornando o seu destino definitivo. 

“O aspecto mais frustrante da tragédia do mar de Aral é que os funcionários soviéticos do Ministério dos Recursos Hídricos que projectaram os canais de irrigação sabiam que o estavam a condenar”, afirma Yusup. Entre as décadas de 1920 e 1960, os funcionários costumavam citar o mais famoso climatologista da Rússia, Alexander Voeikov, que certa vez se referiu ao mar de Aral como “evaporador inútil” e “erro da natureza”. O senso comum soviético dessa época entendia que as culturas agrícolas valiam mais do que o peixe.

E as colheitas do algodão subsistem até aos dias de hoje. Todos os outonos, cerca de dois dos 29 milhões de cidadãos do Usbequistão oferecem-se como “voluntários” para a safra de três mil milhões de quilogramas da cultura nacional de algodão. O país encerra praticamente as portas, enquanto funcionários públicos, crianças em idade escolar, professores, médicos, enfermeiros, engenheiros e até cidadãos idosos são conduzidos aos campos para colher a sua quota diária.

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