Ricardo Araújo e Rui Castanhinha

Texto de Ricardo Araújo e Rui Castanhinha Publicado em fevereiro de 2013

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Numa sociedade matriarcal, é a “rainha” que nos explica: “Temos culpa por não termos feito ainda a cerimónia, os espíritos estão sempre atentos.” Nessa mesma noite, juntamo-nos em sua casa para que algumas galinhas pudessem ser sacrificadas e comidas pela comunidade. Toda a aldeia é convidada. Os olhos dos mais velhos reflectem as chamas do lume ali perto. Parte em português, parte em jáua, as frases são híbridas mas, mais importante do que dominar a gramática da língua local, sentimos agora que estamos entre iguais. Um prato com xima e ussipa é objecto da comunhão de todos. Fomos aceites. Amanhã será um novo dia. Está em curso o Projecto PalNiassa, uma investigação paleontológica

Os fósseis afloram à superfície em plena savana africana e são meticulosamente escavados, cuidados e acondicionados. É na província mais remota de Moçambique, no Niassa, que surgem terrenos do Pérmico repletos de fósseis. Um punhado de outros países contíguos como a África do Sul, a Tanzânia, o Malawi e a Zâmbia partilham os mesmos tipos de fósseis. No seu conjunto, a este tipo de terrenos chama-se Karoo. As rochas do Karoo encerram em si provavelmente aquele que foi o capítulo mais dramático e controverso da história da vida na Terra. Nos estratos sedimentares datados de há 250 milhões de anos (correspondentes ao final do Pérmico), encontramos algo extraordinário. Cerca de 95% de todas as espécies fósseis desaparecem subitamente do registo geológico por razões ainda não claras. Esta extinção em massa foi bem mais extensa do que a de há 65,5 milhões de anos que provocou o fim de quase todos os dinossauros. No Niassa, estão os sedimentos que preservaram os animais que viveram imediatamente antes da extinção pérmica. Nos estratos imediatamente acima, portanto mais recentes, não há quase nada. O significado é evidente: poucas espécies sobreviveram.

As fronteiras de Moçambique foram traçadas em torno de um turbilhão de formações geológicas onde se cruzam períodos muito diferentes, contendo diferentes fósseis de vertebrados. Esses animais viveram em alturas críticas para o estudo da evolução da vida na Terra e aqueles que foram recolhidos até à data são sinapsídeos.

Este grupo de animais esteve à beira da extinção várias vezes, mas sobreviveu sempre e actualmente é representado pela ordem da qual fazemos parte: os Mammalia. Desde o maior animal que alguma vez existiu na Terra, a baleia-azul, passando pelo minúsculo rato-do-campo, até ao morcego que se alimenta de insectos, somos todos mamíferos. De igual forma, tanto quem escreveu este texto como quem o está a ler, pertence a um grupo de animais cuja origem remonta ao Pérmico. Por outras palavras, partilhamos ancestrais comuns com os sinapsídeos basais moçambicanos que voltam agora à vida. Os fósseis de Moçambique são portanto primos de todos os mamíferos vivos e primos bem mais próximos do que qualquer outro organismo vivo.

Com o objectivo de clarificar esta árvore genealógica dos mamíferos, se possível contribuindo com mais um ramo, a expedição PalNiassa iniciou-se em 2009 com uma campanha de prospecção inicial durante a qual se recolheram os primeiros fósseis.

Depois de uma exploração no calor tórrido de Tete, rumámos ao Niassa para junto do grande lago de azul profundo. Aqui, como em muitas paisagens de escassa vegetação, a identificação de fósseis é bem pior do que encontrar uma agulha no palheiro. Se não soubermos o que procurar e que indícios devemos ter em conta numa expedição, a sorte raramente sorri. Apoiados nos mapas, nas cartas topográficas e nos estudos científicos anteriores, batemos o vale do rio de uma ponta a outra, mas, dia após dia a frustração aumentava. A equipa estava desmoralizada. Já ninguém acreditava, o frio do vale à noite só era disfarçado pelo calor da fogueira enquanto ouvíamos, impotentes, os rituais de tambores e cânticos do nhago jáua. Em desespero de causa, voltámo-nos para o velho guia e batedor da expedição.

– Bambo, o que podemos fazer? Faça-nos uma oração.

Bambo, o velho régulo Luís Macuango, ex-combatente que se refugiou na Tanzânia nos tempos da guerra, proferiu palavras simples:

– Amanhã vamos andar bem.

Aquela fase, proferida pior um rosto gretado e sulcado por mil e uma rugas, estarreceu-nos pela sua simplicidade e profundidade. No dia seguinte, fizemos as malas, comemos o mata-bicho, e continuámos a caminhar, tal como já fazíamos há tantos dias. Aparentemente, pouco diferia da véspera. Mas, a certa altura, sob o Sol inclemente do meio-dia, ouvimos um grito de estridente loucura proveniente do capim:

– Encontrei!

Ali estava. Um crânio completo de um pequeno sinapsídeo brilhando na palma das nossas mãos.

Foi o primeiro de vários crânios descobertos desde então. Passado um ano, em 2010, a equipa foi reforçada em pessoas, tempo e material. Foram recolhidos mais vertebrados fósseis com ajuda de estudantes e técnicos moçambicanos e finalmente, em 2011, meia tonelada de fósseis foi despachada da capital do Niassa, Lichinga, em direcção a Portugal para que pudessem ser preparados e estudados no Museu da Lourinha, parceiro do projecto desde a primeira hora.

Com os fósseis, aterrou também em Lisboa um técnico moçambicano: Salimo Murrula. Desde essa altura que tem vindo, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e do governo moçambicano a formar-se como o primeiro técnico em preparação e curadoria de fósseis de Moçambique. É o primeiro de vários que se seguirão, pois um dos objectivos do Projecto PalNiassa passa por formar cientistas para que os fósseis, muito em breve, possam ser preparados e estudados no país de origem. De acordo com o estipulado nas condições de escavação, alguns fósseis já foram devolvidos e encontram-se expostos no Museu Nacional de Geologia, em Maputo.

Mais do que estudar e valorizar o seu património, Moçambique está a dar passos na educação dos seus futuros investigadores e técnicos. “Queremos que no futuro, estes fósseis possam ser preparados e expostos em Moçambique. Isto só poderá acontecer se formarmos especialistas que o saibam fazer”, resume Luís Costa Júnior, director do Museu Nacional de Geologia de Moçambique e um dos líderes dos projecto PalNiassa.

Os fósseis que Salimo prepara passam por um longo e rigoroso processo de remoção da rocha através de vários métodos, isolando somente os ossos delicados destes seres bizarros. Concentração do ácido fórmico, micromartelos pneumáticos, super-colas e adesivos passaram a ser ferramentas que Salimo utiliza com destreza no seu quotidiano no Museu da Lourinhã. Enquanto vai aprendendo as técnicas de preparação química e mecânica, para poder aplicá-las em Moçambique quando finalizar a sua formação, vai desvendando mais detalhes destes sinapsídeos.

Um dos espécimes que passou pelas suas mãos foi o primeiro vertebrado fóssil descoberto em 2009. Esse espécime compreende um crânio e mandíbula completos, com uma sequência de 19 vértebras e costelas articuladas bem como a cintura pélvica completa e uma boa parte do fémur. Todos os detalhes anatómicos ficaram preservados, incluindo os canais e perfurações por onde passavam as veias e nervos, ou sistemas sensoriais como o ouvido interno.

Para continuar a analisar o interior do crânio fóssil, foi necessário fazer uma Tomografia Axial Computorizada. Viajámos até Hamburgo onde nos aguardava um aparelho que permitiu ver por entre a rocha e isolar somente a anatomia do crânio, um micro CT. Para nossa surpresa, encontrámos vários dentes! É um resultado surpreendente, uma vez que todos os dicinodontes que estão relacionados com esta espécie não os têm. Os dentes são minúsculos e, não fosse a ajuda das instalações do sincrotrão de Hamburgo e a experiência técnica de Rui Martins (do Instituto Tecnológico e Nuclear), estes detalhes permaneceriam ocultos. Provavelmente será uma nova espécie. A confirmar-se, será a primeira espécie autóctone de um vertebrado fóssil de Moçambique. E isso é só o início de um capítulo do livro da Terra no país.

De entre todos os tetrápodes que existiram no planeta durante o Pérmico, os sinapsídeos foram os mais diversificados e numerosos. Lutando pela sobrevivência, ocuparam praticamente todos os habitats do nosso planeta, foram dizimados pela maior extinção em massa que o registo geológico nos dá conta e alguns sobreviventes deram origem à nossa própria linhagem. Das profundezas da savana moçambicana, desenterrámos assim o que resta do nosso passado profundo, na ambição de compreendermos um pouco mais de nós próprios e de como chegámos até aqui, olhando milhões de anos e milhões de gerações para trás.

Moçambique contém uma chave, talvez a chave, para podermos compreender mais sobre as nossas origens e a razão de estarmos todos ainda aqui.

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