José Carlos Brito

Texto de Paulo Farinha Publicado em setembro de 2005

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Mas este biólogo do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto já não pensa nas dificuldade encontradas no terreno. Agora as dificuldades são outras e prendem-se com a análise laboratorial de todo o material recolhido desde Agosto do ano passado. Em sucessivas viagens que fez à Tunísia, Líbia, Níger, Burkina Faso, Mali, Senegal, Mauritânia e Marrocos, José Carlos Brito capturou centenas de lagartixas-de-dedos-denteados para tentar descortinar a história evolutiva deste género. “Pretendo saber de que forma os factores geológicos, climáticos e paleoclimáticos [registados ao longo da evolução do planeta] influenciaram a diversidade genética e morfológica das espécies daquela região”.

Para entender as palavras do biólogo, temos de recuar até há cerca de 5,3 milhões de anos. Na passagem para o Pliocénico, a Europa separou-se da África, dando origem ao estreito de Gibraltar e à abertura do mar Mediterrâneo. Nesse momento, algumas espécies desta lagartixa ficaram separadas, desenvolvendo características distintas. Outros factores de ordem climática e geológica, como o avanço e recuo do gigantesco deserto do Saara – que nem sempre foi tão gigantesco –, contribuíram também para a diferenciação de espécies, dando origem a pequenas bolsas de populações isoladas. “A Península Ibérica e o Norte de África são um gigantesco laboratório vivo. Se percebermos qual a história evolutiva destas lagartixas, podemos associá-la a fenómenos paleoclimáticos e geológicos de grande impacte, sobretudo porque são animais com pouco ruído no sinal evolutivo”, acrescenta José Carlos Brito. Ou seja, como as lagartixas têm pouca convivência com o homem, as populações humanas pouco ou nada contribuíram para as alterações que estes animais sofreram nos últimos milénios.

De acordo com a rede de amostragem criada para o projecto, José Carlos Brito capturou vários indivíduos de 15 das 18 espécies de largartixa-de-dedos-denteados conhecidas. Das restantes três, uma só ocorre no Burkina Faso (não tendo sido encontrada nenhuma) e as outras duas são endémicas da Argélia, onde o biólogo não pôde ir porque só é possível circular nas estradas alcatroadas, em coluna militar. “As melhores ocasiões para capturar lagartixas são o nascer e o pôr do Sol, quando saem dos refúgios para se alimentar”, diz o investigador, que capturava os animais por meio de emboscadas ou “recorrendo à velha técnica de escavar, escavar, escavar com as mãos, até as encontrar”.

A única lagartixa-de-dedos-denteados que ocorre na Península Ibérica (e que pode ser vista em Portugal) é, na verdade, uma sub espécie da Acanthodactylus erythrurus, que também ocorre em Marrocos. No entanto, a sistemática deste grupo não é clara, e há autores que não a reconhecem como válida. Dentro de alguns meses, quando toda a análise laboratorial estiver concluída, talvez o investigador português possa dar respostas definitivas a esta e outras questões. É que, além de indicadores morfológicos como o padrão de coloração, o número de escamas e as características das patas posteriores, os indivíduos capturados estão também a ser analisados do ponto de vista genético, através da sequenciação do DNA. E é aí que reside uma das inovações deste estudo. “As sucessivas revisões sistemáticas de que esta lagartixa foi alvo nunca foram baseadas em características genéticas”, diz José Carlos Brito. Por essa razão, os resultados finais são aguardados com alguma ansiedade. Para já, o tabuleiro das possibilidades sujeitas a confirmação contém a identificação de duas novas espécies (em exemplares capturados na Líbia, no Níger e no Saara Ocidental), a unificação de duas espécies até aqui descritas como distintas (do Norte da Tunísia e de Marrocos) numa só, e o alargamento da área de distribuição de uma outra. No fim do ano saberemos.

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